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Mostrando postagens de 2012

POEMA SEM COMANDO

Tem um barulho doido dentro do meu ouvido. Dissonante.
Ressoando toda uma confusão de cartas outrora já marcadas.
Não sei se é o ampl de guitarra ou as minhas cordas vocais, adulteradas.
Não sei.
Aliás, saber é algo que deveria passar pelos ouvidos. Olvido. Esqueço.
Álias, lembrar é papo pra outra sessão de análise.

Estou literária
minha mente
suspensa.

tô nessa de deixar fluir no papel
abstrato
o que tratei desde a cura
há tempos
remediada.

eu medeio sem medida o tédio das distorções, em mais sílabas, acredita?
eu leio, eu laço a palavra a gerar sinônimos de desentendimento,

e você?
me entende?

sei lá
o que há
aqui
talvez o vazio
amortecido
do que já vivi
lívido
e decapitado
descrito com letras duplicas e maiúsculas.

pequena
eu.

e um mundo inteiro de esperanças
parado
no ponteiro exato
quem sabe
um dia...
amanhã?

não.
a negação presentifica o desejo de existir
paradoxal
é o nada...
nada consta
em teus olhos
só há espaços.

eis o sábio parágrafo repetido pela minha própria ignorância
em manusear a palavra com cuidado
palavra dad…

EXTRAVIO

Eu preciso de um poema
Forte
Inanimado
E absolutamente vazio.

Eu pressinto um poema 
Na liturgia velada do teu jogo de sombras
Posto que sei imenso do azul.

Eu esgoto o meu desejo
E arrebento o desconforto
De ter tido saudade
De ter tido o tempo exato
De desmerecer o cálculo.

Eu imploro o poema digno de nada
Digerido em minha ossatura tenra
E despreparada.

Eu impugno o poema que me cospe
O sabor errático da vitória.
(Em mim, gangrena)

Eu mastigo o fracasso
Como quem disseca
A ultima doçura daquela goma
- já incolor -
A grudar intestinos.

Eu encolho o poema
E sem as rimas
Disfarço
A dimensão de meus pormenores.

Eu esqueço o poema
No bolso da calça preta
E amarrotada
Que um dia já existiu na minha lembrança.

Eu preciso o poema
Na falta
Na tua falta
Em não presença
De estar aqui.

Eu
Simplesmente
Perdi
O poema
Num achado de esperanças.

(Caso encontre, por favor, devolva.)

INSPIRAÇÃO

De ti
Eu só levo
O que é meu.

Nossos beijos
Repartidos e vingados
Em cada partitura de papel
Despetalada

Bem-me-quer...

Quero-te bem
Querubim ou anjo torto
Afeto e gozo servem-te, ateus
E aos céus.

De mim
Tu tens
A voz e o aconchego
Hipotético algoz da saudade
- E do tempo que se perdeu -

De ti
Eu, só
- Levo -

O que deixo.

AMORfo

A hora é de parar ponteiros.
Reavaliar o foco e redimir as próprias sensações. 

Ser humano,
É privilegiar no ato, a falha, 
Na fala, o atalho para o pormenor das frustrações.

Dou minha cara a tapa
te mostro a outra face da esfinge. 
Finge que acredita no fastio daquela que te devora, marota 
E amarrota a roupa a regurgitar os traumas que a cada timbre, tu arrotas.

Eu te devolvi ilusões calculadas no brilho de um flash. 
Das que valem a mesma mísera marmota de um falso brilhante.

O signo não é a preciosidade lapidada, 
mas a pedra escondida no sapato do operário que anda descalço, 
E usa meias.

Palavras. Inteiras odes de esmorecer cada dose
da posologia barata escondida no meu silêncio.

Eu calo. Eu pedra na meia sem sapato do operário. 
Eu sábado, quem sabe, um dia a menos de jornada de trabalho.
Eu, domingo.

Ei, (eu posso)
Escuta: 
Dizer que há nó cego 
Não desfaz o estrago da corda roída.

Rói, rato. 
Perambula esquizofrênico, 
Pela labilidade do teu próprio asco de ti.

