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Mostrando postagens de Outubro, 2011

RESSONANTE - para Luiz Parreiras

Não
Que não seja
Dor
O que pulsa
                   Minha letra
Mas não é mortificante
Ou de comprometer
Minha liberdade
Ou a dádiva
De desprometer-me
                              Da caneta.

Só sei que calhei
De devolver ao papel
Os personagens expulsos
Do seu próprio enredo...
E não é mágoa
Ou pesar
O que dá esse tom
É o revirar
De um sóbrio
Medo.

Eu sei
Que dá de machucar
O que eu escrevo
Mas a ferida
Que exponho ao luar
Muito antes já se foi pra lá
- Não mais a tenho -

Poeta quando ousa reverberar
É que a dor que fisgava está,
No só,
           Do imenso.

OBVIAMENTE

Eu encontrei nos teus olhos
A mesma (e viva)
Latência
Quase presumida e não extensa
Aquela mesma
Que te rende e me principia
A poesia
           Das evidências.

ARTILHARIA

Há uma singela
E extra Curvatura No recôncavo-gênese - Na literatura -
Há um sentido sui generis  Que enfim, não cabe à letra - Nem perdura -
Pendura as chuteiras E calça teus tênis...
Poeta bom de pênalti Não merece  Perder a falta                      De ternura.

GERATRIZ

Eu mastigo
                Cada bendito fruto
Resumido.

Em meu útero
- Um parto abrupto -

O que não me sai à luz
                                   Re-significo.

SÓ_TÃO

Escarlate
Eu bebo
Eu vejo
- O vermelho -
Em teu sangue
                      Não há sorte...

Quisera poder reverter
Tal tua arte
Essa cisma
Contínua
De decrescer à catarse.

Bem que tento
Ser porquê
Quando o que me resta
É pedir mais uma dose
Em dócil esmero
Ou em frase...

Frágil é o recesso
Do meu eu
- Eterno -
Em diálise...
Dia-a-dia
A análise
Anáfora
Presumida
                Em overdose.

Não fossem os fósseis...
Admiro-me dos sósias
- Do espetáculo -
Espero em Espártaco
Que sem rever
Espantalhos
Minha horta norteia
Aos dons do semi-árido.

Deserto
A desertar Herodes
Heróis não sucumbem
Ao estupor dos que matam
Mas aos que em tanto
Disparam os seus cantos
Em in_pacto!

Te dou o meu sótão
Para que possas absorver
Isóbaros
Indignos de super exposição...
Te escondo, então
Se te acham
Não me roubam
- De ti -
Resta um simples
Auto-retrato
Não um léxico
Mas um leão
A devorar
               O meu porvir.

DO HIPOTÉTICO ÀS RETICÊNCIAS

Ele:
- Flamengo? Nossa... Essa sua paixão é recente...

Ela:
- Relativamente... Nada comparável àquela, sabe? Que é atemporal...

Ele:
- Paixão atemporal não é paixão....

Ela:
- Não mesmo... É aquela outra coisa, sabe? E nesse caso, onde há temporal, há chuva...

Ele:
- E quem sai na chuva...


Ele a olha nos olhos e fecham-se as cortinas.

Naquelas horas
- Adiante -
Só relâmpagos.

TEOREMA DO ABSTRATO

Te sujeito ao oculto
Mas o que cultuo no mundo
É o teu nome.

Toda e qualquer nova via
Será acesso
Aos teus mesmos caminhos
- Nossos cenários -

Odes inteiras, sonatas
- Meu presságio insone -
Não haverá nunca
Dose qualquer mais lúcida
Do que a convicta louca
A merecer, escrita
A tua música...

Por isso, te peço:
Vê se pulsa o objeto direto
Que embala minha rima
- Faz mais de um século -
E me escuta:

Acaso me escreva
Um jazz ou blues
Não me negue às notas
- Ainda que em sua forma bruta -

Não me negue a volta,
Seja qual for o teu tom de azul.

INSUPERÁVIT

Tudo o que fala
Guardo
Gravo cada pedaço
Recortado
Em nossos nós
De aço.

