sexta-feira, 30 de março de 2012

NOVA ESTAÇÃO

Tons de dourar lembranças
Vão do alto ao chão...

- Despencam -


Despertador...

São 5
Pras 7

Quase caio em mim.

OU TRONO

Eu te evoco
E é ele quem me toma
O corpo
E me guarda a alma
À sombra.

Perdoa
Se ouso de me entregar
Sem dono
Se é teu o nome
- Santo -
Que de fora a dentro
Em minha pele é ouro
A cravejar-me a boca.

Mas meu amor é teu
- Posto que não abandona -
Por mais vastos que sejam os braços
 - Do Outono -
Este outro que me cobre os ombros
No cair exato de cada folha.

quarta-feira, 21 de março de 2012

AMBIÇÃO

Ao chegar
Ao alto
Cuidado!

A torre
te pisa.

INVERNO DE DANTE

Por que
Preciso
Estar a_diante
De escolhas
Imprescindíveis
Ao principiante?

SURDO MUNDO

Leio aos teus lábios
Como pudesse transvê-los.

No que dizem
Pouco me impactam
- Não são dados -
Mas dardos
A mirarem-me estragos
Em silêncio.

Reviro teus sucos gástricos
A fim de não gastar-me
- Antiácidos -
Ao ouvir cousas tolas.

Tolero-te
Mas a alto custo
Regenero-te no uso
A infligir-me tua.

A toa
Tu me acusas
Do que tu mesmo não te perdoas.

O que me dizem teus lábios
Me sussurra o oposto
A tua língua inculta.

BIOGRAFISMO

Minha vida
Não há
De ser
Um açoite
Á liberdade...
Tão pouco libertina.

Minha vida não elege calabouços
Ou cala-me dos loucos
Minha vida é cousa
De querer esforços
Para costurar em lóbulos
Novas lógicas rítmicas.

Mas minha rima
Não é negócio
Mas usufruto dialógico
De quem se atreva à redimi-la.

Minha poesia
É um rastro cego
Incontido no não-liberto
E eu, que não espero
A guardo no credo
De quem não a credita.

Minha poesia
por ser rima qual quer
Não é qualquer rima.

terça-feira, 20 de março de 2012

GENEral

Sinto
Estar
Acima
De tudo

Não há sombra
Ou vulto...
Sou só
- Um corpo -
Fechado.

Minha fé
Agora é avulsa
- Mas absoluta -
E pulsa sem pecado.

Não hei de incorrer
No pânico do claustro...
Abafados,
Estão os meus medos
E é neles que me abro.

É esta a minha única guerrilha
- Secreta -
Entre mais verbos do que murmurios
Desencontrados nos atos do insepulto
Seja na paz, esteja em guerra
- Ser jamais será -
O ofício de poeta.

CARGA SECA

Não
Quero
Ninguém
A salvo
- Sou quem -

Não estrago.

COMPANHEIRO INFIEL

Sim
Eu ouso definir a literatura
Porque acredito
Que sinalizar
Provoque mais atalhos
Do que direções.

O aviso de "pare"
Nos faz olhar para ambos os lados.

Nem todos os cães que ladram
São ladrões.

SELEÇÃO NATURAL

Quero sobreviver.

Viver
É para os fracos.

ANTI-CORPUS

Minha poesia
Não é deflagração de intelectualidade
Mas mecanismo mesmo
de sobrevivência.

Minha poesia
Sequer é minha
Se quer é tua
Mas é autônoma
Com preparo lírico
De maratonista.

Minha poesia sobrevive
- Pouca -
Mas multiplica-se na velocidade fônica
De toda
- Mas não qualquer -
Inexistência.

domingo, 11 de março de 2012

PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

VÃ PREMIERE

Segura na minha mão
E fecha os olhos.
Me deixa só desta vez
Te mostrar quem eu sou.

Não que das outras vezes não fosse eu...
É que quando eu tô com você
Surge uma versão com cortes
Sempre em película e curta-metragem.

Uma outra de mim
- Tão tímida quanto devassa -
Como se saída de um filme de Fellini
Mas daqueles para ser assistido só em casa.

E tem sido assim
Desde o nosso primeiro contato
Digamos, imediato.

Não consigo evitar
De esconder-me no silêncio
A abreviar repertórios.
Parece que quando olha nos meus olhos
Eu, poeta
Experimento o inominável.

Só há dois espaços
- Sagrados -
Onde me sinto a salvo:
Um é aqui...

O outro é nos teus braços.

domingo, 4 de março de 2012

AUTO DE CONSAGRAÇÃO

Esconde-te
De meus olhos
Ainda tão repartidos
Em brevidade.

Não me deixe ver
Quanto de ti ainda resta
A vagar por aí
No claustro monocórdico
Desta cidade.

Finge que sou de conceber
O ímpeto do qual morri
Quando estavas em fins de reagir
Mas foste covarde.

Te quero perto
Sério
Sóbrio
Não em breves cismas
Ou em palavras frias
Sem teor concreto.

Vem me olhar em terra firme
Sem temer o lume
Que disfarçado de sublime
Pode esvair-se no léxico.

