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A COR DADA

É engraçado
Como a gente se conhece
Enquanto durmo:
Você até descobre
Que adoro gargalhar
Sem motivo,
Que não sou tão inteligente
Ou interessante
Como posso parecer
Quando escrevo.

Você percebe que a bagunça dos meus sapatos
Reflete a euforia desordenada
Das minhas idéias,
- Não dos meus passos -
Que ninguém me formata,
Que nada disfarça quem eu sou.

Você descobre
Que só me impressionam
Os que me falam com os olhos,
- Não com argumentos -
Que minha tentativa de ser específica
Nas palavras,
Não é busca pelo rebuscado
Mas uma camuflagem natural
- O meu mais puro improviso -
Diante de meus outros repertórios
Tão escassos.

Sim, eu posso ter ciúmes arredio,
E disfarço:
Não para me sentir altiva
Ou inatingível
Mas por reconhecer
Que nada sei do infinito particular
Do que te habita
Ou te faz frágil.

Você descobre
Que quando te leio
É porque nossas palavras
Parecem fazer amor
Pra depois brigar feio
E mesmo que não tenha nada a ver
Tudo pode ser divertido
Ainda que entediante
E que valer a pena
Não é penalizar do mesmo jeito.

O meu desafio pode ser diferente
Do seu
Mas nada impede
Que nossas impossibilidades
Nos façam mais fortes:
É tudo tão simples
Que assusta,
E só então
Aparecem os argumentos
Para remediar nosso desamparo
Existencial.

Eu não tomo café da manhã
Ou almoço
Porque o meu despertador
É uma sensação diária
E inexata
De amanhecer
Com as estrelas.

O meio-dia
Acontece
E evapora
Simplesmente
Sem a massificação passiva
Dos segundos.

Quando percebi que não há
O futuro
Desisti de temer
O tempo
- As desesperanças -

Eu sei
O meu relógio é bagunçado
Mas exato e fiel
Ao propósito de ser regulado
E não de me regular. 

O que dita minha agenda
É a instância maior
Do embaraço do mundo
Não minha própria ótica
Minimalista e restrita.

Ora lago raso
Ora precipício
Eu sei
Mas nada me precipita
Não sou correnteza fria
Não sou areia movediça
Meu curso é o do amparo
Do abraço e da fibra
Da foz à margem, fluente,
Ora tão límpida e silenciosa
Que posso partir sem ter chegado
E chegar sem ter sido vista.

Eu posso ser para-raio
Ou ode à ira
- Tempestade divina -
Eu posso ser sozinha
E ser pela metade,
Mas eu escolhi
Ser
Do teu lado,
Mesmo que distante
Por nossas variações
De hemisfério
Mesmo em termos abstratos
Há um certo trato amoroso
Esse duelo de sequer ser parte
Para ser todo

Há esse encontro
Que enquanto sonho
Me faz poeta,

Há essa entrega
Que só mesmo a insônia
Faz descoberta.

Comentários

  1. Tudo o que eu precisava dizer a uma pessoa. Parabéns poeta!!!��

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PLANO DE VOO

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Há quem diga
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