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MENSAGEM NA GARRAFA

Meu amor,
- Me perdoa -
Mas nada foi à toa,
Nenhum movimento
Foi assim tão friamente calculado.

O tempo é exato
E não o contrário,
E talvez por tantas horas
Em que minha fé fora dias
Por tantas palavras tuas
Que apenas me deixaram sozinha,
- Eu tenha acreditado -

Não, eu jamais soube do teu amor
Como um bem intacto,
Tua distância foi me tirando
Cada sonho, cada esperança,
Foi vestindo nossos silêncios
De vazio
Cada memória
De indiferença
E os teus olhos me fugiam sempre
- não te esqueça -

Sim, tentei de tudo
Mas não fui essa fera selvagem
Essa pantera,
Não fingi as feridas
De teus escudos
Não inventei teus discursos
Não simulei os os teus lapsos de amores
Com cada uma das tuas belas.

Mas ainda assim
Resisti...
Tamanho era meu bem querer
E minha procura
Cega...

Não havia nenhum plano
E de repente lá estava eu,
Ressurgindo resma de teu abandono
Presença nem sempre lúdica
Ou discreta.

Não te esquece, sou poeta!

E desde que tu me vieste
Tudo que era teu, meu amor
Também me veio:
Acabei virando o parâmetro
De como sobreviver em teu peito
- Sem nada -
No escuro mais absoluto
E alheio.

Sofri cada teste, cada estrago
Guardei a vontade de cada beijo
- Cada abraço -
No desamparo maledicente
Dos teus verbos de escárnio
Disparados à queima-roupa.

Eu sei,
Não foi por algum mal que me quisesse
Mas pelo peso das correntes
Que arrastavas a cada breve Despedida.

Como último sopro de meu amor
- Sem dono -
Te dei o termo tão longínquo
Quanto a espera e o esforço,
Atravessei o estado aparente
- Do oceano -
E te entreguei cada jura de amor
Sem mais promessas ou santos,
por escrito.

Mas tua voz não veio
Nem tua letra
Ou teu amparo...
Ficou só aquele imenso e temido
Vazio,
No vasto.

E nem viste quando me despedi
Sequer olhaste para tudo o que te dei:
Ficaste refém dos saberes
Que me atribuíste para não acreditares
Que juntos iríamos além.

E era tudo verdade,
Meu amor...

Verdade
Toda,
- E tua -
Assim como eu...

Mas desta vez
Vê se olha no meu olho
E me escuta.
(21 de Março de 2016)

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