quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

AMOR REMOTO

Apaga a luz
E assiste
Ao tempo
Clarear o vulto
Dos meus olhos

É no lapso dos outros
Sentidos
Que se ouve o pulsar permanente
Do que é sóbrio
E do que é sombrio

Guarda a sede
Cronometrada no silêncio,
Engole seco
A saliva
E deixa extinguir
O fóssil frágil
De voz primitiva

Deixa de habitar nau à deriva
E te atira
Ao mar

Esquece do chão
E da sensação de terra firme
Acostuma o teu olhar
Ao sol de vime
E as tuas pernas
À correnteza...

Apóia o medo na tormenta seca
E sobrevive,
Sem precisar de qualquer certeza:

Na imprecisão do mar
Só há que se duvidar
De maré certeira.
(04/08/15)

SOBRE DONS E RESGATES

Há versos
Que atravessam rios
Caminham sedes sobre as águas

Mas se desfeitas as metáforas
- São vazio -

E o poeta,
O leme
Que os resgata.
(13/03/16)

FORTE DAS CINCO PONTAS

Talvez
Para Marte

A lua seja
- Apenas -

A mais densa
Estrela.
(03/08/15)

ASTRONAUTA

O sol
Inventou
O vento
Para voar
Na terra
E ainda (re)pousar
Nos céus.
(04/08/15)

ESTAÇÕES DE PAPEL

Não me leve
Tão a sério, por favor
Minhas palavras não chegam
Para pesar teus olhos...

Não.
Quero que guarde contigo
E em ti
O meu desejo de vida longa
Feito nas mãos do teu sorriso
A nitidez constrangedora
E a liberdade serena
Que só os teus versos
Acesos na voz presa
Creem comigo.

Em tudo por onde arde
Há princípio
Meu verso
Não é vicio
Não é virtude
Metamorfose ou risco.

Meu verso
É víscera,
Metabolismo simples
Cruel e convicto.

Não.
Não deixa apressar o entendimento
Sem antes enxugar minhas palavras
Do que eu tão profundamente
Ainda desconheço

Não pensa no que sinto
Pelo avesso
Mas enfrenta o espelho
E procura nos teus olhos
A fé de fevereiro
Sem dias santos
Sem teus tantos planos,
De oceanos
O mar está cheio.

Esvazia essa razão
Tão voraz
Que me rapta e mastiga
Os beijos que ainda posso dar
Desde que escrita
A língua esteja
E eu, sozinha.

Fulmina o raio verdejante
Da espera
Rasga a cor do tempo
Que de tão teimoso
Irrompe o gosto da primavera
E seca
A estrela
É estréia...
Nem toda lua é cheia
Nem todo amor que já se foi
Então já era.
(11/08/15)

MORFOLOGIA

Ondas
De transmissão
Vorazes
Sussurram-me ao pé do ouvido:
Não fujo.

Sou antena,
Para-raios
E antígeno,
Genuinamente abrasivo.
(02/09/15)

DA PRIMAVERA E DAS PRECIPITAÇÕES

Hoje
Um temporal
Contou-me
De previsões:

De como acha graça
dos que pensam
ser probabilidade
a precipitação,
E fenômeno
O curso natural
Do que é invisível.

Não me vejo
Pois o sentido que aguça
Minha sobrevivência
É a percepção do entorno:
Sou tantos
- E por muito pouco -
Nem sequer teria início.

Os que atravessam
Minha inquietude
Encontram-me em precipícios

- Não em vozes de virtude -
Mas erguida e firme
A cada tropeço.
(20/09/15)

DEPOIS DA CURVA

A sensação
é de um grande
e profundo
engasgo:
daqueles que permitem
A respiração
Apenas o suficiente
Para deixar sobreviver.

Não sofro de nada.
Sofro em mim
Tudo o que esqueço
para conseguir dormir,
E sigo acordada.

O sol visita as pálpebras
Com misericórdia,
mas sou bicho
e não reconheço como fé
O que é
Instinto.

A memória engole
Subtítulos
E, sem titubear,
Recria saudades
Das mais irremediáveis.

