sexta-feira, 29 de julho de 2011

EVOCAÇÃO

Há um quadrante de luz
Quando ascendo o quarto
Assim quase exato
A mergulhar estrelas.

É um egresso de medos
- De mesmas tristezas -
É pressa desnuda
É no vão, um raio.

É um vago vassalo
Em superfície litúrgica
A prospectar-me translúcida
- Esfinge de amparo-

É um hábil e tão breve
E disforme
Presságio
Que me transbordo em sangria
Discorrendo sob pele fria
Um estranhamento que me é exato.

A vida é turva
E a inspiração tão breve
E há essa bruma a exaurir-se em manhã
Amanhã, quiçá, não me espere
Oyá Eparrei, minha mãe Iansã!

INICIANTE

Acabo-me
Por reconhecer
Minha inquietude
Cega e irrefreável.

É a temática do absurdo
Consumindo-me aos poucos
É o gigante adormecido
Despertando de seu sono lúdico
Hora fosse um súbito
Em meu verso, inválido.

PREMISSA

Ser
O sentido
É quase como morrer
Antes mesmo
De ter nascido.

Sentir
Anula
O que tem sido
Ainda que venha a ser
Só se é o que te sou...

E eu,
Existo.

BEM MEU

Todo som
Te repercute
E eu
Tento em vão
Cegar meus ouvidos.

Quando me dou conta
Da natureza irretocável desse desejo
(Em desamparo)
Resolvo coexistir com o limiar de distância
Excedido por minha letra
Não sei se serão tuas
As liras ou as borboletas
Mas ainda assim te resgato
Pois é como se eu já te tivesse inventado
Desde o meu nascimento
Para só então encontrá-lo
Ainda que (in)digno de merecimento.

No entanto
Não hei de te guiar
Tão pouco ao teu voo
Sem acerto.

Há muito já sou tua mulher
Ainda que não saibas
Se é bem-me-quer
O que te provoco por dentro.

E é por não enxergar
Que te enfeito
Quase como se fosse reanimar
A veia-cava que vem desfibrilar
O efêmero.

E já te sou
Como havia de ser
- Um engenho -
Em seio alimento teu som tal silêncio
Quase como se houvesse de haver
Juramento.

E eu juro:
Jamais te darei
Meu tormento
Ainda que te torne a me perder
Eu apenas
Te pertenço.

DISTORÇÃO

"Tem uma parte de mim
Onde ninguém chegou ainda"
(Lucila Nogueira)

Fragmento
Flagro
Largo
O fomento

Te pressinto em verbo
Em signo
- Galeano -
Abarco tuas críticas
Como o resgate pronto
Em tantos outros mundos
Em oceano.

Eu te proclamo
Vida
Verve
Âmago
E em quase pacto
Eu te descarto
Porque sei que não te amo.

FIO DE CORTE

O Samba
Carrega em si
Uma senha
Que me sangra
Secreta.

APENAS

Não estou
Em vezes
De sentimentos
Alheios.

Eu
-a penas-
sinto.

TODA PROSA

Preciso desapegar-me
Do automatismo da síntese...

Poiesis... Estou em crise.

Preciso não retomar
Mais movimentos refratários

Mas verter e verter
Pra depois
Me morrer

Ao contrário.

PRESSÁGIO

Dois
Mil
e onze.

E hoje?

Quiçá te fostes ontem...

E eu?

Dois mil anos adiante.

VAGUE

Sopra
Leve
E deixa queimar a língua
Em Nouvelle.

QUINTA

Terça
parte
Manhã.

Em chamas
Atravesso a ponte
- Azul híbrido do céu -
E tal te vejo
- Reverbero -
O meu norteio é um cego
Ao estupor do papel.

VULGO

Arrendei o peito
A render um pacto
Não arredei o relho
E agora me rasgo
- Santa -
Enquanto a renda branca
Mal cobre
O meu prosaico.

REATIVO

Eu me apaixonaria por você
Fácil
Fácil
Mas nada de facilitar a sua vida.

Se chegar um pouco mais perto
Talvez
Encontre uma rima atípica
Dessas de comprometer estímulos.

E assim te quebro
E assim me caibo
Em teu ritmo, elíptica...

Não é a cisma que te ressoa
- Batida -
Mas o óbvio de nossa química.

ENCURTADO

Há vezes
Horas
Penso
Ser-te meu
Todo o meu verso
- Não vazio-

Mas se venço
O tal pré-texto
Tão pouco rogo
Ou adormeço

Pra te deixar
Te abrevio.

terça-feira, 26 de julho de 2011

CORRESPONDENTE

Se Deus quiser
Meu desejo existirá
Em nome dele.
Dádiva mútua
Ninguém se dá
Se vem Daquele.

