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ATO VERBAL

O falo é teu
Mas quando falo
Sou eu quem te diz do poder que ergues ao meu favor
Quando a língua se agarra aos teus ouvidos.

Não que eu faça pouco de minhas curvas
Mas sei que é no contorno dos meus lábios que rendo os teus olhos
A desenhar labirintos ilógicos de costas nuas

Eu lavo o teu olhar com a minha palavra
Me insinuo na transparência sem-vergonha de um eufemismo
Te refaço das dúvidas e desconstruo as certezas
Em meu altar, faço lograr o teu teto de zinco.

Te dou cinco dos meus verbetes e flerto com a simplicidade do aconchego
Linguístico é o nosso adeus grego
Despedida não há nesse templo
Meu verbo te volta, te evoca desejo
E eu te beijo todo
Sugo o sal do suor, 
Sou pura fé em solo seco.

Objeto voador não identificado
É o meu par de braços a abraçar o abismo
Tal o vento que te catapulta os escrúpulos
Eu te guardo num silêncio rubro
Seguro de minhas inquirições de logo cedo.

O que sei não te pergunto
Meu verbo é um indulto que te serve
Acima do bem ou qualquer mal
 - Absoluto –
Minha palavra te mastiga o sentido
Para só depois devolver ao gosto o poder das sensações
Na terminologia interminável da libido.

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PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
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Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
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Sozinha.

Há quem diga
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Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

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