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DAS IMPOSSIBILIDADES E DO SONHO

A tela por onde se projeta
Minha memória
É o tecido de minha própria pele
Exposta...

O sono que beira minhas órbitas
Apenas esconde-se no silêncio pleno
De nossas vozes já sem volta. 

Um arrepio vem-me pelo peito
A explodir-me a carótida...

Giro meu corpo na cama
Pudesse demover o tempo
E retransmitir cada fagulha
Devorada
Por minhas palavras
Fossem elas
Ainda dignas de ternura
Fossem elas do temor máximo
Minha bravura.

Então encontro o teu olhar
A cozer
Mais um longo e detalhado
Cobertor
Para abrandar
O meu desassossego
E - só por um instante -
Adormeço.

Tarde demais...
Agora já era cedo
Então percebo que sequer chegaste
Quando eu já estava
De fato, amanhecendo
(2014)

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PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
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E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
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De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

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Viesse sempre a costurar-me a boca
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E se minhas bênçãos debochassem
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Sem que te sentisses um otário?