quarta-feira, 18 de julho de 2018

O SOPRO DA VINDA

Você transforma tudo...
E o seu poder, está na distração
Naquela que não pode ser consumida
Nem simulada.

Amo você tanto mais 
no que antes 
parecia conhecer menos 
E hoje, apenas sei. 

Só o saber com amor
Reserva entendimento:
Tudo mais são jogos de ilusão
Premissas criadas em desespero
Pelo que se pressente
Incontrolável. 

Há um amor indizível 
No desconhecido 
Na coragem de simplesmente 
Poder tatear teu coração com o meu
E os teus silêncios com os meus sentidos. 

Amo você em nossos desacertos 
Porque me provam que desafiamos 
O tempo
Ele a nós
E nós ao infinito. 

Se permanecemos
Uma década de códigos 
E luzes de pisca-pisca nas savanas, 
É porque somos capazes de amar
Selvagens 
Por entre tão áridas estações de concreto,

É porque insistimos 
Em embarcar no trem, barulhento
Por entre a dureza dos trilhos de ferro
Para que ao toque da nossa lúdica sintonia
Possamos abandonar os sapatos 
E desembarcar descalços 
Na alada ventura que nos espera
Por entre voos de espécimes raras 
Nunca dantes descobertas.

Amar não é ato que se cometa
Mas acometimento de alma 
E eu ouço a tua voz
De mim ela não se esconde,
Ela ecoa por entre os galhos
Atravessa as estrelas... 

E em tudo o há de haver
Há apenas uma certeza: 

Só sente o pulsar da floresta 
Um coração que a ela pertença. 

(27/11/17 - 00:57)

Ilustração: “The day I lost my heart”, de Catrin Welz-Stein. 



quarta-feira, 21 de junho de 2017

TEATRO DO ABSURDO

Desculpe-me a franqueza,
Mas não,
Você não é fraco
Todos os seus movimentos são friamente
Calculados.

Na verdade você apenas não se importa
Porque alguma parte de você assimilou
Que o amor é fraqueza
E ser franco, direto
É armar a própria cilada

Você prefere repetir os mesmos caminhos
Fadados ao fracasso
Que jamais te bastam ou bastaram
Por já saber como dominá-los
E injetar a dose exata
Para trazerem à tona
Os seus demônios de estimação.

Você vive para o seu próprio descontentamento
Carregando uma cruz que só é sacra
Porque você se permite sempre
O seu próprio perdão
Inventa argumentos com a facilidade
De um vendedor de sonhos.

Você finge muito bem pra você mesmo
Que tem coragem de ser
De amar
O suficiente pra você jamais questionar o seu método abortivo

Abortivo de possibilidades
De sonhos
De realmente se auto-conhecer
Porque na verdade
Você só quer se sentir inatingível
Enquanto assiste a derrubada das defesas
Que faz de todos aqueles que te cercam
E realmente se importam.

Você alimenta a impossibilidade
Pra poder torná-la possível
Com frases de efeito
Vazias de conteúdo real
Na prática

Você se apaixonou pelo personagem que criou de si mesmo
E vive de bradar forças
Que na verdade
Você desconhece completamente.

Seu escudo não te protege
Ele fere os que estão atras dele
Do mesmo lado que você
A cada guerra imaginária que cria
Pra não encarar sua próprias armas
De destruição em massa.

Você brinca de Deus
Para se convencer de que conhece na pele
O martírio
Mas é mentira:
Você se esconde,
Se exime,
Lambe seu próprio reflexo no espelho
Como um gato hipnotizado pela imagem
Que propaga no mundo
E vive engasgado com os próprios pelos.

Me perdoe a fraqueza
De ser fraca em ser de mentira
Me perdoe por ser de verdade
De carne e osso
De palavra e atitude

Por esfregar na sua cara
A minha entrega real
A minha dor real
Em meio ao seu teatro do absurdo
Feito pra cego ver
E pra você fugir
Com ares de sobrevivente
Quando o seu caos não passa
De um jogo de tabuleiro infantil
Onde o único vencedor
É o seu medo de ser de verdade.



É DAS ÁRVORES QUE SE FAZ PAPEL

Há vezes
Leva anos
Até que eu decida
Abrir um caderno novo,
Adentrá-lo.

O zelo que tenho
Para trazê-lo a mim,
Deitar-me nele
- Com minhas palavras -
Torna-se ritualístico,
Uma mimese estreita
Entre diálogo e risco,
Enquanto a ênfase se esgueira
E não se cala.

Afinal,
Escolher palavras
É entregá-las ao inóspito,
- Cruas -
É expor
Sua carne vocábulo,
Mastigar a língua
Engolindo os olhos
Ainda que estejam fechados,
E a boca, muda.

Mas uma vez aberto
- o caderno –
Não há volta:
É feito o trato
E a vida ali transcorre nascente
Flui córrego
Estufa o solo,
A semente,
Ergue-se fértil
Aos pés
Do céu estático.

Tudo o que nasce ali
Então se move:
Seja medo
Maré
Montanha,
Descaso de amor que se ganha,
Ou adeus que se perde no verso.

A fé só lê de perto
Quem a acompanha,
Que não teme renascer da lama
Nem abandonar o drama
E fechar de vez o seu velho caderno.

(Ilustração de Maja Lindberg)


sábado, 17 de junho de 2017

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
Claro
E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
Com os olhos
E batesse no peito com a humildade
De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
Haveria como professar a fé
Sem que te sentisses um otário?

domingo, 1 de janeiro de 2017

TERRA DO SOL

Eu vi...
Teus olhos me atravessaram
Como no princípio

Mas não era rastro de fogo,
Foco de incêndio inflamando
O céu em fogos de artifício...

Era a chama mais íntima
De um fósforo
Que estivera a espera
Pela faísca mais exata
- E precisa -
A combustão espontânea
Prestes a se alastrar dos olhos
Para o além espaço e sem medida.

Eu sei...
Teus olhos sequer piscaram
Não desviaram um segundo sequer
Dos meus lábios
Foi como se me beijasse a boca
E tirasse de mim cada palavra
- inda sílaba -
Me oferecendo nos braços
O laço exato do aconchego
Que chegaria,
- apenas e a tempo -
Com a tua vinda.

E sequer tive medo
Sequer raciocinei
Ou criei expectativas...

Foi como se finalmente
- Das cinzas -
Todas as minhas instâncias
- Poesia e Poeta -
Estivessem renascidas.

Eu vi:
O fósforo
Teus olhos

A faísca.

RECEPTIVO

Você ouviu o céu
Versejando luzes
E trovões
Por tua chegada?

A lua, mesmo assustada
Brilhou ainda mais alta e plena
E o poema
Me foi a única resposta possível

Você chegou
E veio rasgando o meu nome
A minha certeza
O meu pedaço mais revirado

E nem pude sentir os teus braços
Ou fazê-los de abrigo
A certeza antes tão longínqua
- e solitária -
atravessou o tempo, o medo
- e o risco da estrada -

Para ser esta linha
- de chegada -
Contigo.
(20/03/16)

POEMA DE PALETA

É tão pouco
O claro
Do que enxergo
- Imenso -
Fosse a dimensão
Mera questão de colorir
- O vento -
No inverno,
E em silêncio.

Sou preta
Azul púrpura
E rosa acetinado

Sou fúcsia
Cor de abóbora
E violeta...

Sou laranja
Verde musgo
E também sou chumbo
Se me deseja...

Mas sou cor de fundo
Se me decora
Em tua letra.
(21/03/16)

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