Me deixa ser teu amor sem dono
Extenso, semente em terreno plano
Em tantas paráfrases de Perséfone
Te proponho o verso dissuadido da tese
O mais terno, assim livre
Em benigno registro.

Lê a minha palavra
Pudesse transpor o entendimento
E simplesmente existi-la no infinito.

O amor é um símbolo
Mas o que sinalizo
É um ritmo absorto em monoteísmo...
Um só Deus
Enquanto não houver adeus
Eu não desisto.

POEMA SEM FRONTEIRA - A Leon Tolstói

Revólver
Devolve
Aos montes
As montanhas
Que nos separam
Dos feixes de luz do cosmos
Em estampido.

Cosmopolita...
Eu sou a tua íntima fêmea pré-concebida
E sou a mais tímida e pretensiosa
Promessa exígua
De um exímio impressionista.

A extinguir tantas eras
Mais líquidas
Te escorro pelas mãos
- Não me siga -
Posso calhar de revirar
Tantas promessas
Desprovida das resmas
Ou das mesmas tão eternas
Quando pífias.

Observa-me circunscrita em pedra
Sou primitiva quimera
A conceber o amor em conserva
E mesmo com todo o poder da arte na guerra,

A mais pacifista.

RELÓGIO DE SOL

Tem água
No contorno do céu
Terreno.

É um lado
Sobreposto
Ao que poemo
De chover substrato
Ao avesso
De clima árido
E tão seco.

Sou de florescer meus versos
Decênios
A ponto de apurar sua tolerância
À cada franca mudança de estação.

Me diz então
Por que acho de mim
Um corpo perdido
Intrigado de euforia
Bons poemas não surgem ao que principia
Mas ao que se termina em vão.

Teimosia a minha
Tentar ver lua em céu de mar
Se pareço chover sozinha...

O sol é um tormento de honraria
Bravos são os raios
A sapecar meu instrumento de precisão,

- A poesia -

sábado, 3 de março de 2012

POEMA DE FIBRA

O fim do beco
Era um bloco
De rua.

Paredes escarlate
Parafraseavam
Sentimentos rubros.

Um passo à frente
Deflagaria nova era.
Para trás, a quimera...
Lembrança taciturna
De mais ávidas estações
A sangue frio.

Te corto os olhos
Com o golpe máximo
De uma saudade desconhecida.

O grito é um assalto
Mas não te entrego a minha vida.

Logo agora
Que aprendi a reservá-la
De meu próprio mistério
Sou surpreendida
Pela remoção massiva
De escombros.

É tanto teto de ouro
Retorcido
Que não sei se acredito
Que potes de ouro
Possam cair do céu.

Ao final dos arcos da lapa
Cada pupila se dilata
- Em iris -
Peço que desfoque de tuas crises
E me desveja no papel.

O velho é apenas um outro pacto
A desafiar, de novo
O tempo intacto
Que no cadafalso se perdeu.

Ergue teus olhos
E me encara
Adulta.
Não adula-me como mulher
- Jamais serei coisa tua.

Aceita-me ímpar, como tua dupla
Sou fruto, acima de tudo
De rima, madura.

O verbo cansou de trafegar no imenso
Agora quer vaga cativa
Mesmo que sem professar a fé
Ele prossiga a pé,
E jamais chegue à missa.

Estou certa
De que o que chamam de fé
É o feito de uma mulher
Que jamais foi submissa.

REVELAÇÃO

Sofro de um medo
Excessivo
A lograr-me o bom êxito
Em teor vespertino

Não mais consigo
Nomear o que pretendo
Apenas tento evocar meu instinto
A censurar meus bloqueios.

Eu sei que está em hora
De reaver meus sentidos
Mas é tão íngreme o cerco frio
Que não posso aninhar-me
- É faca pontiaguda na carne -
A coragem que silencio.

CONDICIONAL

A liberdade
Cerceia
O direito
Ao delito.

INOLVIDÁVEL

Guardo comigo
Teu lugar
- Que é só meu -
Por escrito.

Temo reintegrar-te posses
Posto que há vozes
Que te tomam
Meu espírito.

Á luz dos meus medos
Escondem-se à penumbra
Os meus sonhos mais bonitos...

Penso serem olhos
A dádiva de te escrever o que não digo.

O silêncio é um sóbrio
Mas há o ilógico,
Ah, estas vozes em meus ouvidos!

LAST SHOT

Vai...
Me devolve
A usura desse tempo
Que te espera

Só por hoje.

PAR SELADO

A quê creditar
O descrédito
De meus planos
À vista?

MONOCROMÁTICA

Minha obra
Opaca
Ocupa-se
- À sombra -
Da pouca luz

Que reflete todas as cores.

RESTA UM

Tenho amor algum
Agonizado
Em consequentes
De desamparo.

Não temo remos
Ou raios
Sigo a maré do desassossego
Mas me separo
De cada onda amiúde

- São só rastros de juventude -
A prescrever o que já não trago
Elevado
Ou expresso.

Não sou mulher de um só verso
O que resto
É só o resto.