O ENGRAXATE DE CHINELOS

Ele aprendeu bem cedo
O valor dos livros
E que os verdadeiros tesouros
Ficam à espera
Nas prateleiras mais altas da biblioteca.

Ele via volume nas palavras
E contorno em seus pensamentos todos
Bastava lápis e papel
Que o garoto multiplicava
O que antes era pouco.

Criava vagalumes em seus sapatos velhos
E sempre quando vinha a chuva fina
Agradecia por ainda ter o amparo simples
De seus chinelos.

Para ele
Todo dia era singularmente novo
E seus instantes
O maior dos motivos
Para seguir adiante

Mal dava cinco da matina
O menino
- Engraxate -
Grudava o olho na esquina:

De tanto olhar para baixo
Passou a entender
Da delicadeza de cada passo
Da dinâmica do movimento:

Dos que hesitam
Dos que "empacam"
- Ou então disparam -
Dos homens que se limitam ao hábito
E servem apenas ao desígnio
De conservar seus sapatos sempre novinhos.

E há sempre um ou outro bem humorado
Por perceber ainda poder erguer-se
Sobre as pernas
Ou o preguiçoso que espia os outros
No coletivo
E finge estar dormindo
Para que possa ficar sentado
Pés pra cima, na janela.

Em todo caso
Há os homens sem direção noturna
Que expõem passo-a-passo
O marasmo inevitável
De suas escolhas.

Então vem o menino
Com a velha caixa de sapatos
De madeira...

Já passa das seis da tarde
O sol inda bem quente
E lá vem outro freguês ;
- Vou dar um trato, Doutor, pro senhor pisar em frente!

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