Sábio
Bem sabes de nós
Mas eu só,
- não sei -
O que faço
Com cada frase
Ali no "timing"
Do teu super ágil
Verbo
Que me invade no cego

E me sabe.

EFÊMEROS ROTEIROS

Já te vesti em tantos personagens reunidos
Tantos efêmeros roteiros
E empréstimos prévios
De amor
De_méritos
E detritos...

Já te substituí meu íntimo
Meu inteiro bem de moer meios
Já te arrendei um livro inteiro
Te descrevi em dedos
- Medos -
E nunca te fostes
- Bem -
Só quando ainda
Tu eras cedo.

Mas agora eu vejo
Esse meu extremo corpo coeso
Extratificado em verso
Imerso em seu próprio som
Imenso-mar, profano amor
Bem de consumo.

Pra bem falar
- O primeiro -
Em cor, eu assumo
- O único -
A estréia quase secreta
A embalar sempre às vésperas
Cada poema futuro.

E ainda há hoje
Em nosso ontem,
- Encontro em vulto -
Não me esqueças
Ainda que não me aches
No tanto em que te procuro.

ATEMPORAL - A Luis Kiari

Sei que o dia nosso
É nosso quase todo dia
(e noite),
E escrever sobre o outro
- ou para o outro -
É reverberar ninguém
- E todos -
No puro ofício,
até os ossos
A fé recria.

Pode ser ócio,
Credo revirado no próprio ateu
Que vê no ilógico,
O relógio
- ponta de lança -
A cronometrar o caos
De ainda verter
Esperança

... Ainda assim,
Salve poeta dada a inutilidade da data,
Pois o teu dom não cabe na fresta
De porta qualquer que se abra.

ANTES TARDE

A poesia, meu caro
Não é um dado exato
Tão pouco um espelho bem virado para os teus olhos.

Se te digo que são teus
- Os poemas -
E neles não te vês
Penso que talvez
Falte mesurar-me
- Para além do traço teu em minha carne -
Ainda que me temas
- Como tua -
A cada vez.

Meu tema
Tu e teus olhos a esverdear fonemas
Tuas crises
Teus acessos de sinceras e abruptas barreiras
Teu ser de lua sensível em fuga
Mas tão elouqüente
Quanto o ciúme que te brota premente
- Em rara coragem -
A vagar doses súbitas.

Subo ao palco
E escancaro teus traços
Na minha escrita
Me atiça e me corre
Mas não me foge
Na cama
É beira
É briga
À beira de um ataque
- Desejo -
Eu te provoco
Eu te rogo
Mas não te beijo
Acaso sou eu de dividir o imenso?

Não te esqueço...
Mas se não és meu
Finjo que o és
                      E te cedo.

DE-EXISTO

Meus poemas
Fogem
E pedem resgate

Me juram a liberdade
De nada esperar
E cronometram no tempo
O seu ritmo.

Meus poemas
Só existem
                  Se desisto.

NOCAUTE

Hoje me recolhi
Do "luto".

Não quero mais parafrasear o mudo
Para sinalizar o medo.

Hoje eu cansei do tempo
E submeti-o ao final
Afinal
O que jaz
- No fundo -
Não é fé
Mas convicção
                       do efêmero.

SEGURO DE DÚVIDA

Eu quero ir
Pra onde
Não existe lugar
Nem nome.

Eu quero partir
- Sem chegar -
Já basta
            Do que some.

Mas se vens me buscar
Eu fico...

Longe.

INTÉRPRETE

Corro como um "até então"
- A passos lentos -
Disparo paixões recolhidas
Na pulsão de seu subentendimento.

Quem me crê
Não me vê
Coreografar
                   O silêncio.

DESFRAGMENTADA

Que sou eu?
O mesmo amontoado
Anestesiado
A prenunciar desejos?

Um ser
          A menos
Em detrimento
A tantos outros que abandonei
Mas debandaram-se
Pra dentro?

Que sou
Ao ser
Inteiro?