segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MAR É DE ENCONTRO

Sentou-se à beira do rio

E para seu espanto

Não fora reflexo 

o que viu. 


Não fora a lua

Espelhada n'água parada

E funda,

Nem a noite,

Esse véu de luzes

Sustentando cada estrela


Não fora imagem

- Mas fora poema -

A desconstrução silenciosa

Do medo

Evaporando-se às margens

Da lua cheia.


Duvidou.

Ergueu a coragem,

Aquela rocha enorme e quebradiça

E arremessou

Na água, a dúvida.


Pedra é palavra breve

- não raro afunda -


O poema 

- se for de amor - 

É como chuva:


A gota desce

Feito miragem vinda do céu

E me procura. 


sábado, 29 de outubro de 2016

ANTEPOSTO

Há quem redescubra o céu 

Por entre limites

De vertigem profunda


Há quem dispare o peito

Arranque o fôlego

Apenas para demonstrar

Que a aridez dos dias sombrios

Jamais sufocará a bravura 

De quem ousa sobreviver

Aos abismos.


Há quem embale o medo

Nos olhos

E ponha pra dormir o temor

Do dia seguinte


Há quem desperte na língua

O gosto atenuante

Da liberdade


Há quem esfregue os lábios

Com a ternura descompassada

De um beijo roubado 

E esbaforido 


Há quem rapte de mão beijada

A ausência que antes fora digna

Do infinito.

DA ESTÁTICA DO TEMPO

Difícil despertar 

Com teu suor engasgando 

Os meus poros 

Como se meu corpo 

Abduzido, 

Tentasse em vão 

Recolher memórias 

- No enquanto - 

Do que vivo.


Foram muitas as horas 

E os beijos engolidos 

No desejo de te ter 

E de ser o estímulo:

A faísca,

A tortura doce 

E ambiciosa da dúvida,

E tu a explorar meus limites 

E eu a encontrar nos teus 

A mais sincera das súplicas.


Difícil despertar 

Enquanto beijo os teus olhos 

E te quero mais 

Do que pareço 

Ao dar-me toda 

E apenas ao teu capricho....


Parece um vício 

Essa entrega de destemer 

Coisas findas,

Essa boca a percorrer 

A minha língua,

O nosso encaixe,

No tal espelho,

Revelando-se na carne 

Em desfecho...


Vem-me inteiro 

Coloca-me no eixo 

No delírio mais mortal 

Sem deuses ou segredos.


Dou-te o direito 

E tu me roubas a lei 

E as esferas 

Redistribui as massas dos planetas 

E da terra,

Só pro mundo esquecer de girar:


Chama viva e flamejante 

Fosse o tempo, apenas 

Um errante 

E a matéria 

Um recurso mágico e infinito 

De colidir o que já era, 

Para então ser contigo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

NO MEIO, O CAMINHO - para Marisa Vieira

A menina 

Sentada no cume da pedra

Mais íngreme

Partilhava com delicadeza

O alcance dos próprios olhos.


Gritava ao vento 

Braços abertos

Silêncio absoluto,

Pudesse guardar a vida

Em uma caixinha de fósforos 

Como quem captura um inseto.


Enquanto os deuses mais céticos

Assistiam ao girar da roleta 

Que parava em números exatos

A empalhar borboletas,

A menina

- Agora de pé - 

Já não era mais a mesma:


Trocou a pedra 

Pelo poder 

E foi voar entre as letras. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

IMAGO

Volta
Senta aqui do meu lado
E me ensina
- de novo -
Como é descobrir
A felicidade irradiada
Pelos teus braços
E a força que eu só encontro
Nos teus olhos
De fogo.

Volta
Deixa a minha vontade
Se aconchegar no teu beijo,
- aquele que começa na nuca -
Me faz acreditar nos versos
Que a chuva relampeja
Rasgando os céus de ponta à ponta.

Volta 
Reencontra em teu lugar
A poesia que nunca te deixa
- como resposta -
Toma posse das cores, das luzes
E dessas tantas vozes,
- Que insistentes -
Cantam a insônia à tua porta.

Volta
Pro estado íntegro do meu amor
- Que sequer veio -

Volta
Nem toda travessia
É feita por mar:
Deixa a água parar,
E faz dela, espelho.

sábado, 22 de outubro de 2016

POEMA DE BOM DIA

Não...
Não desperta agora:
Deixa-me embalar
O teu desejo
Com o toque sutil
Dos meus dedos
A percorrem-te em órbitas.

