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AUTO-ESTRADA

As estradas
São imóveis
Incalculáveis rotas
Nas curvas do desconhecido
Começam e terminam
No sentido
De quem as desenha
Consigo.

Não há lei
Direção proibida
Permitido estacionar
Mantenha-se à esquerda
Homens trabalhando
Acostamento em 100 metros

O trajeto
Guarda em si a noite
A manhã
E as estrelas dos faróis
Comprometidos de luz
Na escuridão
Como os olhos do tempo,
Nebular.

Não há provisão de chegada:
O ponto de partida
É contínuo
Como se ter estado aqui
Pudesse ser destino
De quem não irá voltar.

Não há tráfego
Ou sinalização
Uma daquelas placas
- Pisca-pisca -
Vermelho-azul turquesa
Conveniências ao preço
De um acidente
De percurso.

Ao condutor
Restam as dimensões
Táteis
De seus estímulos
- Futuros -
Sempre aventurados
No que ainda virá
Imprevisto.

Viver é um risco
Para poucos.
(2014)

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PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
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Por entre intempéries e raios
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E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
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Viesse sempre a costurar-me a boca
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Sem que te sentisses um otário?