PROFUNDO DE GARANTIA

Já não tenho lugar
Desde que passei a me ocupar
De coisa alguma.

Nasci com trabalho definido
Licenciada e com cadeira cativa
Em minha própria escrivaninha.

E desde então, tudo o que eu existo, escrevo.
Não tenho folgas ou feriados
É uma espécie de sacerdócio automático
Das minhas funções emocionais
Neurais-Cognitivas.

Se meus escritos viram obra?
Aí depende da posição dos tijolos
E do tipo de estrutura
Que estou a erguer
Ou a derrubar.
A escrita
É um ato de implosão
Ora controlado
Ora capaz de varrer qualquer vestígio da face que aterra.

Aterrador é ler a si
Egoísta mas indispensável
Ao exercício Lácio
Do ofício íntimo...

Quando me abstenho de escrever
Algo de vasto se exacerba diante de meus olhos
Embaçados de tanto ouvir ressoar frio.

Meu ar de inverno mais febril
É o relampejo de ideias tão desconexas
Que talvez não seja nesta vida
Que vingue de dissolver-me a língua
Em solução, de deixar ver os que verão
Primavera já extinta.

Ácida é a base de todo o sacrifício
Desta oferta de rotina
A escorrer lado a lado
Fosse gargalo
De micro-ácido-aspersão
- De meu destino -. 

Dispenso aparatos de guerra
E reparo em cada fera enjaulada
Às frestas da janela do avião.
Muitos dormem
Outros se acomodam no silêncio relativo de estar acima de tudo
Até mesmo dos abalos
Sísmicos.

Mas eu cismo em olhar de perto
O andar desordenado das aranhas caranguejeiras
Fossem venenosas, dizem, seriam as primeiras
A me predar tal um pagão.

Mas meu sangue tão escorrido
Dor perpétua, hemofílico
Atreve-se a produzir o soro antiofídico
Até contra o choro
Que dirá contra a queda de pressão.

Se as palavras me carregam?
Não, eu as levito.
As espio escorrerem livres por entre os livros
E sei, não me ocupo de dígitos.
Nasci amparada por des_contar
Histórias de punho a pulsar
Em punhados de decoro infinito.

E sim
Carrego comigo
Um amor
Não um sonho
De vivê-lo
Antes que possa morrer
No que prevê
O Outono.

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