Rói a corda que enforca o palhaço e ri
Da…

SONATA INSONE

Difícil dormir sentindo que você está na sala...
Teu olho procurando na sintonia fina da TV Qualquer noção programada da tua vinda...
Vaga...  E no “top” de cinco segundos  A recaída.

Difícil dormir com a tua saliva  aguardada na cozinha e na cama
Lambendo meu sono em doses profundas  que me gozam em semi-coma.

A mesma canção que me sona
Sintetiza teus efeitos audiovisuais em meu leito de sintoma!
Não durmo, não durmo!
Mas distorço o cúmulo cumulativo tal drummoniana!

E assim te minto em meu dom e dramo teu tom  Em insônia...
Mas tem sono e som, (e também tem Drummond)  Quem nem sempre sonha.

APRESSE

A lua tem gosto
Súbito
          de silêncio
A propagar distâncias.

Falam-na plena
Em seu altar adjacente
Mas o teto de vidro
Quebra-se aos olhos de estampido
E ensurdece.

Aos notívagos
Serve aos mais vagos e vastos motivos
Todos eles, santos
Todos eles, tantos...

Mas a deusa da clausura
Estanca os ouvidos
E ausculta cada prece
Até corar a noite
Em dia amanhecido...

Ser poeta
É ser bicho
De nenhuma espécie.

AUTÓTROFO

Há cansaço em existir...

Nula,
Desisti de todas as querenças.

Só 
Quero regurgitar o veneno
Sistêmico
Do dia a dia

Expor o caos à exceção
Me fantasiar de tempo
E passar incógnita
Por cada ruela do esquecimento.

Eu morri à míngua 
E o sol
Solitário e ambíguo
Tornou-se repouso à sombra
De uma lua qualquer.

Assombro-me da crueldade
Inanimada em olhos fixos
Distraídos do instante
Em que foram passíveis
De ver.

Cala-te boca
É o calabouço que te acorda
Subterrâneo
Ima translúcido de teus dedos
Metais de vidro
A atrair fragmentos ao vento.

Eu duvido
Que aceite o reflexo
Como ato involuntário
Do que tende a ser
Espelho
Desespero
Perto
Aperto
Não há pleito algum em quem
Esqueceu-se de reivindicar.

Fraco
A corda arrebenta do lado
Mais fraco
Mas apto à fraqueza
De arrebentar.

Só sei
Que só
Tenho aptidão para sobreviver.

E enquanto existo
Há uma naja sibilando
Dogmas em línguas febris
Contorcendo-se inebriada
Pelo claustro do próprio sufocamento 
Por entre mágoas.

Agora vai
Troca de pele
Digere essa presa
Que abala o vazio
A fome
A finit

MÚLTIPLA DE TI

Meu amor,

Não tome meu zelo como autômato 
De quem crê portar o visto 
Do que, alheio a tudo,
A tudo viu.

A começar por ti
Estréia concebida apenas na usura fantástica 
Da minha imaginação.

Não...
Essa assimetria toda combinada
Calhou de me emudecer
E na ausência de um tipógrafo
Prefiro não tipificar cadências
Tímidas
Tão pouco
Avassaladas
Em mútuo estado de contingência.

Mas me diz
Conter por quê?
Se cada letra que cravo na vida
Me parece ter sido bem disposta 
À tua espera?

E não que não seja
De perecer
O usufruto do nosso tempo
Disparado e vertido de ausências

Mas não posso
(nem quero)
Viver de cronometrar despedidas
Ou derreter a parabólica 
Dessa nossa curta metragem de amor sem medida
Assim tão óbvio
Erguido em terreno inóspito
E entregue em cada (tão terna)
Premissa!

Não hei de estender o poema
Pudesse amplificar paradigmas recortados
De realidade

Não penso
Que quero
Ao que sintas
Desejar-te

Posto que já te tenho
Curvo e aliterado
Sem sombra 
Suor
Ou sílaba
(Saussure) 
Que suss…

DOMÍNIO

Se de me olhar
Me enxergasse
Não precisaria irromper
Vestígios de saudade
Extrema.

