DA IMENSIDÃO E DO DESAPARECIMENTO

Eu não existo mais
Nem minha fé
Em, algum dia,
Voltar à vida.

Sou um ser sem organismo
À beira da extinção completa
E do desaparecimento,
Invisível.

Já sobrevivi demais,
Adaptei-me às mais diversas eras,
- De galáxias a calabouços -
E creio ser o bastante.

Sou criatura sem cria,
Errante,
E minhas palavras já não revertem
A hedionda voz do mundo.

Há muitos gritos
E poucos gestos,
Há um cansaço abjeto
De quem, ao me parir,
Sequer consentiu-me a vida.

A doença dos homens
Não só não destrói
A maldade do tempo,
Como acelera a descoberta do medo:
Condutor impiedoso
Dos mais ultrajantes desígnios
Terrenos.

A coragem foi minha nuvem condutora
- Sob tempestade de raios -
Violentos e ácidos.

Ainda que derretessem a minha pele,
Com dignidade e bravura, lutei
Por cada um de meus ossos.

Quando esmigalhados,
Reuni-me em miragens de serpente
E arrastei-me,
Sibilante e arenosa
A flutuar o pavor pela falta
De minhas pernas,
E segui.

Foi de imagens e recortes plenos,
Que revesti as frias paredes
De concreto armado
Com elas desarmei meu leito:
Para que pudesse amá-lo.

Há males que não se acometem
De estrago
Há benesses que tanto prometem
Que, a si, estragam.

Mas meu caso não é raro,
Serve às propagações
Indignas do cigarro:

Droga retrátil que consome
Plenos pulmões e ares,
O fastio da fome,
Tendo a dor como mãe
E o sacrifício como pai
De seus amores.

A minha continuidade parou,
E seguir será sempre
Uma análoga repetência
Do que não basta.

Não passa,
Não basta,
Não passa.

Basta.

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