Não é triste
Mas vasto,
- o ofício -
Mesmo quando cabisbaixo
Guarda em si
Dignidade.

Há um curso
Para os olhos
Do pecado
Ou será que se perdem
Quando os meus olhos
Te acham?
(12/01/16)

METALINGUAGEM

A língua
Contorna o poder
Com elegância
E decisão
Em rota hábil
E precisa.

Seu vocabulário
Não insinua
Porque diz a quem quer que ouça
Sem termos intermediários
Sem cláusula, contrato firmado
Ou firma reconhecida.

A língua ousa ser direta
Pois assim prefere
- Ser lânguida -
E no prazer, ser lida.
(20/03/16)

FENÔMENO

Porque você tem as palavras
Mais limpas
Sempre expostas no varal
Até evaporar cada gota
- De dúvida -
E a poesia ficar pronta
Pra que eu possa recolhê-la,
Enxuta.

SOPRO VIVO

Faz tempo,
A minha poesia não respira
Sozinha...

Quer dizer,
Fazia.

Agora, além de respirar
Ela suspira.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

DESFILADEIRO

Hoje
Meu coração parou
E faltou-me o ar
A provisão mínima
De sobrevivência
Sem ti.

Tudo revelou-se
Deserto
E tão íntimo
Quanto a fonte
Inesgotável
De calor que queima
Minha pele
Quando te vejo
Ao vago.

Tua hora
Paralisa os ponteiros
Do meu destino
E pereço-me era
A reaver espécimes 
 - extintos -

Me pega no colo
E me leva pra longe
Pra onde meus olhos
Sequer precisam ver
E eu preciso
Apenas ser
Tua.

Olha bem teus olhos
Naquele espelho
E vê a minha loucura
Minha timidez devassada
E tudo teu meu
E eu em ti.

Eu creio
No dia
Que aponta
O horizonte
Das tuas palavras
Logo rítmicas...
 
E te escrevo
Outra carta
Quiçá de amor
Quiçá de despedida.

...

Vistes?
Vou por aqui,
Por enquanto.

E tu?
Quando? 
(05/03/14)

ANTEPOSTO

Há quem redescubra o céu
Por entre limites
De vertigem profunda
Há quem dispare o peito
Arranque o fôlego
Apenas para demonstrar
Que a aridez dos dias sombrios
Jamais sufocará a bravura
De quem ousa sobreviver
Aos abismos.

Há quem embale o medo
Nos olhos
E ponha pra dormir o temor
Do dia seguinte
Há quem desperte na língua
O gosto atenuante
Da liberdade
Há quem esfregue os lábios
Com a ternura descompassada
De um beijo roubado
E esbaforido
Há quem rapte de mão beijada
A ausência que antes fora digna
Do infinito.

SANTO CORPO

Meu papel é teu corpo
Sempre disposto
Cúmplice e acelerado
Ao disparar
De minhas palavras mais honestas
Aos teus impulsos
Mais alterados.

Meu papel é a tua respiração
Lenta ou descompassada
E a tua voz em meus ouvidos
E as minhas mãos em tuas costas.

Meu papel é o teu desejo
Em meu tempo,
- sempre uma incógnita -
No anseio infinito
Por tuas respostas.
(01/07/14)

ENCONTRO DAS ÁGUAS

Sentou-se à beira do rio
E para seu espanto
Não fora reflexo
o que viu.

Não fora a lua
Espelhada n'água parada
E funda,
Nem a noite,
Esse véu de luzes
Sustentando cada estrela

Não fora imagem
- Mas fora poema -
A desconstrução silenciosa
Do medo
Evaporando-se às margens
Da lua cheia.

Duvidou.
Ergueu a coragem,
Aquela rocha enorme e quebradiça
E arremessou
Na água, a dúvida.

Pedra é palavra breve
- não raro afunda -

O poema
- se for de amor -
É como chuva:

A gota desce
Feito miragem vinda do céu
E me procura.
(20/04/16)

DELAÇÃO REPATRIADA (E DESPATRIADA)

Brasília,
- não é de hoje -
amanhece magoada:

Seus campos urgem cor de terra
- Seca -
o azul surge num céu que parece beira
- mas não é água -
É a umidade que guarda-se
Para não ser lavada a seco
Nem evaporada a jato
Por onde passa
- Ou se arrebenta -
Por queda de força
Ou de represa.

