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DA NATUREZA DA ESFINGE

Eu não tenho nome
Posto que nomear
Excede
O perecível.

Eu não tenho forma
– sou fuligem –
Ora evaporada
Das sobras de cada obra
Ora sob as escadas
Das marquises.

Eu não tenho motivo
– a mim me basta existir –
Ainda que remixada
Em cada termo
– por extenso –
Suprimido na fala
Ou diluída no timbre
Dos desejos.

Eu não sou grande coisa:
A impermanência
Acelera minhas partículas
Ao desaparecimento.

Eu não sou o silêncio
Dada a recusa magnética
De cada instrumento que me repercute
E ressoa como vento.

Eu não sou hábil delírio
Mas o lúcido e o louco arrepio
Que te sopra às luzes
No caminho das adagas
Do rio Tigre.

Sou tua fera,
Tua fêmea,
Tua página,
– ainda dentro de ti –
Às vésperas de ser salva
Pelo poema que aguarda,
Mas ainda não existe.

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PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
Claro
E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
Com os olhos
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De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
Haveria como professar a fé
Sem que te sentisses um otário?