Em seus olhos
Há poema
Investidas tão torpes
Quanto anímicas estrofes
- Tão nobres -
Mas enfermas.

A poesia escorre
Não há tema...
Por mais que eu tema à morte
Ouso a overdose
Da ausência.

SOFISTICADO

Eu te retiro
Dos direitos adquiridos
De todos os sábados
Dias santos
E domingos

Eu miro
E atiro

Meu amor é um cínico
Alvejado no rosto
E com um sorriso torto

Caído ao chão
Do sofismo.

TAL VEZ

Sabe
Que de sonhar
Um dia
Penso

Esse espelho
Esse outro
- idêntico -
Dentro do mesmo
Que se quebrou

- Foi o texto -
Não foi real

Foi por extenso.

POEMA PRETERIDO

E se eu te escrever
Um poema
Que não for teu
Mas capaz de restaurar
O silêncio que exalta
Nossas memórias ressequidas?

E se eu for capaz de te amar
Mas nunca mais
Capaz de te escrever
Poesia alguma?

Como fica?

FATAL

O vazio
De tantos corpos
- Inelegíveis -
Ao acaso...

Qualquer que seja
A desventura
Eu pairo olhos
A disparar sinos de vento.

Eu busco
- A contento -
Um pouco do pão
Em divino código
Sirvo-me da sangria
Vitrificada na espera
E no desamparo.

Dos teus medos
Eu sou a deusa
Que era

Eu sou o fato.

AOS RECÉM-AVENTURADOS*

De tudo, ao meu amor serei atento antes,
E com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.



Há ocasiões que incitam o poeta que há em cada um de nós, que despertam tal olhar, ainda que escondido sob esferas quase cegas de racionalidade. Esta a qual somos instruídos a evocar diante do arrebatamento que precede a inspiração, para ao invés de dizer o que sentimos, optar por externar o que é adequado, o que é convencional e comumente, o que fará pouca ou nenhuma diferença para quem diz ou para quem ouve. É neste instante que a palavra perde a força,  não salva-guarda sentimento, porta apenas burocrática, o sentido.

E é no ínterim do permitir-se observar (que não devemos confundir com o reparar), que surge a matéria-prima mais primordial mesmo da poesia, a simplicidade que legitima as palavra…

ATO VERBAL

O falo é teu
Mas quando falo Sou eu quem te diz do poder que ergues ao meu favor Quando a língua se agarra aos teus ouvidos.
Não que eu faça pouco de minhas curvas Mas sei que é no contorno dos meus lábios que rendo os teus olhos A desenhar labirintos ilógicos de costas nuas
Eu lavo o teu olhar com a minha palavra Me insinuo na transparência sem-vergonha de um eufemismo Te refaço das dúvidas e desconstruo as certezas Em meu altar, faço lograr o teu teto de zinco.
Te dou cinco dos meus verbetes e flerto com a simplicidade do aconchego Linguístico é o nosso adeus grego Despedida não há nesse templo Meu verbo te volta, te evoca desejo E eu te beijo todo Sugo o sal do suor,  Sou pura fé em solo seco.
Objeto voador não identificado É o meu par de braços a abraçar o abismo Tal o vento que te catapulta os escrúpulos Eu te guardo num silêncio rubro Seguro de minhas inquirições de logo cedo.
O que sei não te pergunto Meu verbo é um indulto que te serve Acima do bem ou qualquer mal  - Absoluto…

OU TRONO

Eu te evoco
E é ele quem me toma
O corpo
E me guarda a alma
À sombra.

Perdoa
Se ouso de me entregar
Sem dono
Se é teu o nome
- Santo -
Que de fora a dentro
Em minha pele é ouro
A cravejar-me a boca.

Mas meu amor é teu
- Posto que não abandona -
Por mais vastos que sejam os braços
 - Do Outono -
Este outro que me cobre os ombros
No cair exato de cada folha.

SURDO MUNDO

Leio aos teus lábios
Como pudesse transvê-los.

No que dizem
Pouco me impactam
- Não são dados -
Mas dardos
A mirarem-me estragos
Em silêncio.

