sábado, 31 de dezembro de 2011

TRANS_LÚCIDA

Luas
Multicor
Afastam sombras
Da luz terrena.

E eu
Fosse o poema
Vivia a construir fortes
Para guardar a morte
Que desfalece
                 Na lua cheia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

HABEAS CORPUS

Que conste no autos
Cada evidência trêmula
                                   Das vossas concessões
Para que enfim,
Não nomeies o inevitável
Com os escrúpulos do todo-acaso.

A salvo os prazos,
Estão as prisões.

DORAVANTE

A poesia caiu do cavalo
E resolveu seguir
Adiante
Por sobre os próprios pés de estigmata
- Os seus punhos -

Jamais haverá de confiar seu vir a ser
A um quatro patas
Incapaz de livrar sua palavra
                                          Do infortúnio.

ESTOFO

Na glória
E à deriva
O vínculo simplório
Do reencontro
É o que rema a vida.

TUDO BLUES

Finalmente
O final diz a verdade
E você jazz era.

JURADA DE SORTE

Meu amor
É uma afronta
Imaculada
Sob as amarras
Da Literatura.

Liberta e sôfrega
- A mais honesta  -
De minhas súplicas.

Quisera poder arrendar
O meu peito ao teu amor
Como me invade a poética
A cada jura.

CUSTO BENEFÍCIO

Se Matisse
                Visse
A cor que o matou
Estaria em crise...

Jamais daria vida
- Ao dom -
Que pincela
                 Nas matizes.

SLOW MOTION

Era uma vez
Uma vespa amestrada....

De tanto voar presa
Aprendeu a morar no ar
- Suspensa -
E a morrer
                Em câmera lenta.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

OLHAR CLÍNICO

Acostuma
A me observar
Lírica e pautada
Na tua estética
Em minhas curvas.

Deixa que eu te escreva
O meu melhor é um porém
Se bem me mede
Há outras dúvidas.

DUPLO SENTIDO

Se você viesse
- Penso -
Eu não chegaria
A partir
             Do encontro

A sós, uma via.

DAS INTEMPÉRIES E DOS RISCOS

A cada dia
Convenço-me
Da transitoriedade
Do engano.

Há certas chuvas
Que trazem a colheita
De todo um ano.

ADVERSA

Te dou torpor
Amanhecido
De promessa
Sem garantias de volver à tua sede
Os meus pecados são da fonte, a rede
E eu, do verso.

- Ninguém -
                    Me versa.

SANGUE FRIO

Um poema
É vasta oferta
É fé, alerta
Em meu ventre
Um obstáculo.

Observa-me reluzir em tua pele
Enquanto me descobres anestésica coleta
O poeta que traz às margens a própria fome
Extingue a febre que lhe é concreta.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

LEGÍTIMA (in)DEFESA

Quero tomá-lo
Percorrê-lo em guerrilha de mouro
Quero roubá-lo acerca de ti
- De teu próprio ouro -

Mas não quero
Querer-te
Em vias de latrocínio

Só em último caso
Te redimo e descarto
Com um único tiro.

DA POSSESSÃO E DO DESAPEGO

Estamos
À beira
De um ataque
De termos.

Teremos
Nós
O devido
Tempo
De verbalizar
O dito
Efêmero?

Eu tenho.

ARQUIPÉLAGO

O amor
Preconiza
O que sonha.

Raios não são de verter estrelas
- Entranhas -
Mas de merecer
A lua que corta os céus
De Noronha.

DA LIMITAÇÃO DO AMOR E OUTRAS ABSTENÇÕES

Prometo de conter no olho
O que for de esmiuçar no verso.

Acaso te proponho 
De ver o mar no sonho
Não navegar o imprevisto
                                         Cego.

APELO

Explique-se
Evite-me
Eurídice
Morreu.

Motive-se.

METALINGUAGEM

Este poema
É a garantia
De que mesmo lido
O amor é um código
Que nos livra do óbvio
Não do risco.

O que não foi dito nos olhos
Permanece em sigilo.

SOBREVIDA

O amor é um parasita
- Trágico -
A debochar do próprio hospedeiro.

Hospitalize-o.

Tanto faz quem agoniza
O elo é um frágil
Descoberto na premissa.

Morrer de amor
É sobrevida.

