É elas não terem sentido íntimo nenhum.”.
(Alberto Caeiro)
Abri mão da prosa como quem aceita e reconhece o caráter predominante do imediato-sintético, adornando tal percepção em linguagem: meus poemas.
Um sentimento de eureca me tomava de modo totalmente inconsciente. Se as paragens que constituem a vida são sempre tão passageiras e terminais, como não internalizar tal noção temporal e imprimi-la à atividade mais orgânica que me move?
A poesia distorce bens perecíveis ao comprimi-los em vastas escolhas semânticas: cada verso tem o poder devastador de súbita paixão subtraída, roubando-nos adjetivos e elevando-os ao contorno, outrossim, do intangível.
Um bem súbito capaz de acometer como defesa até o mais relutante e convicto escritor prolixo, maltratado pelas recorrências de "fonemas-edemas" em sua arte.
A poética, de certa forma, não é para o entendimento das massas, mas para seu estranhamento. Este só vira entendimento se o povo, obtentor legítimo da língua, for autuado pelas palavras do poeta em flagrante e com leitura de seus direitos, de decodificação inclusive, ficando detido em seus termos. Em outras palavras, para um leitor não assíduo de poesia ou não iniciado nessa prática, esta só passará a ser assimilada, caso o vocabulário esteja acessível e o conteúdo alinhado ao momento de vida daquele leitor de ocasião.
Ainda que a linguagem e o domínio popular carreguem as vestes inquisidoras do poeta, é da própria natureza arbitrária da manifestação artística constituir o paradoxo de diferi-lo do comum, para que o dito ordinário possa refletir-se sem maiores implicações, uma vez que "o artista" reconhecido enquanto sujeito, torna-se autor da manifestação, representando o direito que "os demais" parecem não atribuir a si mesmos quando o elegem como representante, uma vez identificados com o que leem.
A grande deformidade do conceito do SER POETA, advém da glamourização do oficio em detrimento à conciliação estética das curvaturas do real em fantasia que o entendimento de conteúdos de arte proporciona. Como a linguagem tende a ser alegórica, a dificuldade em dimensionar seu alcance no dia-a-dia e aproximá-la da temática cotidiana, torna-se um obstáculo para a compreensão do leitor, para os desdobramentos espontâneos ou efeito catártico. A identificação é fator determinante em todo o processo.
Qualquer construção fica comprometida ao ponto em que o artista é confundido com o detentor de um ritmo ou filosofia de vida diferenciados e de expressão favorecida. Ora, se cabe a ele habilitar o próprio olhar e capturar paragens da constituição do coincidente da natureza humana, como tal processo se dará se ele for tido às margens da própria espécie e estigmatizado? Como poderá contribuir de forma genuína e reconhecida para conceber novas vias de percepção do indivíduo se passar a integrar lugar algum?
Entenda-se como artista, aquele que vê como nula a própria existência se subtraído de seu direito de elaboração e transformação constantes, sem as dimensões de expressão criativa, ou que, nas palavras de Fabrício Carpinejar, "distrai-se das coisas (estas utiliza apenas para efeitos de verossimilhança) para concentrar-se nas pessoas", que as percebe, incita, absorve, por vezes, constrange. O artista catalisa o que abomina com a mesma fome que a verve apaixonada do que dizem dom, o constrange. E este é o ponto: a inexpressiva capacidade de auto dialogar é o que gera sua reflexão, elege seus desafios, constrói sua busca autobiográfica, ora confundida em sobras ao puro acaso ora neutralizada na inevitável força do hábito. O artista é o fio condutor do que extrapola sua própria metalinguagem e o auge que rege como reage cada termo é seu produto icônico, sua pintura, sua escultura, sua fotografia, sua expressão artística, exposta ao mundo como a reconstrução de uma sensação agora itinerante, tão tóxica quanto uma saudade.
"O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo."
(Manoel de Barros)
Naty,
ResponderExcluirO Poeta transvê e emana o sentimento do povo, elabora e transforma esse sentimento em linguagem poética para concientizar os mais aculturados.
O Poeta é voz do povo.