É DAS ÁRVORES QUE SE FAZ PAPEL

Há vezes
Leva anos
Até que eu decida
Abrir um caderno novo,
Adentrá-lo.

O zelo que tenho
Para trazê-lo a mim,
Deitar-me nele
- Com minhas palavras -
Torna-se ritualístico,
Uma mimese estreita
Entre diálogo e risco,
Enquanto a ênfase se esgueira
E não se cala.

Afinal,
Escolher palavras
É entregá-las ao inóspito,
- Cruas -
É expor
Sua carne vocábulo,
Mastigar a língua
Engolindo os olhos
Ainda que estejam fechados,
E a boca, muda.

Mas uma vez aberto
- o caderno –
Não há volta:
É feito o trato
E a vida ali transcorre nascente
Flui córrego
Estufa o solo,
A semente,
Ergue-se fértil
Aos pés
Do céu estático.

Tudo o que nasce ali
Então se move:
Seja medo
Maré
Montanha,
Descaso de amor que se ganha,
Ou adeus que se perde no verso.

A fé só lê de perto
Quem a acompanha,
Que não teme renascer da lama
Nem abandonar o drama
E fechar de vez o seu velho caderno.

(Ilustração de Maja Lindberg)


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