OFICIOSOS OSSOS

Viro do avesso
O papel e o gesto
E te encerro
Em rima fria
Com mãos te ferro
- Te engesso -

Refrear o caos
Dá recesso

Não dá sílaba.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

DO EXERCÍCIO DA POSSE


Bem de onde
Ouço
A tua insígnia
Me calo
No sopro
E te verso
Infinita.

E a cada cor de mar
Maré vem
- Mansinha -
E molha-me a ponta do pé
Não sou bailarina.

Mas danço
Embalo o pranto
Em tua rima
E se choro
- Não te assusta -
A alegria não faz doer
De ouvir coisa alguma.

Sou menina de fé
Posso descrer se quiser
Há vezes moro na lua.
Não por sua imensidão
Taciturna
Mas por poder decrescer
E assim te esconder
Em rima de rua.

Eu sei
Eu te porto sem parecer
Flor de lótus
Ou adorno de chuva
Pois o que molha
Só irá respingar
Quando a lira
Por bem me deixar
Para enfim, ser tua.

domingo, 4 de dezembro de 2011

DO PRINCÍPIO DE TODAS AS SOMBRAS

Amo a extrema fosforescência
 - Fosca ao amar-te -

Amo esbanjar-te tolo
Enquanto enfeitas aquela outra
Com torpor de colheita
E nenhuma face.

E bem sei, te são tantas...
Uma para cada teu
Obra para todo quase!

Ainda que não eu
Escolho-me íntima
Para abandonar-te ao teu descaso
Somos ouro de tolo
Farinha do mesmo saco
Assalto teus prósperos verbos
E me encontro quando me roubas
De tua própria fé
Ao fingir que não sabes.

São os médios e graves
Que dão os tons do teu ego
Mas se te começo
Te acabo
O amor não foge a um cego
Só protege-se na arte.

DISTINTA

A tinta caprichosa
Do meu desaparecimento
Te assinala vasto
E a mim, omissa.

Vivo em cada nota lágrima
Que entre lencóis
A sós em teus braços
Se presentifica.

DA GÊNESE E DO ESTRANHAMENTO

Você
É meu bendito
Usufruto
              Unsual...


Você é meu empréstimo
Servo e tão astuto
Que sei
Jamais substituo
Ao final.

Você
É a razão
Demasiada
Plena
Meu equilíbrio
- Díspar -
Em quarentena
Meu santo graal.

Você
É minha hora
Salva
Subentendida
Você
É aquela mesma aurora
Ingrata e voluntariosa
Que digna e exata
Me permeia...

Você é meu verso
Meu enigma.

VIAS DE FATO

Pareço vagar entre meias-inspirações
Delírios de sóbrio em pirotecnia
Acima de meus braços
Está o absoluto diagnóstico
Faço votos mas te devoro
Como, 
- Bem -
Eu já temia...

Tento ser menos "Poe"
E dar mais espaço para o óbvio
Tento encolher minhas expectativas
Para estar ao menos prevista
No meu próprio descaso
Mas tu me reclamas o êxito
Quase que no dia-a-dia de nossas lavouras
Lavra a si dor
Como à palavra rege a boca
E me cala.

Fico eu subentendida
Em relatos de inóspita sobrevivente
A intercalar meus períodos de luto
Com tuas doses prematuras e tão típicas
Que às vezes
Pareço ler tuas sombras mais escusas
E iluminar teu próprio rastro.

Sei que no fundo não recusas
Mas é arbóreo o terreno etéreo do teu pensamento
Sei que de viver sinto o pleno
A léguas de prever assento
A poeira que levanto a cada ato
É minha senha
Entenda-me bem se assim puder.

Clara é a predominância do intacto
Vinga a reserva fina do acaso
Ao caso de ser perene
Precipito o caos da gênese
Ao que já me é um hábito.

Mas não habito o que me acende
Apago cada lampião exato
A ditar amarguras
Eu sou livre forma intercalada
Inequívoca o suficiente para submeter-te
À todas as minhas falhas
E às tuas.

O tempo é meu íntimo inimigo
E o mais bem aventurado.
Que queres de vencer 
 - É dúbia tortura - 
Se não sabes o bem viver 
Que te aguarda, a salvo
Na loucura?