Por entre os arbustos
Os seus planos tão cheios de asas
Preferem o longo percurso do chão ardendo em brasa e areia:
A vista que se tem do verde
É só a da bandeira
Como oásis no deserto.

Ordem e progresso
E as estrelas do Cruzeiro do Sul
Desnorteadas
- E não é de hoje -
Não é plano, o desgoverno
Há a relevância de décadas
Da mísera fome do brasileiro
E do fastio de promessas
- de cuecas -
Cheias de dinheiro.

Caêtando
(pausa)
Jogo de poderes podres
Pobres perderem podem
- o que sequer tem -
Em posse dos que apodrecem
Em ignóbeis causas.

E não é de hoje...

Não há santos
Nem falsos guerreiros
Há o desespero e a sintática
Que a esplanada dos "mistérios"
Há tantos anos reverbera
Como ameaça.

Brasília
Essa ilha do distrito
Destituída como marco de concepção
Para ser cetro
Ora em mãos de delírio
Ora em choque de razão
De amorais da própria didática.

Era pra ser o novo berço
Era pra ser o braço forte
Não era para ser a escrava
Da nova era
- o seu escroque -

Se me comovo
É porque o povo que representa
- à penas pulsa -

Brasília, não é bastilha
É filha de uma mãe parida
- "indigente" -
Expulsa de seu ventre de fome vazia
Como miséria.
(

ENFRENTAMENTO

Não é por ter medo
Que perco
A coragem.
(07/04/16)

POEMA DE FÉ

Ser mulher
Neste mundo
É perpetuar-se
Sem deus.
(17/11/15)

DONO DA LUZ

O tempo todo
Era você:
A sua voz
O seu olhar
A proteção do seu coração
Maciço
E precioso.

Era você
- Muito antes do outono -
Guardando bem entre as mãos
A gentileza do vento em cada sopro,
Carregando a fé imensa como dom
Pendurada no pescoço.

Era você...
Ali, pra mim
- o tempo todo -

Mas o medo,
- Calabouço de toda pretensa coragem
Por vezes congela as pálpebras
Em acrobacias baratas
Que sequer sustentam a verdade.

Não há malabarismo que disfarce
O coração que bate sem pulso nobre,
Não há silêncio que se compare
À voz radiante que se descobre
Quando do cárcere da ilusão
Ela se liberta em volume.

E como não há verso sábio
Sem o apuro frágil de seu curtume,
- Agora eu sei -
Não há poeta nem pulso claro
Sem a luz e o amparo raro do Vagalume.
(26/05/16)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

DI(A)LETO

Não importa o quanto
Escondas
O teu rosto
Ou enfeite a pele
Com as cores da irreverência.

Sei de teus olhos
- Escudos -
Do que segura entre as mãos
Quando fecha teus punhos
O que te desperta, pleno
Na madrugada
Insone.

Não,
Tua saudade não escorre
- Relampeja -
São segundos
Repartidos à milionésima parte
Dos teus sentidos...

Só percebe quem beija teus olhos
De palavra
E, minuciosamente,
Sabe lamber-te o juízo. 
(11/07/2014)

FULL GAS

Tudo em você
Tem o dom da provocação,
A irreverência desconcertante
De quem pinta em si
- O sete -
E mais,
Para brincar com os jogos de azar
E ser um sujeito de sorte, afinal.

Tudo em você
É "full gás"
Mas se fosse a Marina,
Da lima
Você faria uma limonada suíça
Amarga e marcante
Como um arrependimento
Do que valeu a pena.

É embebido na dose dos segredos
Que você satiriza a lógica
Com cada verdade devassa
E mentira honrosa,
Para gozar em conflito
de impulsividade magistral
E exata
- Não exposta -
De teus perigos.

- Não, não é sangue de barata -
Pra correr no teu corpo
Tem que ser veneno caro
E fatal
Mas deixar ressuscitar
antes do terceiro dia.