Fica assim
- Bem de lado -
Que é por trás do teu corpo
Que os meus beijos te acham
- E por onde eu começo a me perder -

Costas, nuca, pescoço
Meu peito dispara,
E a respiração oscila
Tensa,
Enebriada,
- Inequívoca -
A elevar-me, plena
- Pressão sangüínea -

Me deixa decorar
Teus contornos
- Com a língua -
E lentamente,
Deixa tua alma
Reconhecer a fusão
Da tua matéria-prima
- Com a minha -

Sente o meu abraço
Avolumado e sinuoso
Sente minha boca escorrer
Em teu socorro
Ouve meu gemido
Só pra ti
Pra te libertar do sono
Por onde me prende
- Entre as pernas -
E esperas o meu gozo.

Sente o conforto
Do meu beijo
E do meu pecado:
Assiste coincidir
O teu gosto
Com os meus lábios. 
Seja-me ágil:
Arrebata
A minha ternura
Para fazer de mim
Tua metáfora
- Crua -

Decora o meu olho
Com as respostas
Que só tu podes dar,
- Em linha ágrafa -

Abre a garrafa,
Espalha o vinho,
E me junta pra ti
Em goles esbaforidos
De saudade.

Bebe de mim,
- O infinito que se debate -
Enquanto tu repousas enfim
Tudo teu em minha carne.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A LENDA DO INIMIGO OU A AMEAÇA DA PERSISTÊNCIA

É o delírio
Da diferença
- esse carma inventado -
Que só iguala a vida
Quando o número de corpos
Aparece em noticiários.

Não são homens
Não são deuses
Tampouco as ciências os exatam...

O surto da espécie
Tem sua gênese 
Na terra de cegos
De olhos vendados.

Quanto vale a sede
Assim quase esvaída
Em anonimato?

A morte era um rio
Afluente
Não mais um morto na lama
- Esquecida -
Dos Bárbaros.

O tempo sacou o revólver 
Estourou os miolos
E parou cada um dos olhos
- Ateus -
Com fé
No remorso.

O tiro atravessou os pés
E enterrou cada um dos sonhos
No asfalto.

Imóvel,
O corpo virou pasto:
Herança do mesmo Rei 
Que faz rápida, 
- A engorda -
Para depois abater o gado.

PRIMEIRO ATO

Olha
Mas olha bem
Sem deixar a cor
Se disseminar

Olha
Mas olha com meia-luz
- acesa no olhar -
Para abafar o impacto
Da pele
E permear
com delicadeza.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

DA ESTÉTICA DO VAZIO

A palavra é tentativa
Armadura e substrato
O amor é voo livre
Fé súbita nas asas
Depois de já feito
O salto.

Se o pouso é forçado
O risco não é crime
Veículo volátil do tempo
O medo é um cego imediato
E é do tato
Que se sobrevive.

A palavra emerge
A substância afunda
Como num ato calculado
De equilíbrio

O amor é vivo
Pulso que ergue a fé
Em si mesmo e no outro

O amor é esforço
Semente interina do vasto
Grão, quando não germina
E pasto, quando cresce pouco.

Doer é um enigma fechado
- em si mesmo -
É o desespero
Consumado no estrago
Mais íntimo.

O amor
não é um termo
Possível
Antes um transgressor incalculado
Da dimensão mais frágil do mito.

A palavra inventou
O verbo
Para viver o perigo... 

Todo poeta é um esteta
Do precipício.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

DA SENSIBILIDADE E DO TATO

Sabe,
Eu passeio com teus olhos,
Sinto ver cada paragem
Por sobre onde
Repousa
O teu sorriso.

E são tantos os riscos!
Me abrigar
E me perder
Na profusão de teus instintos!

Eu sei,
Teu olho carrega consigo
A saudade
De ser coisa finda
Teu olho
Renega a rotina
De meus dias todos
De meus dias tolos
Sem tempo ou aval
Em melodia arrítmica.

Eu sei,
Teu olho
Me rasga o jogo
E meu poema vem novo
Me engole
Esmiúça meus espaços
E foge-me um tanto
Quando ainda tens-me em rapto
E entrega.

Teu olho
É de trato
Profundo e profano
Eu sei...