Reviro teus sucos gástricos
A fim de não gastar-me
- Antiácidos -
Ao ouvir cousas tolas.

Tolero-te
Mas a alto custo
Regenero-te no uso
A infligir-me tua.

A toa
Tu me acusas
Do que tu mesmo não te perdoas.

O que me dizem teus lábios
Me sussurra o oposto
A tua língua inculta.

BIOGRAFISMO

Minha vida
Não há
De ser
Um açoite
Á liberdade...
Tão pouco libertina.

Minha vida não elege calabouços
Ou cala-me dos loucos
Minha vida é cousa
De querer esforços
Para costurar em lóbulos
Novas lógicas rítmicas.

Mas minha rima
Não é negócio
Mas usufruto dialógico
De quem se atreva à redimi-la.

Minha poesia
É um rastro cego
Incontido no não-liberto
E eu, que não espero
A guardo no credo
De quem não a credita.

Minha poesia
por ser rima qual quer
Não é qualquer rima.

GENEral

Sinto
Estar
Acima
De tudo

Não há sombra
Ou vulto...
Sou só
- Um corpo -
Fechado.

Minha fé
Agora é avulsa
- Mas absoluta -
E pulsa sem pecado.

Não hei de incorrer
No pânico do claustro...
Abafados,
Estão os meus medos
E é neles que me abro.

É esta a minha única guerrilha
- Secreta -
Entre mais verbos do que murmurios
Desencontrados nos atos do insepulto
Seja na paz, esteja em guerra
- Ser jamais será -
O ofício de poeta.

COMPANHEIRO INFIEL

Sim
Eu ouso definir a literatura
Porque acredito
Que sinalizar
Provoque mais atalhos
Do que direções.

O aviso de "pare"
Nos faz olhar para ambos os lados.

Nem todos os cães que ladram
São ladrões.

ANTI-CORPUS

Minha poesia
Não é deflagração de intelectualidade
Mas mecanismo mesmo
de sobrevivência.

Minha poesia
Sequer é minha
Se quer é tua
Mas é autônoma
Com preparo lírico
De maratonista.

Minha poesia sobrevive
- Pouca -
Mas multiplica-se na velocidade fônica
De toda
- Mas não qualquer -
Inexistência.

PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

VÃ PREMIERE

Segura na minha mão
E fecha os olhos.
Me deixa só desta vez
Te mostrar quem eu sou.

Não que das outras vezes não fosse eu...
É que quando eu tô com você
Surge uma versão com cortes
Sempre em película e curta-metragem.

Uma outra de mim
- Tão tímida quanto devassa -
Como se saída de um filme de Fellini
Mas daqueles para ser assistido só em casa.

E tem sido assim
Desde o nosso primeiro contato
Digamos, imediato.

Não consigo evitar
De esconder-me no silêncio
A abreviar repertórios.
Parece que quando olha nos meus olhos
Eu, poeta
Experimento o inominável.

Só há dois espaços
- Sagrados -
Onde me sinto a salvo:
Um é aqui...

O outro é nos teus braços.

AUTO DE CONSAGRAÇÃO

Esconde-te
De meus olhos
Ainda tão repartidos
Em brevidade.

Não me deixe ver
Quanto de ti ainda resta
A vagar por aí
No claustro monocórdico
Desta cidade.

Finge que sou de conceber
O ímpeto do qual morri
Quando estavas em fins de reagir
Mas foste covarde.

Te quero perto
Sério
Sóbrio
Não em breves cismas
Ou em palavras frias
Sem teor concreto.

Vem me olhar em terra firme
Sem temer o lume
Que disfarçado de sublime
Pode esvair-se no léxico.

Me deixa ser teu amor sem dono
Extenso, semente em terreno plano
Em tantas paráfrases de Perséfone
Te proponho o verso dissuadido da tese
O mais terno, assim livre
Em benigno registro.

Lê a minha palavra
Pudesse transpor o entendimento
E simplesmente existi-la no infinito.

O amor é um símbolo
Mas o que sinalizo
É um ritmo absorto em monoteísmo...
Um só Deus
Enquanto não houver adeus
Eu não desisto.