O medo é o instante
Que conduz o timming
da tua ousadia rítmica,
A tua língua ferina
Tem a mais fina poesia viva
E sabores de mundo
Ricos
Mundanos
Munidos
Dos murmúrios do vazio
Da vazão
Da deliciosa e tímida
Gentileza voraz
Que de tanto negar
Te legitima.

Tua menina
É da água do mar
Que brada aos ventos
Tempestade
Mas tu é o senhor
Da vontade
Proibida
Fênix
Em combustão
Contínua.

Agora para
De querer mover o mundo
Sem causar ânsia
Em quem pensa estar
De cabeça para baixo.

O lapso
Aos óbvios
Alucina,
Aos fracos,
Causa embaraço.
(14/09/2014)

DAS LIMITAÇÕES E DA POESIA

Que a tua única droga
Seja a impermanência:
A que pulsas
- Bem dentro de mim -
E teu único delírio
O gosto salgado
A relampejar o pensamento
Quando me tiveres só tua.

Que a substância da saudade
Seja o único alucinógeno
A corroborar no arrepio
Do reencontro...

Que da tua boca
A minha possa beijar a sede
- Da busca -
Das tantas noites adormecidas
E  em espera absoluta.

Que a faísca seja sempre
- Quimera -
A primeira a lamber nossos corpos
E a libertar nossas mentes
De tudo o que for desacato
À confusão de nossas pernas.

Que da tua natureza
Se faça a fonte
E da minha, a selva

Que o teu instinto
Aguarde a febre e a fissura
De quem se entrega, insone
Mas que adormece em transe
Quando a proximidade da noite
Se revela.
(27/02/2015)

TRABALHO DE PACTO

Eu sou um raio
A proximidade cortante
O que rasga o instante
Um verbo em trabalho de parto,
Natural,
- Coroando -
Eu sou o rebento
E sou o rebanho
Eu me banho no sangue
E antes que o verso estanque
Eu amputo, 
Eu expulso
- o corpo maduro -
Não há instrumento cirúrgico
Não obstante,
O bisturi é meu pulso.
Só há bem
Não há mal que me queira,
E a cada arrancar de pétalas
Evoco a estética
Do amparo.
Esbaforida,
Sou parida ao avesso
Em cada verso,
Que ora atravessa-me as vértebras,
Ora recebe-me em seus braços. 
(23/08/15)

POEMA ESPACIAL

Há um esvaziamento
Do sol
Em rastros luminosos...

O cosmos
Opaco,
É o contraste com o passado
Essa esfera incandescente
De sorrisos.

Vultos operam milagres
Em raras presenças
- Sem expectativa -

A saudade
ainda encontra teus olhos
Em tempo de aeronaves
Na mesma galáxia
- Tão próspera -
Mas perdida.
(02/11/2015)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SONATA DE ANIVERSÁRIO PRESENTIFICADA

Três quartos de madrugada
Plena e encerrada
Na lua que escorro em teu pescoço
Quase que se em mim deixasse o gosto
O teu exasperado hálito de mala pronta
E eu a abarcar em tantas contas de tédio, resultados
Olhando em teu pleito o feito abafado...
Não era de ser ausente
O meu presente de aniversário...

E de fato não o foi
Estava ali
Em cada recorte de vontade
Em cada fuso de nada
No desencontro há só o encontro e um basta...

Que bobagem
A eternidade é um efeito negligente da abstinência
E eu que sempre te soube
Nem frio
Nem estio
Só miragem
Te escorro em saudade tão endêmica
Quanto a cadência exata daquela ausência
Em liberdade.

Telepatias não mais servem às nossas resmas documentadas
Em cada verso só encontro a ávida liturgia do que se cala
Uma simples pólvora intranqüila e controversa
- Há de te ser em mim o que resta -
Hei de te ser o que me for
E eu não tenho pressa.
(10/07/2010)

SANTO DE LIRA

Santo.
Prometi não maldizer-te o nome em vão
Mas se ergo nos braços os raios em imensidão
Como não regozijar-me no vão sacro dos homens bons?

