sexta-feira, 30 de setembro de 2016

DA REINVENÇÃO DE TUDO

Não há mais nada
Que eu queira
Guardar
Além de ti.

Minha poesia
Revela-se
Fosse vida
Em uma sala da espelhos
E o tempo
A lona que desmonta o picadeiro
De um palhaço sem pressa...

Não há nada
Que eu queira guardar
Além da premissa:
- não há promessas -
Palavras cavam as próprias vias
Expressas

E eu, fronteiriça
Margem que flui mar revolto
Navego pelo ventre
E pelo dorso
Da mais suave correnteza.

Sou cria viva das sílabas
Fatal reinvento do curso do vento
A fé que guardo no tempo
Não é silêncio
Nem é ferida:

É chance nova
Semente que germina
Na fria e severa tormenta
Que espalha em mais palavras
A síntese óbvia e oblíqua:

Viver é um enigma.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

DA NATUREZA DA ESFINGE

Eu não tenho nome
Posto que nomear
Excede
O perecível.

Eu não tenho forma
– sou fuligem –
Ora evaporada
Das sobras de cada obra
Ora sob as escadas
Das marquises.

Eu não tenho motivo
– a mim me basta existir –
Ainda que remixada
Em cada termo
– por extenso –
Suprimido na fala
Ou diluída no timbre
Dos desejos.

Eu não sou grande coisa:
A impermanência
Acelera minhas partículas
Ao desaparecimento.

Eu não sou o silêncio
Dada a recusa magnética
De cada instrumento que me repercute
E ressoa como vento.

Eu não sou hábil delírio
Mas o lúcido e o louco arrepio
Que te sopra às luzes
No caminho das adagas
Do rio Tigre.

Sou tua fera,
Tua fêmea,
Tua página,
– ainda dentro de ti –
Às vésperas de ser salva
Pelo poema que aguarda,
Mas ainda não existe.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

ARES DE PRIMAVERA

O sol dito
Poente
Concebe-se
Na noite
Evaporada de estrelas.
E o desejo que não se consome
Escolhe a chuva
Para derretê-las.

DA COLHEITA DAS FLORES

Só o amor
– de amparo –
Antídoto máximo
Para todo e qualquer mal,
Abraça o caos
E respeita a desordem
– relativa –
Em sua dádiva
De circunstância.
Só o amor alcança
O vento forte antes do ruir das paredes
Só o amor defende
A mão que lhe empunha a adaga
Do sangue que escorre, valente.
Só o amor ascende
Quando tudo mais não basta...
Só o amor é safra,
E também é semente.

domingo, 25 de setembro de 2016

ATO REFLEXO

Sempre que me olho no espelho
São os teus olhos que procuro:
É pra ti que eu me visto
Tudo o que toca a minha pele
É pra deixar rastro pro teu aconchego
Com luz acesa
 - ou no escuro -

Sempre que me arrumo
É pra te dar vontade de bagunçar
O meu juízo
E ver os meus lábios
Com a cor da tua boca
Me colorindo.

Mas você não tem vindo...
Nem o abraço:
Só o suspiro longo e inesperado
A suspender as horas, de infinito.

Sempre que me olho no espelho
E são os teus olhos que me voltam
O chão vai pro espaço:
Porque só eles me enfeitam
- me levitam -

É para refletir nos teus olhos
Que meus poemas são escritos.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

FUTURO DO PRETÉRITO

Era pra ser você
Os seus olhos
Nos meus
Penetrados
De saudade
Esse corpo
Rebuscado,
Nossa linha direta
Chamando...
Me atende.

Era pra ser seu
O meu corpo
Corrente
A fluir enroscado
Nos teus lábios
Era pra ser seu o cheiro
Roubado
E o meu juízo um vago
Delírio
Em dia de sol
Nascente.

Era pra ser tua
- A boca -
Pulsante
No beijo
Que se desencontra,
- Louca -
De tanto se perder
Ao se misturar
Às tuas luzes e sombras.

Não há sussurro prévio
Só essa vontade que se agiganta:

Uma pequena molécula de mim
A arranhar-me a garganta em poema
A arrepiar os meus seios
- Fruta pronta - 

A ser consumida quando me tens em ti
- E tudo teu ainda pulsa em mim -
Bem entre as coxas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

POEMA SUBLIMADO

Amor
É metalinguagem,
Revelação de si
Re-codificada
No próprio mistério
De ser fenômeno
Natural.

Amor
É reconhecimento
- De pupila -
É centelha de voz erguida
No espanto absoluto
Do que até então
Fora desconhecido.

Não tem texto pronto,
Rima clara,
Fator de risco.

O amor
É matéria pura
E subliminar
Do improviso.

DESTINATÁRIO INEXISTENTE

Hoje eu quis escrever pra você
Talvez para dizer
Que tudo por aqui
Vai bem.
Mas você não vai:
Você fica.