Teu olho é tamanho
Que me enxerga às cegas.

domingo, 16 de outubro de 2016

DA IMENSIDÃO E DO DESAPARECIMENTO

Eu não existo mais
Nem minha fé
Em, algum dia,
Voltar à vida.

Sou um ser sem organismo
À beira da extinção completa
E do desaparecimento,
Invisível.

Já sobrevivi demais,
Adaptei-me às mais diversas eras,
- De galáxias a calabouços -
E creio ser o bastante.

Sou criatura sem cria,
Errante,
E minhas palavras já não revertem
A hedionda voz do mundo.

Há muitos gritos
E poucos gestos,
Há um cansaço abjeto
De quem, ao me parir,
Sequer consentiu-me a vida.

A doença dos homens
Não só não destrói
A maldade do tempo,
Como acelera a descoberta do medo:
Condutor impiedoso
Dos mais ultrajantes desígnios
Terrenos.

A coragem foi minha nuvem condutora
- Sob tempestade de raios -
Violentos e ácidos.

Ainda que derretessem a minha pele,
Com dignidade e bravura, lutei
Por cada um de meus ossos.

Quando esmigalhados,
Reuni-me em miragens de serpente
E arrastei-me,
Sibilante e arenosa
A flutuar o pavor pela falta
De minhas pernas,
E segui.

Foi de imagens e recortes plenos,
Que revesti as frias paredes
De concreto armado
Com elas desarmei meu leito:
Para que pudesse amá-lo.

Há males que não se acometem
De estrago
Há benesses que tanto prometem
Que, a si, estragam.

Mas meu caso não é raro,
Serve às propagações
Indignas do cigarro:

Droga retrátil que consome
Plenos pulmões e ares,
O fastio da fome,
Tendo a dor como mãe
E o sacrifício como pai
De seus amores.

A minha continuidade parou,
E seguir será sempre
Uma análoga repetência
Do que não basta.

Não passa,
Não basta,
Não passa.

Basta.

DO PARADOXO DE SER

A vida
- Pressuposto sutil -
roubou o direito da desistência
que, teimosa
Ressentiu-se em mais um poema
Pingado de café
Pelas mãos hesitantes
Do medo
Já adormecido no espelho
Retrô
Da sala de estar...

- Morto -
Estava
O direito do indivíduo.

A janela
Desprendeu-se do vidro
Em estilhaços traspassados
Pela pedra que rasga o silêncio:
Eram gritos.

Ficou só a luminescência
Nata
Dos vagalumes escritos
Que perambulando outras causas
Fizeram as próprias malas
E pacificaram a lei
Em conflitos.

A paz não ferve a terra
Mas aterra o deus vivo...

Em toda fé que desaba
Há que se crer
que a esperança vem vindo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

ZONA DE ATRITO

Hoje
Eu quero que receba
O diagnóstico
A urgência
A saudade estalada
No cheiro de borracha queimada
Dos pneus que cantam o desespero
Pelo asfalto.

Hoje eu quero que me tire pra dançar
Com o som mais alto
E a risada mais tímida
Que me mostre nos olhos
Cada uma das coreografias
Que me devoram
Contorcida
Enquanto mal consigo
Dizer uma sílaba.

Hoje eu quero
Uma rota qualquer
De colisão com teus motivos
Os meus ressignificados
Na velocidade magnética
Do despreparo...
Ou do instinto.

Hoje, eu quero
O abajur
A penumbra
E o abrigo,

Hoje, eu quero
O poema
Contínuo.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O ENGRAXATE DE CHINELOS

Ele aprendeu bem cedo
O valor dos livros
E que os verdadeiros tesouros
Ficam à espera
Nas prateleiras mais altas da biblioteca.

Ele via volume nas palavras
E contorno em seus pensamentos todos
Bastava lápis e papel
Que o garoto multiplicava
O que antes era pouco.

Criava vagalumes em seus sapatos velhos
E sempre quando vinha a chuva fina
Agradecia por ainda ter o amparo simples
De seus chinelos.

Para ele
Todo dia era singularmente novo
E seus instantes
O maior dos motivos
Para seguir adiante

Mal dava cinco da matina
O menino
- Engraxate -
Grudava o olho na esquina:

De tanto olhar para baixo
Passou a entender
Da delicadeza de cada passo
Da dinâmica do movimento:

Dos que hesitam
Dos que "empacam"
- Ou então disparam -
Dos homens que se limitam ao hábito
E servem apenas ao desígnio
De conservar seus sapatos sempre novinhos.

