terça-feira, 28 de março de 2017

SINTONIA FINA

Ao meu amor
Mudo
Os sons graves no estetoscópio
O levante em arco dos pássaros
- Em bando -
Narrando em sons miúdos
O voo livre que há no ócio.

Ao meu amor
Mudo
A ligeireza singela dos pingos de chuva
O som evaporado em estado de nuvem
Que ninguém mais escuta.

Ao meu amor
Mudo
A cadência dos passos
Que o aguardam na varanda
E o volume de meus abraços
Que trazem beijos na garganta.

Ao meu amor
Mudo
A infância,
A agudez experienciada
Na fé das crianças,
E as vozes em voo de águia
Quando do balanço
Suas mãos forem a alavanca.

Ao meu amor
Mudo
A veemência metalizada
Dos sons do vento
A brisa bem breve
Das forças dadas
Pelo caminho que nos cria
O tempo.

Ao meu amor
Mudo
O silêncio,
O mais sereno dos contraltos:
Mesmo que em tons mais baixos
Há o luzir de seus passos, lentos.

Ao meu amor
Mudo
Meus vultos no espelho,
E meus poemas
- Todos -
Sem lei, de aço

A cadência dos versos
Que nele encontram
A cor dos sonhos
- Quando me deito -
A luz dos olhos
Quando acordado.

(08/03/17 - 19:50)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A SINTONIA DO SILÊNCIO NO CAOS DO MUNDO

O que te faz sentir vivo?
O que, potencialmente,
Torna a tua existência viável,
Mesmo diante de toda e qualquer perda?

O teu ofício, a tua arte:
Ela é o motor e o combustível de cada sonho,
Das realizações que alcanças pelo caminho.

É o teu altar de equilíbrio
Tua prece de loucura
Tua instância mais pura
Quiçá, a única libertadora.

Mas para seguir acessando essa dimensão
Para que extraia dela e de si
O aparato que o mundo precisa
Para além da tua força criadora
E artística,
É preciso equalizar o ruído da roda do mundo com a do próprio peito
A ponto de silenciar o caos em movimento.

O caos continuará ali
Em golpes de imagem
Exercendo a atração exata
Para degenerar a força reparadora
De cada um dos teus dons...

Mas tu não ouvirás nada
E assim tua mente terá a concentração necessária para trilhar o percurso
Por sobre o que os teus olhos não alcançam.

A cada verso
A cada acorde
A vibração criadora
Sacudirá os tronos e as masmorras,
E a tua voz,
Será dona da mensagem e da honra:

Exerce o teu poder de perceber
O que há por trás das sombras,
Mas deixa a luz do sol
Ser a bússola
Para que, e só então,
Busques em terra nova
A tua palavra, pronta.

(06/02/2017 - 04:46)

domingo, 1 de janeiro de 2017

TERRA DO SOL

Eu vi...
Teus olhos me atravessaram
Como no princípio

Mas não era rastro de fogo,
Foco de incêndio inflamando
O céu em fogos de artifício...

Era a chama mais íntima
De um fósforo
Que estivera a espera
Pela faísca mais exata
- E precisa -
A combustão espontânea
Prestes a se alastrar dos olhos
Para o além espaço e sem medida.

Eu sei...
Teus olhos sequer piscaram
Não desviaram um segundo sequer
Dos meus lábios
Foi como se me beijasse a boca
E tirasse de mim cada palavra
- inda sílaba -
Me oferecendo nos braços
O laço exato do aconchego
Que chegaria,
- apenas e a tempo -
Com a tua vinda.

E sequer tive medo
Sequer raciocinei
Ou criei expectativas...

Foi como se finalmente
- Das cinzas -
Todas as minhas instâncias
- Poesia e Poeta -
Estivessem renascidas.

Eu vi:
O fósforo
Teus olhos

A faísca.

RECEPTIVO

Você ouviu o céu
Versejando luzes
E trovões
Por tua chegada?

A lua, mesmo assustada
Brilhou ainda mais alta e plena
E o poema
Me foi a única resposta possível

Você chegou
E veio rasgando o meu nome
A minha certeza
O meu pedaço mais revirado

E nem pude sentir os teus braços
Ou fazê-los de abrigo
A certeza antes tão longínqua
- e solitária -
atravessou o tempo, o medo
- e o risco da estrada -

Para ser esta linha
- de chegada -
Contigo.
(20/03/16)

POEMA DE PALETA

É tão pouco
O claro
Do que enxergo
- Imenso -
Fosse a dimensão
Mera questão de colorir
- O vento -
No inverno,
E em silêncio.

Sou preta
Azul púrpura
E rosa acetinado

Sou fúcsia
Cor de abóbora
E violeta...

Sou laranja
Verde musgo
E também sou chumbo
Se me deseja...

Mas sou cor de fundo
Se me decora
Em tua letra.
(21/03/16)