Porque quando me olhas então
Afundas na fé lúdica e livra-te de minhas mãos
E não leva-me em tuas bençãos
E não serve-me em teus anseios?

Rezo a acontecer-te em mais silêncios
E quando é óstia o que recebo
- Mastigo -
A degustar teus sacrifícios desatentos.

Diz o tempo
- Esfera etérea além- fora-do-eixo -
Que relógios devotam seus ponteiros
Aos teus recessos tão caóticos e desordeiros.

Como ousas me elevar ao altar do imenso
Sem ao menos adentrar em meu ilógico devassar
Em não-extensos?

Por isso te escrevo, ó Santo de delírio
E é para quem rezo forte
Meu norte são teus medos
Teus meios são meu mote!

Anote!
Pois é de crer que ergue-se esta lira
Em suave sopro de impacto lento
Em remoto controle do que rege o firmamento.

Firmo o pensamento
Pois é vida o que se esconde por trás do monge
- Imagino o magenta dos teus montes -
Equiparados ao longe
Dos comensais da morte no horizonte.

Santo!
A lira é teu nome
Que calo em oferenda sábia e nada sacra
Sem maldizer o que a fé esconde na palavra!

Escuta
Eu venho do mar que se ilumina
Na fonte das sombras e sem ressalvas
Eu sou teu resgate pronto
A confundir o bem das tuas causas
- Eu sou a pausa -
A tímida (e absurda) regalia que mal te basta.

Eu sou a fé descalça
A caminhar apta por sobre a brasa
E como já dizia a lauda
Onde há fé, há fumaça
Por isso rogo aos céus
Que inda me chovam tuas graças!
(04/01/11)

MENSAGEM NA GARRAFA

Meu amor,
- Me perdoa -
Mas nada foi à toa,
Nenhum movimento
Foi assim tão friamente calculado.

O tempo é exato
E não o contrário,
E talvez por tantas horas
Em que minha fé fora dias
Por tantas palavras tuas
Que apenas me deixaram sozinha,
- Eu tenha acreditado -

Não, eu jamais soube do teu amor
Como um bem intacto,
Tua distância foi me tirando
Cada sonho, cada esperança,
Foi vestindo nossos silêncios
De vazio
Cada memória
De indiferença
E os teus olhos me fugiam sempre
- não te esqueça -

Sim, tentei de tudo
Mas não fui essa fera selvagem
Essa pantera,
Não fingi as feridas
De teus escudos
Não inventei teus discursos
Não simulei os os teus lapsos de amores
Com cada uma das tuas belas.

Mas ainda assim
Resisti...
Tamanho era meu bem querer
E minha procura
Cega...

Não havia nenhum plano
E de repente lá estava eu,
Ressurgindo resma de teu abandono
Presença nem sempre lúdica
Ou discreta.

Não te esquece, sou poeta!

E desde que tu me vieste
Tudo que era teu, meu amor
Também me veio:
Acabei virando o parâmetro
De como sobreviver em teu peito
- Sem nada -
No escuro mais absoluto
E alheio.

Sofri cada teste, cada estrago
Guardei a vontade de cada beijo
- Cada abraço -
No desamparo maledicente
Dos teus verbos de escárnio
Disparados à queima-roupa.

Eu sei,
Não foi por algum mal que me quisesse
Mas pelo peso das correntes
Que arrastavas a cada breve Despedida.

Como último sopro de meu amor
- Sem dono -
Te dei o termo tão longínquo
Quanto a espera e o esforço,
Atravessei o estado aparente
- Do oceano -
E te entreguei cada jura de amor
Sem mais promessas ou santos,
por escrito.

Mas tua voz não veio
Nem tua letra
Ou teu amparo...
Ficou só aquele imenso e temido
Vazio,
No vasto.

E nem viste quando me despedi
Sequer olhaste para tudo o que te dei:
Ficaste refém dos saberes
Que me atribuíste para não acreditares
Que juntos iríamos além.

E era tudo verdade,
Meu amor...

Verdade
Toda,
- E tua -
Assim como eu...