POEMA SEM FRONTEIRA - A Leon Tolstói

Revólver
Devolve
Aos montes
As montanhas
Que nos separam
Dos feixes de luz do cosmos
Em estampido.

Cosmopolita...
Eu sou a tua íntima fêmea pré-concebida
E sou a mais tímida e pretensiosa
Promessa exígua
De um exímio impressionista.

A extinguir tantas eras
Mais líquidas
Te escorro pelas mãos
- Não me siga -
Posso calhar de revirar
Tantas promessas
Desprovida das resmas
Ou das mesmas tão eternas
Quando pífias.

Observa-me circunscrita em pedra
Sou primitiva quimera
A conceber o amor em conserva
E mesmo com todo o poder da arte na guerra,

A mais pacifista.

RELÓGIO DE SOL

Tem água
No contorno do céu
Terreno.

É um lado
Sobreposto
Ao que poemo
De chover substrato
Ao avesso
De clima árido
E tão seco.

Sou de florescer meus versos
Decênios
A ponto de apurar sua tolerância
À cada franca mudança de estação.

Me diz então
Por que acho de mim
Um corpo perdido
Intrigado de euforia
Bons poemas não surgem ao que principia
Mas ao que se termina em vão.

Teimosia a minha
Tentar ver lua em céu de mar
Se pareço chover sozinha...

O sol é um tormento de honraria
Bravos são os raios
A sapecar meu instrumento de precisão,

- A poesia -

POEMA DE FIBRA

O fim do beco
Era um bloco
De rua.

Paredes escarlate
Parafraseavam
Sentimentos rubros.

Um passo à frente
Deflagaria nova era.
Para trás, a quimera...
Lembrança taciturna
De mais ávidas estações
A sangue frio.

Te corto os olhos
Com o golpe máximo
De uma saudade desconhecida.

O grito é um assalto
Mas não te entrego a minha vida.

Logo agora
Que aprendi a reservá-la
De meu próprio mistério
Sou surpreendida
Pela remoção massiva
De escombros.

É tanto teto de ouro
Retorcido
Que não sei se acredito
Que potes de ouro
Possam cair do céu.

Ao final dos arcos da lapa
Cada pupila se dilata
- Em iris -
Peço que desfoque de tuas crises
E me desveja no papel.

O velho é apenas um outro pacto
A desafiar, de novo
O tempo intacto
Que no cadafalso se perdeu.

Ergue teus olhos
E me encara
Adulta.
Não adula-me como mulher
- Jamais serei coisa tua.

Aceita-me ímpar, como tua dupla
Sou fruto, acima de tudo
De rima, madura.

O verbo cansou de trafegar no imenso
Agora quer vaga cativa
Mesmo que sem professar a …

REVELAÇÃO

Sofro de um medo
Excessivo
A lograr-me o bom êxito
Em teor vespertino

Não mais consigo
Nomear o que pretendo
Apenas tento evocar meu instinto
A censurar meus bloqueios.

Eu sei que está em hora
De reaver meus sentidos
Mas é tão íngreme o cerco frio
Que não posso aninhar-me
- É faca pontiaguda na carne -
A coragem que silencio.

INOLVIDÁVEL

Guardo comigo
Teu lugar
- Que é só meu -
Por escrito.

Temo reintegrar-te posses
Posto que há vozes
Que te tomam
Meu espírito.

Á luz dos meus medos
Escondem-se à penumbra
Os meus sonhos mais bonitos...

Penso serem olhos
A dádiva de te escrever o que não digo.

O silêncio é um sóbrio
Mas há o ilógico,
Ah, estas vozes em meus ouvidos!

RESTA UM

Tenho amor algum
Agonizado
Em consequentes
De desamparo.

Não temo remos
Ou raios
Sigo a maré do desassossego
Mas me separo
De cada onda amiúde

- São só rastros de juventude -
A prescrever o que já não trago
Elevado
Ou expresso.

Não sou mulher de um só verso
O que resto
É só o resto.

SOBREVIVENTE

O efeito mais nocivo da Literatura
É a sua constante possível de resgate.