No sussurro das horas
Confundidas de desprezo
No despertar de cada sonho
Que adormeço:

Você permanece...
E não há quase nada
Capaz de re-mover
O som que acorda a sala
Se tudo o que vejo
- ainda que eu não ouça -
É a sua voz
Rouca
E incendiada
De ousadias ternas
E ternuras das mais cínicas...

Teu olhar de rasgar meu peito
E engolir minha saliva
Tua boca e cada "promessa" que,
Fosse verso de fogo no mar,
Jamais se cumprira.

Hoje eu quis escrever
Só pra você
Talvez pra merecer
Não uma carta
Quiçá um "abre aspas"
- uma inspiração mansinha -

Hoje eu quis escrever
- Pra você -
Pra lua não amanhecer
Vazia.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

POEMA DA VERDADEIRA VONTADE

Espia,
- Uma tarde dessas –
Experimenta abrir a janela
Sentir o ar puro
Que vem da menor brecha.

Respira sem pressa,
- Sem queixa –
Deixa o coração orbitar a desordem
Desavisada e serena
Da potencialidade divina
Que há em cada experiência.

Cuida de ver
O que teus olhos
Segredam à inconsciência
Lega nitidez à vasta crença
Que sempre te reergueu
Na lealdade e na justiça.

Não importa o que veja
- Não te desespera –
A fé não cega:
Ela antepara o esqueleto da queda,
É exata e precisa.
Sem esmero,
Embala a inspiração delicada
Das coisas mais vivas:
O sonho é o mais poderoso tentáculo,
O resgate mais íntimo do cosmos,
Quando tudo mais é impermanência.

Ignora a língua dos homens
Ditos canônicos
Inspira-te nos que verdadeiramente
Puderam exercer a dádiva de serem humanos.

Abarca cada dano
Como o recorte sobrenatural
Da multiplicidade inata do carbono.
Perdoa a crueldade de cada falta
- Cada ausência transmutada em pedra bruta -
Acalma a agudez da dor e da dúvida:
No engenho da escuta desse mundo sem respostas.

Abre teu coração à era da chance nova
Reinventa a função do nó na corda,
Solta com a palma das tuas mãos
O bem maior como desígnio:
Amor é fim
Mas é princípio.

domingo, 18 de setembro de 2016

RENDIÇÃO

Eu queria tanto
Que tivesse visto
O que havia por fim
Pele e carne
- Ali - 
Esperando apenas
E de modo intransferível
Pelos teus olhos,
Pelas tuas mãos,
Aceleradas
E marotas.

A cor da minha boca
Confundida com cada escolha
De urgência e capricho,
O tecido finamente vestido
Para te esperar
Me desvestir
- Só pra ti -
Na velocidade
- Ímpar –
Do teu ímpeto.

A aderência natural
Ao suor dos nossos poros,
À liberdade extraditada
Na condução misteriosa
De cada um dos dons de Hórus.

Oxalá acendeu os meus olhos
Para encontrar os teus,
Tão dignos
Quanto o bem apócrifo
Do ofício de nossos ossos
Transmutados em letra.

Eu sei, em cada dor violenta
Há a paz que se esgueira
Por entre fases de lua cheia
E em leito vazio
Prenuncia o voo das borboletas.

Não há retiro seguro
Nem entrega que se estenda:
Aceita a cor da oferenda
Que há muito se repartiu
Entre luz e sombra há um único fio
Pelve e súplica sob a renda.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ATO MOTOR

Será que existe
Alcance
Entre os meus verbos
E os teus braços?

O silêncio
Tem sido
Há muito
Nosso fio condutor
De contato...

E só a gente sabe
Das esperas todas
Da pressa de cada palavra
Quando não chove.

A garganta rouca
O ar não dá conta
Do tempo,
Do barulho delicado
- E insistente -
Da memória
- Esse trem - 
Feito de suor e aço
Que não se desprende.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

SUJEITO AUSENTE

É tão mais fácil 
Encarcerar o sujeito 
Enquadrá-lo no expoente 
Máximo de seus piores 
Fatores 

É tão mais fácil 
Faturar cada promessa 
Em dívida 
Sem dividir os erros 
De cálculo 
- Ser calculista - 

É tão mais fácil 
Limitar a infinitude 
De variáveis 
Para frustar-se sempre 
Com o mesmo resultado 

É tão mais fácil 
Dificultar o diálogo lúcido 
Com frases de efeito 
Sem teor lógico 
E esgotar seu dom 

Tão mais fácil 
É odiar o amor 
Do que partilhar os estragos 
E perdoar 
Para ouvir perdão.

domingo, 11 de setembro de 2016

POTÊNCIA PURA

Não sei bem
Qual parte de mim
Ficou.

Eu, sempre fui
De não ir...

Mas algo que até então
Eu desconhecia
Atravessou
Íntimo
E claro
E atento
A posse de todos os meus sentidos.

Eu mantive a distância
Exata
Da incredulidade:

Eu não pensei
Eu não pretendi
Eu não desisti
Eu "não" nada...