Mas desta vez
Vê se olha no meu olho
E me escuta.
(21 de Março de 2016)

domingo, 11 de dezembro de 2016

DA COLHEITA DAS FLORES

Só o amor
- de amparo -
Antídoto máximo
Para todo e qualquer mal,
Abraça o caos
E respeita a desordem
- Relativa -
Em sua dádiva
De circunstância.

Só o amor alcança
O vento forte antes do ruir das paredes
Só o amor defende
A mão que lhe empunha a adaga
Do sangue que escorre, valente.

Só o amor ascende 
Quando tudo mais não basta...

Só o amor é safra,
E também é semente.
(30/07/2015)

CURVILÍNEA

Descobre em meus seios
O contorno robusto de cada termo
Toma em teus lábios
Os caminhos
Capazes de incendiar
Os delírios mais serenos.

Esquece o tempo
No fascínio metafórico
Que eu revelo
A cada poema que te que escrevo.

Me dá o teu medo
Lambe a pronúncia
Do meu prazer por extenso...

Me toma
Na máxima em que me dou
Ritmada
No encaixe
Inquieto
Das palavras
Que me fogem
E te acham...

Me acolhe nos teus braços
Face e fogo feito de aço...

Depois te deixa adormecer
Nesse lapso de torpor
Que engole o tempo-espaço.
(Fevereiro/2015)

DA LIBERDADE E DO FIRMAMENTO

Olha o raio
Cortando o céu
E desenhando pra ti
Meu sorriso
Diamante.

A preciosidade
É das estrelas
Que emprestam
Constelações
Inabitadas
De pecado
Para despertar teus ouvidos
E ter teus olhos
Em seu rastro.

A liberdade transgressora
A reluzir em sonoridade
O tempo...

A convicção dos pormenores
Constituídos em identidade
- Nada idênticos -
Àquele que é o nosso único
- E real -
Direito:

SER livre
Para ter fé
Ou para ter medo.
(Fevereiro/2015)

ACASO SEJA

Que seja
Fôlego
A falta de ar,
- de meus pulmões comprimidos -
Na doce dose
E no empenho
Da tua escuta...

Que seja querer bem
O mirar e ver da tua boca
Que em toque "despetalar"
A mim se junta.

Que seja música
Essa nota solta
E sem juízo a retalhar
O improviso ímpar
De par em par,
Sem faz de conta.

Que seja distorção
O som do rádio
Nos teus ouvidos
E o trovão
Na chuva de amperes
Da minha poesia

Que seja exceção
Premissa breve da alegria
Que não fuja à regra
- mas que a enfrente  -
Com saberes de tato
E o toque abstrato
De nossos quereres.
(15/06/2015)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DO USUFRUTO DO VERSO

Eu não nasci da ignorância
Do teor desavisado
dos injustos

Eu não nasci
por mero acaso dos astros
Tampouco carrego a missão
De ser mártir
Ou poeta
Do desuso.

Eu não nasci da ignorância
De quem pensa ser grande
Para subjugar os que acusa

Eu nasci do direito pleno
À circunstância do minúsculo.

Eu nasci do poder natural
Da gênese de toda infância
Eu nasci do símbolo rudimentar
Que tece a alma
Mas não a alcança

Eu sou a língua parida ao relento
Imemorial árvore da fé
-Não no que leva o vento-

Mas no que se planta.
(Maio/2015)

DESATA NÓ

Era tanta cor
Que você não via
- Não reparava -
Na expressão quase didática
Das minhas sílabas,
No meu corpo irradiando
Dons em metamorfose

E hoje,
Chove...

Por tantas vezes tentei
Devolver o meu amor à tua posse
- Roubei-me pra ti -
Fiz-te fiel depositário
de minhas asas
E fui caminhando
Pés corroendo a pele no asfalto
Por ilhas e cidades inteiras

Evaporei ruas manchadas de poeira
As relíquias em frases sem sujeito
Sem transcendências
Sem transitivos diretos
Recortados do pouco caso
Do teu mesmo e exato pretexto.

A sobriedade dos descaminhos
Trouxe cada um dos enganos
Cada um dos anos adiados
E varridos para baixo do pano.