Pode-se trazer à tona
- A qualquer momento -
O mais ermo naufrago da humanidade
Que pouco ou quase nada
Saberá de embarcações

Mas sim,
Só dos tempos
De tempestade.

MEGA CENA

Recebi pelo correio
Meu bilhete premiado
Há mais de uma década
Extraviado.

Pensava eu
Nada ter a sorte
A ver com o passado...

Não sei se haverei
De resgatar o prêmio
Mas por enquanto
Irei guardá-lo
Para meu próprio bem
Bem a salvo.

POEMA DE AMOR PAGÃO

Será que tornei-me outra pessoa
Ou apenas
Fui sobrevivendo e me moldando
À possíveis fôrmas do não-fracasso?

Quanto
O tempo fez de mim
Sua escolha distraída
Enquanto eu pensava estar amadurecendo?

As nuances de dúvida
Constroem espetáculos
Por vezes hipnóticos.
O silêncio
Desenha com graça
O drama da não-presença.

Escrevo
Como quem pudesse pairar firmamento
Acenos da cidade maravilhosa...
Mas me calo.
Não estou em vezes
De suportar as vozes da palavra
Assimétrica e inolvidável.

Por isso
Peço que me fale baixinho
No sussurro quase surdo
De quem sabe de tudo o que há
No imenso.

E não ouses mencionar melancolias
Ou liturgias da palavra,
Clandestinas.

Quero é teu arrimo
A rima já me habita
Posto que ao verbo faço jus
Não quero a sua sina.
Sou poeta,
Isto te basta
Ou abominas?

Temo não caber
- Pequena -
Em teu abraço...
Não sei quem és
Apenas quem fui
Quando tu já não podias estar sendo.

Temo escorregar feita de louça
Pelos teus dedos
E espatifar-me em epitáfio lírico.
A despedida é …

CÓDIGO FONTE

Sabe que essa pretensão
De atravessar
                    com a palavra
É mal feitoria
- Ainda que bem feita -
Típica de nós, poetas?

Acreditar que por onde um homem
Ergue seu subjetivo de significantes
Um outro cá de lá seja capaz de retransmitir
Na nulidade-dúvida de cada ideia,
Uma vibração de alcance
Que para muitos apenas soa como contraste...

E se te encontraste neste recheio de dia novo
- Ainda que cá deste lado inda seja noite -
Me desprendo fosse o que te veste o sonho
E do verso solto, faço o meu disfarce.

POEMA PROLETÁRIO

O pai do ano nasceu inda filho
E mensalmente faz poupança A fim de não subjugar-se à alheia.
O pai do ano vem todo santo dia da feira Tem calos nos dedos  E sua mãe não tem nome.
O pai do ano já é homem E ainda reverbera o sonho do menino...
Logo que acorda o dia  Vai Conduzido da Silva  Aprender a lidar com a própria lida E fazer render inteira  Sua meia-idade.
O pai do ano inda é menino Mas há de ser o arrimo Força bruta a erguer o país em vão  Do que há na terra E do que jamais será seu,  Nem quando for grão do grão
E restar debaixo dela.

BACO DE PAPEL

Meu bloco
De concreto
Só tem o cordão
De isolamento.

Não sôfrego,
Contido
Ou amargurado...

Meu bloco
É um desfile de códigos
No ápice de seus logaritmos prováveis
E frases de efeito
Midiático.

Meu bloco
É feito
Em barco de papel
Mas ainda assim
- Tácito -
Como os feitos de Baco.

