quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SOBREVIVENTE

O efeito mais nocivo da Literatura
É a sua constante possível de resgate.

Pode-se trazer à tona
- A qualquer momento -
O mais ermo naufrago da humanidade
Que pouco ou quase nada
Saberá de embarcações

Mas sim,
Só dos tempos
De tempestade.

MEGA CENA

Recebi pelo correio
Meu bilhete premiado
Há mais de uma década
Extraviado.

Pensava eu
Nada ter a sorte
A ver com o passado...

Não sei se haverei
De resgatar o prêmio
Mas por enquanto
Irei guardá-lo
Para meu próprio bem
Bem a salvo.

PARADA CARDÍACA

Um não
- Vivo -

Para escrever
O próximo capítulo.

PRONTA-ENTREGA

Empilhadeiras
Que perdoem
O meu mau jeito.

- Não sou de armazenar -
Mas de vestígios.

CORPO DE TRABALHO

Sou absoluta
Margem
Anteposta
À estrela.

Sou tida
Na frase
- Exata -
Como me cabe
O poema.

VERTIGINOSA

Minhas escolhas
São escolas
De encolher
Antagonismos

E o papel
O princípio.

Ter papel principal
É mirar precipício.

RESSALVA

Estou apaixonada.

Salve-me se puder.

DIREITO À PROPRIEDADE

Não és mais minha
Do que o pronome possessivo
Que te condiciona.

Eu te pertenço, poesia.

LITERAL MENTE

Provérbios
Em alfarrábios
São dúbios.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

POEMA DE AMOR PAGÃO

Será que tornei-me outra pessoa
Ou apenas
Fui sobrevivendo e me moldando
À possíveis fôrmas do não-fracasso?

Quanto
O tempo fez de mim
Sua escolha distraída
Enquanto eu pensava estar amadurecendo?

As nuances de dúvida
Constroem espetáculos
Por vezes hipnóticos.
O silêncio
Desenha com graça
O drama da não-presença.

Escrevo
Como quem pudesse pairar firmamento
Acenos da cidade maravilhosa...
Mas me calo.
Não estou em vezes
De suportar as vozes da palavra
Assimétrica e inolvidável.

Por isso
Peço que me fale baixinho
No sussurro quase surdo
De quem sabe de tudo o que há
No imenso.

E não ouses mencionar melancolias
Ou liturgias da palavra,
Clandestinas.

Quero é teu arrimo
A rima já me habita
Posto que ao verbo faço jus
Não quero a sua sina.
Sou poeta,
Isto te basta
Ou abominas?

Temo não caber
- Pequena -
Em teu abraço...
Não sei quem és
Apenas quem fui
Quando tu já não podias estar sendo.

Temo escorregar feita de louça
Pelos teus dedos
E espatifar-me em epitáfio lírico.
A despedida é um eco pálido
E eu, que tanto sangue trago
Sou dona de estourar cada vaso
Antes que cheguem ao coração.

Arrítmica bomba de epinefrina
- Mas na lira -
Espalho miolos ao chão.

Não calho de estabilizar batimentos
Tão pouco debater frustrações.
Sou o que sou
Só tenho no papel
O consentimento de não-ressuscitação.

Mas minha vontade
- Nula prisioneira de múltiplos compartimentos -
Compartilha da mesma veia que alimenta a minha inspiração.

Respiro.
Deixo o ar invadir teus espaços
E quem sabe
Preencher a sensação de amplitude
Que me toma quando penso em ti.

Liga o amplificador
Cúmplice da desova silenciosa
- Em batida frenética -
De minhas frases sobrepostas.

Não sei se aguento mais essa, sóbria.
Não sei mais sobrar manifestos.
Não quero mais ser dona das iniciativas
Nem das de recuo...
Quero o apuro ileso do teu corpo junto.

Há tanta solenidade em meus lençóis recobertos
Que sintetizo o vento a deflagar tempestade.
Que voem os varais
- E o tempo -
À vontade.
Roupa limpa areja boas frestas divinas.
Agora me beija
E me faz crer na saudade
Aquela deusa
Antiga.


(Voo Rio-BH 23/02/12)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

CÓDIGO FONTE

Sabe que essa pretensão
De atravessar
                    com a palavra
É mal feitoria
- Ainda que bem feita -
Típica de nós, poetas?

Acreditar que por onde um homem
Ergue seu subjetivo de significantes
Um outro cá de lá seja capaz de retransmitir
Na nulidade-dúvida de cada ideia,
Uma vibração de alcance
Que para muitos apenas soa como contraste...

