DA NATUREZA DA ESFINGE

Eu não tenho nome
Posto que nomear
Excede
O perecível.

Eu não tenho forma
– sou fuligem –
Ora evaporada
Das sobras de cada obra
Ora sob as escadas
Das marquises.

Eu não tenho motivo
– a mim me basta existir –
Ainda que remixada
Em cada termo
– por extenso –
Suprimido na fala
Ou diluída no timbre
Dos desejos.

Eu não sou grande coisa:
A impermanência
Acelera minhas partículas
Ao desaparecimento.

Eu não sou o silêncio
Dada a recusa magnética
De cada instrumento que me repercute
E ressoa como vento.

Eu não sou hábil delírio
Mas o lúcido e o louco arrepio
Que te sopra às luzes
No caminho das adagas
Do rio Tigre.

Sou tua fera,
Tua fêmea,
Tua página,
– ainda dentro de ti –
Às vésperas de ser salva
Pelo poema que aguarda,
Mas ainda não existe.

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