PROFUNDO DE GARANTIA

Já não tenho lugar Desde que passei a me ocupar De coisa alguma.
Nasci com trabalho definido Licenciada e com cadeira cativa Em minha própria escrivaninha.
E desde então, tudo o que eu existo, escrevo. Não tenho folgas ou feriados É uma espécie de sacerdócio automático Das minhas funções emocionais Neurais-Cognitivas.
Se meus escritos viram obra? Aí depende da posição dos tijolos E do tipo de estrutura Que estou a erguer Ou a derrubar. A escrita É um ato de implosão Ora controlado Ora capaz de varrer qualquer vestígio da face que aterra.
Aterrador é ler a si Egoísta mas indispensável Ao exercício Lácio Do ofício íntimo...
Quando me abstenho de escrever Algo de vasto se exacerba diante de meus olhos Embaçados de tanto ouvir ressoar frio.
Meu ar de inverno mais febril É o relampejo de ideias tão desconexas Que talvez não seja nesta vida Que vingue de dissolver-me a língua Em solução, de deixar ver os que verão Primavera já extinta.
Ácida é a base de todo o sacrifício Desta oferta de rotina A escorrer lado a lado Fosse…

REDENTOR

Há tamanho ardor
Retorcido em faz-de-conta
Que prefiro elevá-lo
À redenção.

Autoridades de fé
Nada movem além de miragens
Bravo mar em ricas margens
Vaga lei dos que fogem, em vão.

E daí que te ergo os braços
E te concedo o livre-arbítrio
Para que optes, ao fim
Por todo o acaso
- Não por bom exemplar de sexo frágil -
E não me escondas
De tua face máxima
- Me deixo exposta -
Mas não como tua devota

E caso faça as vezes
Do todo poderoso que me ouve
Mas que, passível, permanece imóvel
Ainda poderás olhar ao alto
A vaga estrela do impossível
- Que se recolhe -
Bem diante dos teus olhos.



(E como crer, se é incrível?)

DE CARNE E OSHO

Teu dom é um poema
- Diferente do meu, que prescreve -
O teu presentifica.

E é por ficar, talvez
Que a cada letra
O tema me fuja à lira
Sou tomada a cada cem decibéis
Por uma onda de pausas quase rítmicas.

Não precisa dar nome ao meu lugar
Eu que já vaguei por vastas esferas
- Tão notívaga -
Hoje ergo-me do chão no será
Daquela que perfuma o ar, esquecida.

Mas continuo a acreditar
Porque ninguém há de devolver
Minhas luas, tão ingênuas...
Tenho fé mas sou feita de fibra de mar
Que a maré não há de afundar
Enquanto me quiser, terrena.

ACASO ESTAÇÃO

Há vezes
Minha poesia                     Rima Com covardia Frustração Esquecimento
Há vezes Meus poemas Viram oração... Ora são ovacionados Ora chocam A platéia de otários Pseudo-Didatas Escravos de empenho.
Ora escrevem O que vem na sequência Ora prescrevem As próprias dúvidas Em delito.
Meus poemas São uma típica moléstia Das que afastam aos fortes E abafam os gritos Fulminam-os em ode Em ordinárias doses E game over! Meu poema é um cover De infinitas covardias Mais extremas Meu poema é nave mãe Que me abduz em alta voltagem
Dos restos de clausura Meu poema é um cínico Vacinado contra a própria obviedade Meu poema é o viés por onde atravesso E sobro-me nula.
Meu poema é voz de ciso A empurrar a dentição que tritura
O enigma pastoso do meu dia-a-dia Meu poema é uma pena Uma condecoração por cada falho ato de bravura Meu poema é tão só Uma súbita sutura Que sangra cada suposição A coagular na fuligem De minha franca armadura.
Meu poema é uma rima pobre E letárgica Que se consome no ventre Mas no ventre não se espalha.
Meu poema é …

DA CONFISSÃO E DA INDULGÊNCIA

A tua malandragem
Te precede
E eu, admito
Cedo aos teus "em tanto"...

Entretanto
Te percebo
Te estudo
- Não projeto -
Projeção pressupõe perspectiva
E a minha literatura
Te deforma
A cada hora
Desconstrói
E temporiza ao meu gosto
E ao meu modo
Irrestrita
Sou dona de conceber
A fé antiga
Que atire a primeira pedra
Quem não for mulher
De erguer-se da queda
Mais bonita.

Minha beleza
É o contra-senso
Da tua lógica
Desafiada
Pela gótica
Simetria
Que verbaliza.

Conforme
A performática
Do anti-furto
Te entrego
O meu amor
Dissuadido do verbo
E enfim, me nego...

É meu indulto.