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POEMA DE AMOR PAGÃO

Será que tornei-me outra pessoa
Ou apenas
Fui sobrevivendo e me moldando
À possíveis fôrmas do não-fracasso?

Quanto
O tempo fez de mim
Sua escolha distraída
Enquanto eu pensava estar amadurecendo?

As nuances de dúvida
Constroem espetáculos
Por vezes hipnóticos.
O silêncio
Desenha com graça
O drama da não-presença.

Escrevo
Como quem pudesse pairar firmamento
Acenos da cidade maravilhosa...
Mas me calo.
Não estou em vezes
De suportar as vozes da palavra
Assimétrica e inolvidável.

Por isso
Peço que me fale baixinho
No sussurro quase surdo
De quem sabe de tudo o que há
No imenso.

E não ouses mencionar melancolias
Ou liturgias da palavra,
Clandestinas.

Quero é teu arrimo
A rima já me habita
Posto que ao verbo faço jus
Não quero a sua sina.
Sou poeta,
Isto te basta
Ou abominas?

Temo não caber
- Pequena -
Em teu abraço...
Não sei quem és
Apenas quem fui
Quando tu já não podias estar sendo.

Temo escorregar feita de louça
Pelos teus dedos
E espatifar-me em epitáfio lírico.
A despedida é um eco pálido
E eu, que tanto sangue trago
Sou dona de estourar cada vaso
Antes que cheguem ao coração.

Arrítmica bomba de epinefrina
- Mas na lira -
Espalho miolos ao chão.

Não calho de estabilizar batimentos
Tão pouco debater frustrações.
Sou o que sou
Só tenho no papel
O consentimento de não-ressuscitação.

Mas minha vontade
- Nula prisioneira de múltiplos compartimentos -
Compartilha da mesma veia que alimenta a minha inspiração.

Respiro.
Deixo o ar invadir teus espaços
E quem sabe
Preencher a sensação de amplitude
Que me toma quando penso em ti.

Liga o amplificador
Cúmplice da desova silenciosa
- Em batida frenética -
De minhas frases sobrepostas.

Não sei se aguento mais essa, sóbria.
Não sei mais sobrar manifestos.
Não quero mais ser dona das iniciativas
Nem das de recuo...
Quero o apuro ileso do teu corpo junto.

Há tanta solenidade em meus lençóis recobertos
Que sintetizo o vento a deflagar tempestade.
Que voem os varais
- E o tempo -
À vontade.
Roupa limpa areja boas frestas divinas.
Agora me beija
E me faz crer na saudade
Aquela deusa
Antiga.


(Voo Rio-BH 23/02/12)

Comentários

  1. bélíssimo. Digno de uma verve em chamas, adoro! ;) seu poema me inspirou, sabia?

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PLANO DE VOO

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De minha tão insensata
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Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
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Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
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Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

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O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

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Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
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