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Mostrando postagens de Fevereiro, 2012

SOBREVIVENTE

O efeito mais nocivo da Literatura
É a sua constante possível de resgate.

Pode-se trazer à tona
- A qualquer momento -
O mais ermo naufrago da humanidade
Que pouco ou quase nada
Saberá de embarcações

Mas sim,
Só dos tempos
De tempestade.

MEGA CENA

Recebi pelo correio
Meu bilhete premiado
Há mais de uma década
Extraviado.

Pensava eu
Nada ter a sorte
A ver com o passado...

Não sei se haverei
De resgatar o prêmio
Mas por enquanto
Irei guardá-lo
Para meu próprio bem
Bem a salvo.

POEMA DE AMOR PAGÃO

Será que tornei-me outra pessoa
Ou apenas
Fui sobrevivendo e me moldando
À possíveis fôrmas do não-fracasso?

Quanto
O tempo fez de mim
Sua escolha distraída
Enquanto eu pensava estar amadurecendo?

As nuances de dúvida
Constroem espetáculos
Por vezes hipnóticos.
O silêncio
Desenha com graça
O drama da não-presença.

Escrevo
Como quem pudesse pairar firmamento
Acenos da cidade maravilhosa...
Mas me calo.
Não estou em vezes
De suportar as vozes da palavra
Assimétrica e inolvidável.

Por isso
Peço que me fale baixinho
No sussurro quase surdo
De quem sabe de tudo o que há
No imenso.

E não ouses mencionar melancolias
Ou liturgias da palavra,
Clandestinas.

Quero é teu arrimo
A rima já me habita
Posto que ao verbo faço jus
Não quero a sua sina.
Sou poeta,
Isto te basta
Ou abominas?

Temo não caber
- Pequena -
Em teu abraço...
Não sei quem és
Apenas quem fui
Quando tu já não podias estar sendo.

Temo escorregar feita de louça
Pelos teus dedos
E espatifar-me em epitáfio lírico.
A despedida é …

CÓDIGO FONTE

Sabe que essa pretensão
De atravessar
                    com a palavra
É mal feitoria
- Ainda que bem feita -
Típica de nós, poetas?

Acreditar que por onde um homem
Ergue seu subjetivo de significantes
Um outro cá de lá seja capaz de retransmitir
Na nulidade-dúvida de cada ideia,
Uma vibração de alcance
Que para muitos apenas soa como contraste...

E se te encontraste neste recheio de dia novo
- Ainda que cá deste lado inda seja noite -
Me desprendo fosse o que te veste o sonho
E do verso solto, faço o meu disfarce.

POEMA PROLETÁRIO

O pai do ano nasceu inda filho
E mensalmente faz poupança A fim de não subjugar-se à alheia.
O pai do ano vem todo santo dia da feira Tem calos nos dedos  E sua mãe não tem nome.
O pai do ano já é homem E ainda reverbera o sonho do menino...
Logo que acorda o dia  Vai Conduzido da Silva  Aprender a lidar com a própria lida E fazer render inteira  Sua meia-idade.
O pai do ano inda é menino Mas há de ser o arrimo Força bruta a erguer o país em vão  Do que há na terra E do que jamais será seu,  Nem quando for grão do grão
E restar debaixo dela.

BACO DE PAPEL

Meu bloco
De concreto
Só tem o cordão
De isolamento.

Não sôfrego,
Contido
Ou amargurado...

Meu bloco
É um desfile de códigos
No ápice de seus logaritmos prováveis
E frases de efeito
Midiático.

Meu bloco
É feito
Em barco de papel
Mas ainda assim
- Tácito -
Como os feitos de Baco.

PROFUNDO DE GARANTIA

Já não tenho lugar Desde que passei a me ocupar De coisa alguma.
Nasci com trabalho definido Licenciada e com cadeira cativa Em minha própria escrivaninha.
E desde então, tudo o que eu existo, escrevo. Não tenho folgas ou feriados É uma espécie de sacerdócio automático Das minhas funções emocionais Neurais-Cognitivas.
Se meus escritos viram obra? Aí depende da posição dos tijolos E do tipo de estrutura Que estou a erguer Ou a derrubar. A escrita É um ato de implosão Ora controlado Ora capaz de varrer qualquer vestígio da face que aterra.
Aterrador é ler a si Egoísta mas indispensável Ao exercício Lácio Do ofício íntimo...
Quando me abstenho de escrever Algo de vasto se exacerba diante de meus olhos Embaçados de tanto ouvir ressoar frio.
Meu ar de inverno mais febril É o relampejo de ideias tão desconexas Que talvez não seja nesta vida Que vingue de dissolver-me a língua Em solução, de deixar ver os que verão Primavera já extinta.
Ácida é a base de todo o sacrifício Desta oferta de rotina A escorrer lado a lado Fosse…