E há sempre um ou outro bem humorado
Por perceber ainda poder erguer-se
Sobre as pernas
Ou o preguiçoso que espia os outros
No coletivo
E finge estar dormindo
Para que possa ficar sentado
Pés pra cima, na janela.

Em todo caso
Há os homens sem direção noturna
Que expõem passo-a-passo
O marasmo inevitável
De suas escolhas.

Então vem o menino
Com a velha caixa de sapatos
De madeira...

Já passa das seis da tarde
O sol inda bem quente
E lá vem outro freguês ;
- Vou dar um trato, Doutor, pro senhor pisar em frente!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

MATÉRIA ÍNTEGRA

Eu te dou
Os meus melhores dias
E noites
E madrugadas sem fim.

Eu te dou
Cada um dos meus beijos
E selo nosso pacto em silêncio
Profundo.

Eu te dou
A fé que não precisa ver
Pra desvendar o mundo.

Eu te dou
Meus braços
E olhos
Como escudo,
Pois te amparar
É para mim
Um reflexo natural.

Eu te dou as cores desbotadas
Das minhas roupas escuras
Eu te dou em verso ou volúpia
Cada uma de minhas dúvidas maduras
Eu te dou a minha escuta:

Tudo eu te dou,
- Amor, meu -
Quando sou tua.

sábado, 8 de outubro de 2016

DAS ROTAS E DAS REDENÇÕES

Hoje eu vi
Um homem atravessado
Em transparência
No cruzamento
Da Voluntários
Esquina com o elevado das Bandeiras,
A meio metro,
E meio mastro,
Do fim
E do começo de tudo.

O trajeto,
- Fronteiriço -
Deu-se às margens do meu desejo
- Do meu empenho -
Era como se tivéssemos juntos,
partidos ao meio
E seguíssemos passos firmes
Sem verossimilhança
- De credo ou de cruzes -
Suspendendo o juízo
O medo
E o absoluto,
Com todas as fraquezas
Dignas do zelo
Do erro
E da aposta...

Foi como se tivéssemos sido
Felizes
Sem nunca termos sido
Sem nunca termos tido
As respostas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

DA INEVITÁVEL FORÇA E DO DOM NATURAL

Tira a respiração
De perto
Da minha nuca

Desacelera
A partícula
Indefectível
Da saudade
Que ritmada no silêncio
Se faz escuta

Espera:
Repara que a chuva 
- parou - 
Só pra ouvir o teu sorriso
Despencar os meus pés
Da atmosfera.

E te olhar no olho
Sufoca o medo,
A dor e a dúvida,
Devolve-me a lúcida tensão
De suar frio,
Os lábios trêmulos
E vermelhos
Por entre suspiros.

Eu sei,
Tens teu próprio tempo
Por isso vou construindo
- Em silêncio -
Uma trilha de poemas
Que versa à minha maneira
A cronologia dos termos
Que só a palavra verdadeira mantém
Porque é liberta.

E o que por bem me deres
Será oferenda, jamais oferta:

Há de ser de meu direito,
Eleito supremo de minha fé
Em ser mulher 
E ser poeta.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

AMANHÃ SER

Meu amor,
Temo não poder subscrever sentimentos,
- Não os de ordem mais fatídica
E assertiva,
Como aqueles que derivam do verbo enamorar-se.

Minhas faculdades foram (por hora) comprometidas
Minha percepção dá sinais claros de fadiga
E meus versos já nascem recusados
De todo e qualquer esboço de pretensão.

Uma ou outra rima me pega de assalto
E o poema acontece
Assim, de solavanco
Como se no pranto desaguasse
À mingua
A natureza de minha inspiração.

Eu, corrente, fluída e fugidia
Preciso da palma que com gentileza
Alivie as dores de minha garganta seca
Que beba da água fresca da nascente
Que encerre o medo de existir-me só.

E, preciso, que ainda que sozinha
Me ensine agora e de novo
O gosto do desejo rouco
Que só se tem ao pôr do sol.

sábado, 1 de outubro de 2016

A COR DADA

É engraçado
Como a gente se conhece
Enquanto durmo:
Você até descobre
Que adoro gargalhar
Sem motivo,
Que não sou tão inteligente
Ou interessante
Como posso parecer
Quando escrevo.