Tudo em mim
Foi "sim":
Afirmativa simples
Concessão absoluta
Mas tão inédita
Que sequer foi manifesta:

As palavras
- minhas cúmplices ocultas -
Expuseram-se à minúcia
Fossem corpos esbaforidos
Enfim repousados no chão,
Plenos.

Sequer imagino
As piruetas de linguagem
Do meu desejo:
Não houve de haver.
Houve de ouvir.

E dizer,
- pra ti -
Elevou todo o meu vocabulário,
Na paz que enfim eu encontrei
Nus, os teus olhos.

sábado, 10 de setembro de 2016

DA INTEGRIDADE DE SER

Não preciso que me digam
Para ter medo:
Eu divido com ele as cobertas
E os travesseiros,
O percurso diário dos meus objetivos
A memória sussurrada de vestígios
A voz sufocada no pescoço
De quem acorda em desespero.

Não preciso que nomeiem
Meus termos:
Eu mesma geri à sobrevivência
A singeleza de meus significados,
Da mais vasta covardia
Teci a compaixão e a vigília
Para conceber meu novo estado.

Não preciso que 
Me narrem obstáculos:
Eu os driblo na engenhosidade
De minhas retinas,
E sei quando fazer do arame farpado
O impulso exato e exasperado
Para atravessar a linha de fogo na surdina.

Não preciso que me avalizem
Direitos:
Já os possuo assegurados pela dignidade
Com a qual ergui minha sobrevivência
E lavrei no verbo o meu primeiro poema.

Não preciso que me alienem da dor
Ou que bradem minha voz pela cidade:
Sou dona de estancar o sangue vivo
E o pavor,
É no revoar das páginas dos livros
Que mora minha liberdade.

Ninguém me sopra
O fôlego
Ninguém me toma
A fé
- Ninguém mais me atormenta - 

Ergo cada um dos meus sonhos
Na ponta dos dedos, 
E dos calos em meus pés
Resgato a humildade 
Se levanto a cabeça.

Ninguém mais ameaça
A beleza firme
Das minhas asas:
Ninguém mais arrebenta
Ou espanta 
A destreza das minhas palavras.

Sou matéria invisível
Aos olhos dos homens:
Eu sou o que enfim tem começo
Quando tudo mais se acaba.

TRATADO NIILISTA

É tudo muito triste. A morte me seria um alívio. 
Se eu vivo é porque cumpro um ciclo e desejo completá-lo. 
Todo o meu amor me foi tirado. Esvaziado de mim. 
Atravessado por indicativos de perigo fatal e eminente. 

A violência, ouso dizer, é o coração regressivo da fé em prosseguir. E ela vem tão vil, tão plana, tão disfarçada e sublinarmente tragada, que se acomoda nos pulmões fosse o ar de respiro, mas é o gás tóxico de toda a esperança.

Doi-me a violência bárbara que fuzila meninos na Vila do João, mas me dói o mesmo tanto, nossos olhos costurados de indiferença, ou de indignação passiva e tardia.

E nada é por acaso: A linguagem da violência é o substrato maior de uma sociedade sufocada em seu próprio vômito, nauseada dos pequenos atos violentos de cada dia.

Posso dizer que já tentei apaziguar os volumes de vocabulário, a mágoa intransigente no abismo de vaidades. Mas falhei: Tanto e tão desgraçadamente que só me resta ver o afastamento premeditável do fim de uma era.

Tento contar para mim de saciedades, das peraltices humanas em tentar sobreviver. Não creio. 

Não importa quantas marcas eu carregue, quantas tenham me arrastado na lama e na lucidez, sempre culpo a mim.
Ao meu corpo.
Ao meu verbo.
Ao meu tempo.
Ao meu ser quem sou.

As verdades foram todas misturadas às mentiras em um saquinho de pó de estrela. Se eu soprar, me perco em constelações de apego e nostalgia, dou voz ao apelo mais sôfrego, ao desespero e à letargia tirana de quem duvida de si, testemunha UNA da própria sobrevivência.

Mas os meus olhos contam palavras menosprezadas e amargas, e golpes a sangue frio. Contam silêncios embaralhados à enfermidade abissal de meus próprios medos.

Eu tive coragem de sobreviver 
Mas de viver eu morro de medo:
Olhar pra tudo destroçada
Eu alma sem vida
Meus sonhos implodidos, tolos, 
Como havia de se imaginar.

Ainda querem tirar de mim minha única pista de possível superação.
Ridicularizam o ofício sagrado pelo qual sacrifiquei TUDO. Absolutamente TUDO. 

Pouco ou nada sabem de quem me tornei.
Me afogam em suas conclusões grosseiras e precipitadas.
Em seu jogo de relevâncias irrelevantes, disparates do que pensam sobre quem eu deveria ser.
Rasgam na minha carne o pavor dos próprios traumas e limites, debocham do que sou, de quem sou capaz de ser, apesar de quem me foram. Porque são tristes e são amargos.
E a vida, essa indissolúvel fatalidade de existência vaga, calcada na bravura dos fingem ter coragem.