Mas a memória, irrestrita
-Sempre que eram fechadas as cortinas
Trazia à luz dos olhos
Cada risada, cada lembrança
Sem ameaça qualquer de despejo:
Sim, havia apetite de amor
E alma, em cada beijo.

Era fome,
Abstração carcomida nos dentes
Era trégua
Fronteiriça
Entre acaso e destino.

Mas a dor na superfície
- Como se não à toa insistisse -
Perseguia cavalos no abismo
Recortados aos solavancos.

E eu escolhi ver-te, vindo
Bicho selvagem e ferido
Sangrando à beira do precipício,
Escolhi dar-te água do mar
Para salgar tuas chagas
- Curá-las -
Mas ao fim era tu que me abrigavas,
- Ninava minhas horas -
Com os cuidados e a calma
Que te deram meu sorriso.

Os trilhos do trem arremessados
Na cronologia acidentada dos oceanos
Submerso fora o amor,
Por entre mágoas, silencioso
Invadindo limites de terra
Engolindo a cada passo um poema
Entregue como náufrago
Em mar revolto.

Dá de ver, o vento já é outro,
Mas a maré só devolve
A palavra
A vida
- O firmamento sob nossas cabeças -

Se antes de chegar ao quebra-mar
A fé for capaz de atravessar
A correnteza.
(Abril/2016)

DO COMEÇO DE TUDO

Tua voz tem a senha
A maciez que arranha
E incendeia
Todo o repertório submerso
Em meus poemas.

Tua voz chega e desmancha
Qualquer rima pronta
Porque tem essa força
-  que ecoa divina -
Tua voz é o segredo
Redescoberto
Em amor que não se assimila.

Porque muito antes desse mundo ser feito
A palavra,
- Poeira da lua em gás rarefeito -
Já se contorcia no silêncio do cosmos
À espera do som que a faria estrela.

E não importa o tempo,
A rotação ou órbita do planeta,
Sempre que volto meus olhos
Para o branco do papel,
Tua voz acende o céu
Em transparência:

É dessa luz que nasce meu poema.
(12/05/2016)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

FUTURO DO PRETÉRITO

Era pra ser você
Os seus olhos
Nos meus
Penetrados
De saudade
Esse corpo
Rebuscado,
Nossa linha direta
Chamando...
                      Me atende.

Era pra ser seu
O meu corpo
Corrente
A fluir enroscado
Nos teus lábios
Era pra ser seu o cheiro
Roubado
E o meu juízo um vago
Delírio
Em dia de sol
                      Nascente.

Era pra ser tua
- A boca -
Pulsante
No beijo
Que se desencontra...
- Louca -
De tanto se perder
Ao se misturar
Às tuas luzes e sombras.

Não há sussurro prévio,
- Só essa vontade que se agiganta -
Uma pequena molécula de mim
A arranhar-me a garganta em poema
A arrepiar os meus seios
- Fruta pronta -
A ser consumida quando me tens em ti,
- E tudo teu ainda pulsa em mim -
Bem entre as coxas.
(Setembro/2014)

COR DE PREENCHIMENTO

Coragem
Agir com o coração

Onde está a cor
Da ousadia
Quando não se olha nos olhos
Quando não se permite estar perto
Para só então estar junto?

Comigo...
Desabotoa os meus sentidos
Mas não desbota o vermelho
Que é só meu
- Da minha boca -
Te colorindo.

Não me atira
No lábio gentil
De outras curvas:
Sou escolha
Não escora de teor vespertino
Sou a história que não se conta
Mas que em tantas fases vem surgindo
Aquela que assentiu a fé mesmo a ferir
As próprias sombras
E segue a pé sem deixar rastro

E se há fato,
Qual a cor da tua lembrança?
Quantos tons suprimes
Para não ter-me em ti
Em auto- relevo,
Para não elevar teu pensamento
Ao que  - sabes -
desconheces ao pleno?

Nos verbos que te entrego
Estão a liberdade do meu amor
- A minha trégua -

Então,
Sossega.
Não é de mim que te defendes
Mas do vazio que tu carregas.
(18 de Agosto de 2015)