E se te encontraste neste recheio de dia novo
- Ainda que cá deste lado inda seja noite -
Me desprendo fosse o que te veste o sonho
E do verso solto, faço o meu disfarce.

LUZ INDIRETA

E se a resma não cora
Ela chora
Parafina.

E se for a mesma vela
- A minha -
A fé que se ergue em reza
Me descredita a madrugada cega
E me recorda que sou sozinha.

SIGNO LINGUÍSTICO

Matéria...
Você ressignificou a matéria
Quando a nossa se fundiu à força sagrada
Do que transcende.

Se tenho vocabulário dos atos mais verbais
Não me servem mais...

Você me subentende.

POEMA PROLETÁRIO

O pai do ano nasceu inda filho
E mensalmente faz poupança
A fim de não subjugar-se à alheia.

O pai do ano vem todo santo dia da feira
Tem calos nos dedos 
E sua mãe não tem nome.

O pai do ano já é homem
E ainda reverbera o sonho do menino...

Logo que acorda o dia 
Vai Conduzido da Silva 
Aprender a lidar com a própria lida
E fazer render inteira 
Sua meia-idade.

O pai do ano inda é menino
Mas há de ser o arrimo
Força bruta a erguer o país em vão 
Do que há na terra
E do que jamais será seu, 
Nem quando for grão do grão
E restar debaixo dela.

BENTO

Eu te desconjuro
Em nome do que vai
Do que lírico
Eu exulto...

Eu te recuso.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

BACO DE PAPEL

Meu bloco
De concreto
Só tem o cordão
De isolamento.

Não sôfrego,
Contido
Ou amargurado...

Meu bloco
É um desfile de códigos
No ápice de seus logaritmos prováveis
E frases de efeito
Midiático.

Meu bloco
É feito
Em barco de papel
Mas ainda assim
- Tácito -
Como os feitos de Baco.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

TERMINAL

O porto de Suape
- Suave -
Me detém
A cada embarque
É dele que vem meu bem
E nele que meu bem descobre...

O segredo de ir além
É me ler em braile.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PROFUNDO DE GARANTIA

Já não tenho lugar
Desde que passei a me ocupar
De coisa alguma.

Nasci com trabalho definido
Licenciada e com cadeira cativa
Em minha própria escrivaninha.

E desde então, tudo o que eu existo, escrevo.
Não tenho folgas ou feriados
É uma espécie de sacerdócio automático
Das minhas funções emocionais
Neurais-Cognitivas.

Se meus escritos viram obra?
Aí depende da posição dos tijolos
E do tipo de estrutura
Que estou a erguer
Ou a derrubar.
A escrita
É um ato de implosão
Ora controlado
Ora capaz de varrer qualquer vestígio da face que aterra.

Aterrador é ler a si
Egoísta mas indispensável
Ao exercício Lácio
Do ofício íntimo...

Quando me abstenho de escrever
Algo de vasto se exacerba diante de meus olhos
Embaçados de tanto ouvir ressoar frio.

Meu ar de inverno mais febril
É o relampejo de ideias tão desconexas
Que talvez não seja nesta vida
Que vingue de dissolver-me a língua
Em solução, de deixar ver os que verão
Primavera já extinta.

Ácida é a base de todo o sacrifício
Desta oferta de rotina
A escorrer lado a lado
Fosse gargalo
De micro-ácido-aspersão
- De meu destino -. 

Dispenso aparatos de guerra
E reparo em cada fera enjaulada
Às frestas da janela do avião.
Muitos dormem
Outros se acomodam no silêncio relativo de estar acima de tudo
Até mesmo dos abalos
Sísmicos.

Mas eu cismo em olhar de perto
O andar desordenado das aranhas caranguejeiras
Fossem venenosas, dizem, seriam as primeiras
A me predar tal um pagão.

Mas meu sangue tão escorrido
Dor perpétua, hemofílico
Atreve-se a produzir o soro antiofídico
Até contra o choro
Que dirá contra a queda de pressão.

Se as palavras me carregam?
Não, eu as levito.
As espio escorrerem livres por entre os livros
E sei, não me ocupo de dígitos.
Nasci amparada por des_contar
Histórias de punho a pulsar
Em punhados de decoro infinito.

E sim
Carrego comigo
Um amor
Não um sonho
De vivê-lo
Antes que possa morrer
No que prevê
O Outono.

BIG BANG

Nosso
Segundo
De desencontro
Reuniu os astros em realinhamento
Infinito.

E foi ali 
- Nos teus braços -
Que aconteci princípio.