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DESFILADEIRO

Hoje
Meu coração parou
E faltou-me o ar
A provisão mínima
De sobrevivência
Sem ti.

Tudo revelou-se
Deserto
E tão íntimo
Quanto a fonte
Inesgotável
De calor que queima
Minha pele
Quando te vejo
Ao vago.

Tua hora
Paralisa os ponteiros
Do meu destino
E pereço-me era
A reaver espécimes 
 - extintos -

Me pega no colo
E me leva pra longe
Pra onde meus olhos
Sequer precisam ver
E eu preciso
Apenas ser
Tua.

Olha bem teus olhos
Naquele espelho
E vê a minha loucura
Minha timidez devassada
E tudo teu meu
E eu em ti.

Eu creio
No dia
Que aponta
O horizonte
Das tuas palavras
Logo rítmicas...
 
E te escrevo
Outra carta
Quiçá de amor
Quiçá de despedida.

...

Vistes?
Vou por aqui,
Por enquanto.

E tu?
Quando? 
(05/03/14)

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PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
Claro
E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
Com os olhos
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De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
Haveria como professar a fé
Sem que te sentisses um otário?