sábado, 14 de janeiro de 2012

REDENTOR

Há tamanho ardor
Retorcido em faz-de-conta
Que prefiro elevá-lo
À redenção.

Autoridades de fé
Nada movem além de miragens
Bravo mar em ricas margens
Vaga lei dos que fogem, em vão.

E daí que te ergo os braços
E te concedo o livre-arbítrio
Para que optes, ao fim
Por todo o acaso
- Não por bom exemplar de sexo frágil -
E não me escondas
De tua face máxima
- Me deixo exposta -
Mas não como tua devota

E caso faça as vezes
Do todo poderoso que me ouve
Mas que, passível, permanece imóvel
Ainda poderás olhar ao alto
A vaga estrela do impossível
- Que se recolhe -
Bem diante dos teus olhos.



(E como crer, se é incrível?)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TRAÇÃO

Não me leve
Tão a sério
Se não
A poesia
              perde a graça.

DE CARNE E OSHO

Teu dom é um poema
- Diferente do meu, que prescreve -
O teu presentifica.

E é por ficar, talvez
Que a cada letra
O tema me fuja à lira
Sou tomada a cada cem decibéis
Por uma onda de pausas quase rítmicas.

Não precisa dar nome ao meu lugar
Eu que já vaguei por vastas esferas
- Tão notívaga -
Hoje ergo-me do chão no será
Daquela que perfuma o ar, esquecida.

Mas continuo a acreditar
Porque ninguém há de devolver
Minhas luas, tão ingênuas...
Tenho fé mas sou feita de fibra de mar
Que a maré não há de afundar
Enquanto me quiser, terrena.

domingo, 8 de janeiro de 2012

ELOQUENTE - À Mariana Junqueira

O silêncio guarda
A exata melancolia
Que exalta.

ACASO ESTAÇÃO

Há vezes
Minha poesia
                    Rima
Com covardia
Frustração
Esquecimento

Há vezes
Meus poemas
Viram oração...
Ora são ovacionados
Ora chocam
A platéia de otários
Pseudo-Didatas
Escravos de empenho.

Ora escrevem
O que vem na sequência
Ora prescrevem
As próprias dúvidas
Em delito.

Meus poemas
São uma típica moléstia
Das que afastam aos fortes
E abafam os gritos
Fulminam-os em ode
Em ordinárias doses
E game over!
Meu poema é um cover
De infinitas covardias
Mais extremas
Meu poema é nave mãe
Que me abduz em alta voltagem
Dos restos de clausura
Meu poema é um cínico
Vacinado contra a própria obviedade
Meu poema é o viés por onde atravesso
E sobro-me nula.

Meu poema é voz de ciso
A empurrar a dentição que tritura
O enigma pastoso do meu dia-a-dia
Meu poema é uma pena
Uma condecoração por cada falho ato de bravura
Meu poema é tão só
Uma súbita sutura
Que sangra cada suposição
A coagular na fuligem
De minha franca armadura.

Meu poema é uma rima pobre
E letárgica
Que se consome no ventre
Mas no ventre não se espalha.

Meu poema é um acidente
Em percurso presumido
Meu poema é a ínfima gênese
Em que mato o que eu mesma crio.
Meu poema é um filho bastardo
Alimentado no verbo
Mas abandonado ao acaso dos trilhos.

NEOLOGUISMO (POEMA LOGO ALI)

Sempre invento
Novas esperas
Para me mover
No tempo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DA CONFISSÃO E DA INDULGÊNCIA

A tua malandragem
Te precede
E eu, admito
Cedo aos teus "em tanto"...

Entretanto
Te percebo
Te estudo
- Não projeto -
Projeção pressupõe perspectiva
E a minha literatura
Te deforma
A cada hora
Desconstrói
E temporiza ao meu gosto
E ao meu modo
Irrestrita
Sou dona de conceber
A fé antiga
Que atire a primeira pedra
Quem não for mulher
De erguer-se da queda
Mais bonita.

Minha beleza
É o contra-senso
Da tua lógica
Desafiada
Pela gótica
Simetria
Que verbaliza.

Conforme
A performática
Do anti-furto
Te entrego
O meu amor
Dissuadido do verbo
E enfim, me nego...

É meu indulto.

PLANO B

- E se o avião cair?
- A gente vai andando.

AUTOMATÁRIA

A arte
Distrai
Os que se dizem a léguas
Dalí
Das lições
                da língua.

PONTUAL

Hora fosse
Tempo o que me habita
Eu já era.