terça-feira, 22 de maio de 2012

MAREMOTO (AMAR É MORTO)

Amar antes
Que a dúvida
Que a vida
Ávida
Escorra
Como única
Gota
De uma maré
Mansinha.

O mar é morto
A maré
            Vinda.

POEMA PRETERIDO

E se eu te escrever
Um poema
Que não for teu
Mas capaz de restaurar
O silêncio que exalta
Nossas memórias ressequidas?

E se eu for capaz de te amar
Mas nunca mais
Capaz de te escrever
Poesia alguma?

Como fica?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

FATAL

O vazio
De tantos corpos
- Inelegíveis -
Ao acaso...

Qualquer que seja
A desventura
Eu pairo olhos
A disparar sinos de vento.

Eu busco
- A contento -
Um pouco do pão
Em divino código
Sirvo-me da sangria
Vitrificada na espera
E no desamparo.

Dos teus medos
Eu sou a deusa
Que era

Eu sou o fato.

terça-feira, 1 de maio de 2012

AOS RECÉM-AVENTURADOS*

De tudo, ao meu amor serei atento antes,
E com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.



Há ocasiões que incitam o poeta que há em cada um de nós, que despertam tal olhar, ainda que escondido sob esferas quase cegas de racionalidade. Esta a qual somos instruídos a evocar diante do arrebatamento que precede a inspiração, para ao invés de dizer o que sentimos, optar por externar o que é adequado, o que é convencional e comumente, o que fará pouca ou nenhuma diferença para quem diz ou para quem ouve. É neste instante que a palavra perde a força,  não salva-guarda sentimento, porta apenas burocrática, o sentido.

E é no ínterim do permitir-se observar (que não devemos confundir com o reparar), que surge a matéria-prima mais primordial mesmo da poesia, a simplicidade que legitima as palavras de um poeta, as que surgem de seu “fingimento sincero” ao apropriar-se da expressão divina encarnada no olhar do outro, no abandono absorto presente nos olhos de dois enamorados ou quiçá, desiludidos.

Não roguemos ao amor um prólogo que não lhe compete. Amor é produto, é construção mais voluntária do que voluntariosa, é doação ao credo já agradecido pelo simples fato de conceber o inexato gosto do futuro. Inexato porque abdicamos de suas bases no pronto instante de cada nova promessa.

Amor não é fortuna, tão pouco sucata furtada (ou fortuita) de desejo,
O Amor é um sempre vindouro logradouro da imprecisão, mas não muito além do que se precisa.

Mas mais ainda, o Amor é tudo o que ainda não é, pelo singelo direito que nós dá de vir a ser.

E o que advir dele já é amanhã,
Ainda,
Mas tanto!
E além!
Só,
Isso tudo
E apenas o começo!

Que venham os anos, os brindes e o desassossego constante da busca. E acima dela e de todo o resto, que permaneça a máxima do durante, do entremeio que justificará o finito dito tempo, embalado na eterna atemporalidade dos que por amor e apenas nele, ressurgem descritos em cada ato contínuo e simples da vida,
Para o bem subentendido,
Para além da palavra.


E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive) :

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.



Amor é ventura contínua.

*Aos então recém-casados, Bruno Parreiras e Alessandra Nogueira, meus primos e afilhados.
Foi nesse instante que voltei a acreditar que seria possível, sim, continuar.
(Em itálico, abrindo e fechando a reflexão, “Soneto da Fidelidade”, de Vinícius de Moraes)