Você percebe que a bagunça dos meus sapatos
Reflete a euforia desordenada
Das minhas idéias,
- Não dos meus passos -
Que ninguém me formata,
Que nada disfarça quem eu sou.

Você descobre
Que só me impressionam
Os que me falam com os olhos,
- Não com argumentos -
Que minha tentativa de ser específica
Nas palavras,
Não é busca pelo rebuscado
Mas uma camuflagem natural
- O meu mais puro improviso -
Diante de meus outros repertórios
Tão escassos.

Sim, eu posso ter ciúmes arredio,
E disfarço:
Não para me sentir altiva
Ou inatingível
Mas por reconhecer
Que nada sei do infinito particular
Do que te habita
Ou te faz frágil.

Você descobre
Que quando te leio
É porque nossas palavras
Parecem fazer amor
Pra depois brigar feio
E mesmo que não tenha nada a ver
Tudo pode ser divertido
Ainda que entediante
E que valer a pena
Não é penalizar do mesmo jeito.

O meu desafio pode ser diferente
Do seu
Mas nada impede
Que nossas impossibilidades
Nos façam mais fortes:
É tudo tão simples
Que assusta,
E só então
Aparecem os argumentos
Para remediar nosso desamparo
Existencial.

Eu não tomo café da manhã
Ou almoço
Porque o meu despertador
É uma sensação diária
E inexata
De amanhecer
Com as estrelas.

O meio-dia
Acontece
E evapora
Simplesmente
Sem a massificação passiva
Dos segundos.

Quando percebi que não há
O futuro
Desisti de temer
O tempo
- As desesperanças -

Eu sei
O meu relógio é bagunçado
Mas exato e fiel
Ao propósito de ser regulado
E não de me regular. 

O que dita minha agenda
É a instância maior
Do embaraço do mundo
Não minha própria ótica
Minimalista e restrita.

Ora lago raso
Ora precipício
Eu sei
Mas nada me precipita
Não sou correnteza fria
Não sou areia movediça
Meu curso é o do amparo
Do abraço e da fibra
Da foz à margem, fluente,
Ora tão límpida e silenciosa
Que posso partir sem ter chegado
E chegar sem ter sido vista.

Eu posso ser para-raio
Ou ode à ira
- Tempestade divina -
Eu posso ser sozinha
E ser pela metade,
Mas eu escolhi
Ser
Do teu lado,
Mesmo que distante
Por nossas variações
De hemisfério
Mesmo em termos abstratos
Há um certo trato amoroso
Esse duelo de sequer ser parte
Para ser todo

Há esse encontro
Que enquanto sonho
Me faz poeta,

Há essa entrega
Que só mesmo a insônia
Faz descoberta.

POÉTICA PRECISA

Há um conflito
- Nítido -
Entre o que quero,
E o que quer
Se escrever,
- Ser passado a limpo -

Eu,
Agente de minha própria linguagem.
Ela,
Pulsão indomável que constitui
O que nem mesmo saberei
Até cada verbete ser escrito.

Enquanto isso,
Dou voltas
Mas não mais me exponho
Em rotas circulares
Ou manobras de rebanho:
- Eu não reincido -

Essa angulação do teu olho
Eu já percorri ao fastio,
E eu teria te permitido
Sentir esse amor ainda vivo,
Mas não há mais vértices
A verter meu consentimento.

- Quando para não ver -
O olhar perde-se,
Eu te desejo
O mesmo átimo motor
Que desaparece na letra,
Tão absorvente quanto minha pele
Se despede do terror sentido.

Eu te perdoo
Por quase tudo,
Mas não perduro
Teus postos de abandono,
Não aceito mais as migalhas redentoras
Dos teus demônios tolos.

Agora sou eu
Quem guarda as portas
As janelas,
E a parede invisível da sala
De estar só.

E eu sei ser sozinha:
Bicho, cria própria de mulher aguerrida.

O amor que há em toda poesia
Só se cala diante da destruição
- Em massa -
Das sílabas.

E eu, meu bem,
Estou inteira,
- Inteiraça -
Minha essência não se desgasta
Pois a cada poema
Minha linha vira sutura,
E cicatriza.