sexta-feira, 28 de setembro de 2012

MILENAR

Quando disse
Eu te amo
Da última vez
Quis dizer ainda
Entre tanto...

Tenta agora
Calar a voz
                 do tempo...

Já tem mil anos.

REMANUFATURADO

Uma pena
Inutilizada

As palavras do poeta
Perderam a cor
                       dis_tinta.

APRESSE

A lua tem gosto
Súbito
          de silêncio
A propagar distâncias.

Falam-na plena
Em seu altar adjacente
Mas o teto de vidro
Quebra-se aos olhos de estampido
E ensurdece.

Aos notívagos
Serve aos mais vagos e vastos motivos
Todos eles, santos
Todos eles, tantos...

Mas a deusa da clausura
Estanca os ouvidos
E ausculta cada prece
Até corar a noite
Em dia amanhecido...

Ser poeta
É ser bicho
De nenhuma espécie.

AUTÓTROFO

Há cansaço em existir...

Nula,
Desisti de todas as querenças.

Só 
Quero regurgitar o veneno
Sistêmico
Do dia a dia

Expor o caos à exceção
Me fantasiar de tempo
E passar incógnita
Por cada ruela do esquecimento.

Eu morri à míngua 
E o sol
Solitário e ambíguo
Tornou-se repouso à sombra
De uma lua qualquer.

Assombro-me da crueldade
Inanimada em olhos fixos
Distraídos do instante
Em que foram passíveis
De ver.

Cala-te boca
É o calabouço que te acorda
Subterrâneo
Ima translúcido de teus dedos
Metais de vidro
A atrair fragmentos ao vento.

Eu duvido
Que aceite o reflexo
Como ato involuntário
Do que tende a ser
Espelho
Desespero
Perto
Aperto
Não há pleito algum em quem
Esqueceu-se de reivindicar.

Fraco
A corda arrebenta do lado
Mais fraco
Mas apto à fraqueza
De arrebentar.

Só sei
Que só
Tenho aptidão para sobreviver.

E enquanto existo
Há uma naja sibilando
Dogmas em línguas febris
Contorcendo-se inebriada
Pelo claustro do próprio sufocamento 
Por entre mágoas.

Agora vai
Troca de pele
Digere essa presa
Que abala o vazio
A fome
A finitude do ser
Que era
Antes do bote

E sobrevive.