quarta-feira, 29 de maio de 2013

LUNAR

O dia esconde-se 
Noturno
E tudo o que se vê
é céu
Feixes de luz automáticos
Ditos-estrelas.

Há um recanto arredondado a aparelhar a reza do poeta.

Há a espera
Voluntariosa mas de duração presumida.
Há a vida
Previsível eloqüência do inesperado
Há o acaso
O curto
Circuito infinito

Há o oposto
Ao dito
Há o amor a prazo
O nosso
É ao vivo.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

AUTO DE PRECIPÍCIO

Já não sei viver
Sem tua sombra
A recortar-me
Por entre pares de olhos
Meus ouvidos.

E eu te ouço
Curto e estancado
Na letra mínima da canção
Repelida
Pela ausência fria
ou em vastos sentidos.

Eu sei te ouvir
Dormindo
Por entre o sono embaçado
E o despertar irredutível.

Espanta-me a dor em teus olhos
Como quem engole o céu
Por entre lagos e precipícios.

Em pensar que a poesia
Repousa o viço
Tal a sombra de uma árvore
Recompõe o suor dos legítimos.

Justo?
Não.
O amor é um abismo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

LUA NOSSA

Olha no meu olho
Bem devagar
Nao tira os seus olhos
De dentro de mim

Percebe o quanto me entrego
Irrestrita
Ao nosso ritmo
E sem pressa alguma.

Não diga uma palavra
Não ouça nada 
Além da minha alma
Vulnerável ao afago do teu corpo.

Celeste
Corpo de luz
Cadente
Fecha teus olhos
E faz um pedido.

Os olhos da lua
Sempre serão os meus 
Desejos
E os teus, ouvidos.

sábado, 4 de maio de 2013

AUTO DE ANUNCIAÇÃO

A vida
tem o sonho
de bastar-se
eterna
Mas prossegue finita
febril
e faltosa.

E é nessa busca
pelo que jamais haverá de ter lugar
Que vagamos exatos
por dimensões de delírio.

Me dê a mão
a mola propulsora
de todo e qualquer desejo
E eu impulsiono o mundo
para parar o tempo em nós.

Tudo teu, meu amor:
meu sonho
minha sutil arritmia
quando chegas e me tens nos olhos
na boca
por entre palavras...
Sei quando sou a escolha.

E eu escolho viver vasta
E inteira nos teus lábios
que sussurram à cada noite
a espera pelo dia seguinte.

Sim
Hei de amanhecer nos teus olhos
todo dia.

Abro a janela e contemplo
 - Não a noite fria -
Mas a saudade que sopra e queima
A brisa leve que o vento já anuncia.

domingo, 21 de abril de 2013

AUTO DECODIFICADO


Meu Amor,

A vida é a máxima do caos
O big bang ao contrário
Tentando varrer as novas espécies.

E de que espécie de ser
Eu sou?
De ninguém.

Eis que meu peito insurge
Seco e embalsamado
Para não corroer-se diante do perecível.

E você?
Urgência silenciosa
Que aprendi a prescrever
Prescutar.

A mim basta uma palavra
E serei abduzida por teus significantes.

 É preciso intermediar essa cor de fundo
Para não transfigurar-se em transparência.

Eu sou dele.
Do verbo.
Aquele que conjuga ação
E por hora estou a rimar com dia claro, apenas.
Quero o amor desperto
Presente
Com boca, mãos, olhos e dentes.

Porque sou frágil
Sou tênue relevância
Entre o que é
A ponto de deixar de ser.

Nossa telepatia prossegue
Impávida e inalterada
Como não houvesse raios de sol
A perambularem meus ouvidos.

E em verdade
Nada soube da tua boca
Teus anseios gotejaram-me selados
Mas silenciosos.

Sei
Que estive inteira
Sóbria
E mais que atenuante.

A lua desfalece minguante
No céu de conta-gotas de cada espera
E se me escondo
A revirar-te os ouvidos
Sei que o passo
Reaprende o bom êxito
E aprendi a estar só.

Se calhei de dividir nomenclaturas
Foi por saber-me pouca
-Criatura de fé-
Para tão vasto espírito ateu.

Ainda assim sigo
E creio:
O ardor de todo pacto infinito
Não é o fim, 
                 mas o adeus.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

SI_LÊNCIO


Sim
Estou de luto
Mas a luta tem sido tamanha
Que me faltam pulsos
Para quedarem-me os braços.

Sim, eu soluço
Eu divago em vultos
Mas não caio de bruços
A absorver impactos
- nem brutos -
Minha fé tem mais soluções.

Mais fraco é o curso
Não toco meu barco
- Flutuo -
Apenas escuto
E desvio dos sons.


O silêncio é um culto
Ao deus dos pagãos. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

SEPARAÇÃO DE CORPUS

A cor dos meus olhos
-serena-
Confunde-se com a lua torpe
Das incertezas.

Não por falta de convicção 
- me entenda-
Mas por saber que onde há rua
Há farol
E a penumbra é como pó
Que repousa sobre a mesa.

Talheres ao alto!
Que voem os copos
Quebrem-se o pratos
Os chatos
E os planos!

Eu quadriculo o quadrado
Cada um no seu,
E eu no meu
O nosso é o oceano.

Quadrado enorme
E disforme
Percorrido pelas marés longínquas
E correntes marítimas
A minha fé
Em ser tua mulher
Não cabe em uma rima.

Arruma
Os móveis todos
No canto da sala
E abre alas
Pros nossos poucos
Espaços
Que juntos
Constituem hemisférios.

Eu falo serio!
Meu dom mais terno
É estratificar o dito termo
E descontrai-lo ao extremo...

Relaxa.

A vida é bem mais simples
Do que as aspas
De "viver bem"
Mas bem viver
É viver às lagrimas!

E eu choro
Menina tola
Do pequeno pé
Que onde pisa
faz surgir
O asfalto.

Eu falto
Para ser presença
Inconstante
E esperada
No abrigo íngreme,
Na autopista
- Em lombadas e cicatrizes -
Que não se segue pelas placas.

Curva acentuada à esquerda
Direção segura é a consciente
E modesta
Pronta para desviar dos muros
Sem mirar em florestas.

A vida é uma selva
Eu bem sei!
O bem que eu procuro
Quem me dera!
Me dará
Terra firme?

Estou às margens da BR 115
Mas estou em festa.

Me perdoe, meu papel
Por não ferir-me
Nem às vésperas...

Não há dom
Que o amor não sublime
Nem o mesmo o dom
- acredite -
Que há na dor de ser poeta.

(31/01/13 - 01:27)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

AUTO DE SAGRAÇÃO


A liberdade é um céu de espinhos
em nuvens áridas
Secas
Secas
E esparsas.

A liberdade é um nó no linho
E na navalha, o punho...

Pálida,
Escorro sangue
Na grinalda.

A liberdade é o preço ganho
Do sem destino
Um terço a menos
Do que exprimo
Um dedo a menos
Em cada palma.

Ali a verdade é um peso
no estômago
do meu filho,

Todo verso meu
É um antigo delírio
Esquecido na fome do mendigo
Alimentado na mais soberana
Das faltas.