TRATADO NIILISTA

É tudo muito triste. A morte me seria um alívio. 
Se eu vivo é porque cumpro um ciclo e desejo completá-lo. 
Todo o meu amor me foi tirado. Esvaziado de mim. 
Atravessado por indicativos de perigo fatal e eminente. 

A violência, ouso dizer, é o coração regressivo da fé em prosseguir. E ela vem tão vil, tão plana, tão disfarçada e sublinarmente tragada, que se acomoda nos pulmões fosse o ar de respiro, mas é o gás tóxico de toda a esperança.

Doi-me a violência bárbara que fuzila meninos na Vila do João, mas me dói o mesmo tanto, nossos olhos costurados de indiferença, ou de indignação passiva e tardia.

E nada é por acaso: A linguagem da violência é o substrato maior de uma sociedade sufocada em seu próprio vômito, nauseada dos pequenos atos violentos de cada dia.

Posso dizer que já tentei apaziguar os volumes de vocabulário, a mágoa intransigente no abismo de vaidades. Mas falhei: Tanto e tão desgraçadamente que só me resta ver o afastamento premeditável do fim de uma era.

Tento contar para mim de saciedades, das peraltices humanas em tentar sobreviver. Não creio. 

Não importa quantas marcas eu carregue, quantas tenham me arrastado na lama e na lucidez, sempre culpo a mim.
Ao meu corpo.
Ao meu verbo.
Ao meu tempo.
Ao meu ser quem sou.

As verdades foram todas misturadas às mentiras em um saquinho de pó de estrela. Se eu soprar, me perco em constelações de apego e nostalgia, dou voz ao apelo mais sôfrego, ao desespero e à letargia tirana de quem duvida de si, testemunha UNA da própria sobrevivência.

Mas os meus olhos contam palavras menosprezadas e amargas, e golpes a sangue frio. Contam silêncios embaralhados à enfermidade abissal de meus próprios medos.

Eu tive coragem de sobreviver 
Mas de viver eu morro de medo:
Olhar pra tudo destroçada
Eu alma sem vida
Meus sonhos implodidos, tolos, 
Como havia de se imaginar.

Ainda querem tirar de mim minha única pista de possível superação.
Ridicularizam o ofício sagrado pelo qual sacrifiquei TUDO. Absolutamente TUDO. 

Pouco ou nada sabem de quem me tornei.
Me afogam em suas conclusões grosseiras e precipitadas.
Em seu jogo de relevâncias irrelevantes, disparates do que pensam sobre quem eu deveria ser.
Rasgam na minha carne o pavor dos próprios traumas e limites, debocham do que sou, de quem sou capaz de ser, apesar de quem me foram. Porque são tristes e são amargos.
E a vida, essa indissolúvel fatalidade de existência vaga, calcada na bravura dos fingem ter coragem. 

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