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AMANHÃ SER

Meu amor,
Temo não poder subscrever sentimentos,
- Não os de ordem mais fatídica
E assertiva,
Como aqueles que derivam do verbo enamorar-se.

Minhas faculdades foram (por hora) comprometidas
Minha percepção dá sinais claros de fadiga
E meus versos já nascem recusados
De todo e qualquer esboço de pretensão.

Uma ou outra rima me pega de assalto
E o poema acontece
Assim, de solavanco
Como se no pranto desaguasse
À mingua
A natureza de minha inspiração.

Eu, corrente, fluída e fugidia
Preciso da palma que com gentileza
Alivie as dores de minha garganta seca
Que beba da água fresca da nascente
Que encerre o medo de existir-me só.

E, preciso, que ainda que sozinha
Me ensine agora e de novo
O gosto do desejo rouco
Que só se tem ao pôr do sol.

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PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
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Por entre intempéries e raios
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Para subverter a beleza que não se vê
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De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
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Sem que te sentisses um otário?