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Mostrando postagens de 2013

LUNAR

O dia esconde-se
Noturno
E tudo o que se vê
é céu
Feixes de luz automáticos
Ditos-estrelas.

Há um recanto arredondado a aparelhar a reza do poeta.

Há a espera
Voluntariosa mas de duração presumida.
Há a vida
Previsível eloqüência do inesperado
Há o acaso
O curto
Circuito infinito

Há o oposto
Ao dito
Há o amor a prazo
O nosso
É ao vivo.

AUTO DE PRECIPÍCIO

Já não sei viver
Sem tua sombra
A recortar-me
Por entre pares de olhos
Meus ouvidos.

E eu te ouço
Curto e estancado
Na letra mínima da canção
Repelida
Pela ausência fria
ou em vastos sentidos.

Eu sei te ouvir
Dormindo
Por entre o sono embaçado
E o despertar irredutível.

Espanta-me a dor em teus olhos
Como quem engole o céu
Por entre lagos e precipícios.

Em pensar que a poesia
Repousa o viço
Tal a sombra de uma árvore
Recompõe o suor dos legítimos.

Justo?
Não.
O amor é um abismo.

LUA NOSSA

Olha no meu olho
Bem devagar
Nao tira os seus olhos
De dentro de mim

Percebe o quanto me entrego
Irrestrita
Ao nosso ritmo
E sem pressa alguma.

Não diga uma palavra
Não ouça nada 
Além da minha alma
Vulnerável ao afago do teu corpo.

Celeste
Corpo de luz
Cadente
Fecha teus olhos
E faz um pedido.

Os olhos da lua
Sempre serão os meus 
Desejos
E os teus, ouvidos.

AUTO DE ANUNCIAÇÃO

A vida
tem o sonho
de bastar-se
eterna
Mas prossegue finita
febril
e faltosa.

E é nessa busca
pelo que jamais haverá de ter lugar
Que vagamos exatos
por dimensões de delírio.

Me dê a mão
a mola propulsora
de todo e qualquer desejo
E eu impulsiono o mundo
para parar o tempo em nós.

Tudo teu, meu amor:
meu sonho
minha sutil arritmia
quando chegas e me tens nos olhos
na boca
por entre palavras...
Sei quando sou a escolha.

E eu escolho viver vasta
E inteira nos teus lábios
que sussurram à cada noite
a espera pelo dia seguinte.

Sim
Hei de amanhecer nos teus olhos
todo dia.

Abro a janela e contemplo
 - Não a noite fria -
Mas a saudade que sopra e queima
A brisa leve que o vento já anuncia.

AUTO DECODIFICADO

Meu Amor,
A vida é a máxima do caos O big bang ao contrário Tentando varrer as novas espécies.
E de que espécie de ser Eu sou? De ninguém.
Eis que meu peito insurge Seco e embalsamado Para não corroer-se diante do perecível.
E você? Urgência silenciosa Que aprendi a prescrever Prescutar.
A mim basta uma palavra E serei abduzida por teus significantes.
É preciso intermediar essa cor de fundo Para não transfigurar-se em transparência.
Eu sou dele. Do verbo. Aquele que conjuga ação E por hora estou a rimar com dia claro, apenas. Quero o amor desperto Presente Com boca, mãos, olhos e dentes.
Porque sou frágil Sou tênue relevância Entre o que é A ponto de deixar de ser.
Nossa telepatia prossegue Impávida e inalterada Como não houvesse raios de sol A perambularem meus ouvidos.
E em verdade Nada soube da tua boca Teus anseios gotejaram-me selados Mas silenciosos.

SI_LÊNCIO

Sim
Estou de luto
Mas a luta tem sido tamanha
Que me faltam pulsos
Para quedarem-me os braços.

Sim, eu soluço
Eu divago em vultos
Mas não caio de bruços
A absorver impactos
- nem brutos -
Minha fé tem mais soluções.

Mais fraco é o curso
Não toco meu barco
- Flutuo -
Apenas escuto
E desvio dos sons.


O silêncio é um culto Ao deus dos pagãos.

SEPARAÇÃO DE CORPUS

A cor dos meus olhos
-serena-
Confunde-se com a lua torpe
Das incertezas.

Não por falta de convicção 
- me entenda-
Mas por saber que onde há rua
Há farol
E a penumbra é como pó
Que repousa sobre a mesa.

Talheres ao alto!
Que voem os copos
Quebrem-se o pratos
Os chatos
E os planos!

Eu quadriculo o quadrado
Cada um no seu,
E eu no meu
O nosso é o oceano.

Quadrado enorme
E disforme
Percorrido pelas marés longínquas
E correntes marítimas
A minha fé
Em ser tua mulher
Não cabe em uma rima.

Arruma
Os móveis todos
No canto da sala
E abre alas
Pros nossos poucos
Espaços
Que juntos
Constituem hemisférios.

Eu falo serio!
Meu dom mais terno
É estratificar o dito termo
E descontrai-lo ao extremo...

Relaxa.

A vida é bem mais simples
Do que as aspas
De "viver bem"
Mas bem viver
É viver às lagrimas!

E eu choro
Menina tola
Do pequeno pé
Que onde pisa
faz surgir
O asfalto.

Eu falto
Para ser presença
Inconstante
E esperada
No abrigo íngreme,
Na autopista
- Em lombadas e cicatrizes -
Que não se segue pelas placas.

Curva acentuada à esquerda
Direção se…

AUTO DE SAGRAÇÃO

A liberdade é um céu de espinhos
em nuvens áridas
Secas
Secas
E esparsas.

A liberdade é um nó no linho
E na navalha, o punho...

Pálida,
Escorro sangue
Na grinalda.

A liberdade é o preço ganho
Do sem destino
Um terço a menos
Do que exprimo
Um dedo a menos
Em cada palma.

Ali a verdade é um peso
no estômago
do meu filho,

Todo verso meu
É um antigo delírio
Esquecido na fome do mendigo
Alimentado na mais soberana
Das faltas.