DESATA NÓ

Era tanta cor
Que você não via
- Não reparava -
Na expressão quase didática
Das minhas sílabas,
No meu corpo irradiando
Dons em metamorfose

E hoje,
Chove...

Por tantas vezes tentei
Devolver o meu amor à tua posse
- Roubei-me pra ti -
Fiz-te fiel depositário
de minhas asas
E fui caminhando
Pés corroendo a pele no asfalto
Por ilhas e cidades inteiras

Evaporei ruas manchadas de poeira
As relíquias em frases sem sujeito
Sem transcendências
Sem transitivos diretos
Recortados do pouco caso
Do teu mesmo e exato pretexto.

A sobriedade dos descaminhos
Trouxe cada um dos enganos
Cada um dos anos adiados
E varridos para baixo do pano.

Mas a memória, irrestrita
-Sempre que eram fechadas as cortinas
Trazia à luz dos olhos
Cada risada, cada lembrança
Sem ameaça qualquer de despejo:
Sim, havia apetite de amor
E alma, em cada beijo.

Era fome,
Abstração carcomida nos dentes
Era trégua
Fronteiriça
Entre acaso e destino.

Mas a dor na superfície
- Como se não à toa insistisse -
Perseguia cavalos no abismo
Recortados aos solavancos.

E eu escolhi ver-te, vindo
Bicho selvagem e ferido
Sangrando à beira do precipício,
Escolhi dar-te água do mar
Para salgar tuas chagas
- Curá-las -
Mas ao fim era tu que me abrigavas,
- Ninava minhas horas -
Com os cuidados e a calma
Que te deram meu sorriso.

Os trilhos do trem arremessados
Na cronologia acidentada dos oceanos
Submerso fora o amor,
Por entre mágoas, silencioso
Invadindo limites de terra
Engolindo a cada passo um poema
Entregue como náufrago
Em mar revolto.

Dá de ver, o vento já é outro,
Mas a maré só devolve
A palavra
A vida
- O firmamento sob nossas cabeças -

Se antes de chegar ao quebra-mar
A fé for capaz de atravessar
A correnteza.
(Abril/2016)

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