Pular para o conteúdo principal

POEMA DA VERDADEIRA VONTADE

Espia,
- Uma tarde dessas –
Experimenta abrir a janela
Sentir o ar puro
Que vem da menor brecha.

Respira sem pressa,
- Sem queixa –
Deixa o coração orbitar a desordem
Desavisada e serena
Da potencialidade divina
Que há em cada experiência.

Cuida de ver
O que teus olhos
Segredam à inconsciência
Lega nitidez à vasta crença
Que sempre te reergueu
Na lealdade e na justiça.

Não importa o que veja
- Não te desespera –
A fé não cega:
Ela antepara o esqueleto da queda,
É exata e precisa.
Sem esmero,
Embala a inspiração delicada
Das coisas mais vivas:
O sonho é o mais poderoso tentáculo,
O resgate mais íntimo do cosmos,
Quando tudo mais é impermanência.

Ignora a língua dos homens
Ditos canônicos
Inspira-te nos que verdadeiramente
Puderam exercer a dádiva de serem humanos.

Abarca cada dano
Como o recorte sobrenatural
Da multiplicidade inata do carbono.
Perdoa a crueldade de cada falta
- Cada ausência transmutada em pedra bruta -
Acalma a agudez da dor e da dúvida:
No engenho da escuta desse mundo sem respostas.

Abre teu coração à era da chance nova
Reinventa a função do nó na corda,
Solta com a palma das tuas mãos
O bem maior como desígnio:
Amor é fim
Mas é princípio.

Comentários

  1. Devido a correria do dia a dia , simplesmente deixamos de sentir as pequenas coisas, deixamos de sonhar,e aproveitar com calma a vida, belo texto!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
Claro
E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
Com os olhos
E batesse no peito com a humildade
De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
Haveria como professar a fé
Sem que te sentisses um otário?