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P&B

Vou contornando teus lábios
E separando-os da doçura
Vou tateando teus oficiosos ossos
E me libertando dos teus braços
Vou debatendo-me em teu peito
E a cada pulsar perfeito
Recolho-me ao eleito
De minha própria nostalgia.

Nós tal tua linha...

Bem-aventurados na cura
Na sublime clausura
Das minhas
Das tuas
Fantasias.

Vendo-te
Ceguei mais uma trilha
Sonora é a foz de onde ressurge a minha lira
Aqui, quase abafada conforme a fome de ser sozinha...

E foi nesta ausência que me deste companhia
Em cada espaço enfeitiçado
Pela natureza tão finita do dia-a-dia
- Acordar e não ter-te me alivia -
Pois o teu toque ressonado
É puro, santo, quase sacro
Resguardado de tuas fugas de alquimia.

Sei de tuas fórmulas e correntes sem despedida
Mas é despida que desafio-te tal teu sono
Em recaída.

Não creio em amor
Que só ame o que já não cria
Não creio na reinvenção de próprias sílabas
Creio e apenas
Em fé que não defina
O amor de uma mulher
Ou de uma fêmea em voz ferina.

E sangro
E sigo
Enquanto não estanco
O pouco canto que bombeio
- É meio -
Em meio a tantos inteiros
Há um silêncio
No qual te reconheço.

Mas te deixo
Equivocado
E não suponho teu pecado
Não perceber
Minha voz tão limpa.

E ali se vai outro feito...
Quando tu vires que bem faria
- Esquecer -
É só querer
E desbotar-se
É bem diferente
De virar cinza.

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