DA INTEGRIDADE DE SER

Não preciso que me digam
Para ter medo:
Eu divido com ele as cobertas
E os travesseiros,
O percurso diário dos meus objetivos
A memória sussurrada de vestígios
A voz sufocada no pescoço
De quem acorda em desespero.

Não preciso que nomeiem
Meus termos:
Eu mesma geri à sobrevivência
A singeleza de meus significados,
Da mais vasta covardia
Teci a compaixão e a vigília
Para conceber meu novo estado.

Não preciso que 
Me narrem obstáculos:
Eu os driblo na engenhosidade
De minhas retinas,
E sei quando fazer do arame farpado
O impulso exato e exasperado
Para atravessar a linha de fogo na surdina.

Não preciso que me avalizem
Direitos:
Já os possuo assegurados pela dignidade
Com a qual ergui minha sobrevivência
E lavrei no verbo o meu primeiro poema.

Não preciso que me alienem da dor
Ou que bradem minha voz pela cidade:
Sou dona de estancar o sangue vivo
E o pavor,
É no revoar das páginas dos livros
Que mora minha liberdade.

Ninguém me sopra
O fôlego
Ninguém me toma
A fé
- Ninguém mais me atormenta - 

Ergo cada um dos meus sonhos
Na ponta dos dedos, 
E dos calos em meus pés
Resgato a humildade 
Se levanto a cabeça.

Ninguém mais ameaça
A beleza firme
Das minhas asas:
Ninguém mais arrebenta
Ou espanta 
A destreza das minhas palavras.

Sou matéria invisível
Aos olhos dos homens:
Eu sou o que enfim tem começo
Quando tudo mais se acaba.

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