DEMASIADO

Pra ti

Não


Superlativo.

IMPRECISO

Confesso
Com fé
Professo
E se der
Te esqueço.

RETIRANTE

A tristeza de cada nota
Cabe exata
Em minha lira.

Mas se é do som
Que ela se ergue
É de mim
Que se retira.

O cosmos é uma dádiva
Milimétrica é a mente
Repartida.

PROPAGADO

Nos teus olhos
Há intempéries à sombra

São meus vultos.

IMPROCEDENTE

Para quê abrir a alcova
Se covarde
Não te vales
Da Loba
Mas te assombras
?

CASO À PARTE

Caso
Eu não
Sobreviva
Cale-se
(Case-se)
Mas exista.

PARAGENS

Não te comparo
Pois amparar
Estrelas
Pode soar
Atemporal.

PRÁXIS

Ainda há de me valer
Cada poema mal-escrito.

COMPOSTA

Fecha a gaveta
E tranca a porta
Posso chegar-te
Por entre meias-palavras
Ou frestas imensas...

Resta ver
Se me nota.

RISCO DUPLO

COINcidências?
Aposte suas fichas.

domingo, 24 de julho de 2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

MITOGRAFIA

Nem é você
Talvez nunca devesse
Ter sido
Eu.

Eu mesma
Eu resma
Eu-diálogo-infinito-auto-palpitante
Eu, um verso bendito
A perder em si
O instante
A queima
A quimera exata de virar pó
De Prometeu.

PILATOS

Eu juro
Que não te daria
Juras

Eu te desprometo
Promessas inteiras

Eu lavo as minhas mãos
No teu sangue
E das alheias

Eu fujo das manhãs
Como quem as teme
- Estranha e pagã -
Mas vai à igreja.

Eu, quase você
Um desastre competente
De proporções em anestesia

Eu, esse teu estoque de razão
Que em vão
Percorre o dom
Que te anuncia.

PROSPECÇÃO

Está próximo
O dia.

O que entardece
É um só raio de sol
Que o horizonte
Realinha.

NOVA ESTAÇÃO

Ando
numas
nuvens...
- Coube flor -
Não cabe a rima.

AO VALENTE VALETE E OUTRAS ASTÚCIAS

Perecível...
Parece crível
A tua vasta oferta
De pecado.

Não um gosto
Talvez dois ou três
E tudo o que jamais se foi
Agora imerso no depois
Desfalece em próprio rastro .

Tanta mesa posta
Tanta resposta
Para novos extratos
Nesta vasta
Estratosfera poética
Que nunca
Mas além do mais
Nos basta
À vida.

Artista
Meu apreço de poeta
Que ainda assim se proclama
Uma dama
Ademais da lira e do escárnio
Há o drama que pulsa a vida
Tal o sabor oculto no damasco.

EM-CARNE-AÇÃO

A poesia deflagra
As mais diversas
Singelezas

É só a véspera
Do teu novo despertar
- linha destra -
Entre o famoso ver-se-já (versejar)
Resta ver
Se verei
Nesta.

PUBLICADO

Te livro
A cara
E o preço
É a pechincha óbvia
Do meu afeto.

Te livro
A cara
Mas tu és réu,
Confesso.

LATIFÚNDIO

Não te preocupa
Em ocupar
Espaços.

É todo teu
O território legítimo
Que me pulsa
Estando ou não
Em teus braços.

Não te preocupa
Em dignificar
Teus esforços
Por natureza
Não tenta me demover
Da destreza
Em coabitar pleonasmos.

Não nasci
Por puro acaso
Ventre-espasmo
Eu que gero
Me desfaço.

Não te preocupa
Em reconhecer o irreparável
Mas em reparar
No teu desejo e no que crê
Enquanto hábito.

Me compõe
Um verso
No sábado
Pra que eu possa merecer
O bem supremo do domingo
Além do lógico que é de lei
Há o acaso que vem vindo.

NA PONTA DO PÉ

Céu
Seu
Eu
Breu
Bruma.

O que permeia a névoa
Não é eterna
Tão pouco
Qualquer uma.

DISRITMADO

Há um nome
Um tema
Redecorado
Em cada cena

Há um nome
- E não que eu tema -
Renomear uma vida inteira

Há um nome
E uma letra
A denominar-me
(Não me preveja)
Literal.

ABSTINÊNCIA

O que mais acho
Procuro
No inculto pronome
Possessivo
Quase como se estivesse
Vivido em outra época
Em outra épura
Em um olhar transgredido.

O sinal
É um alerta
Insípido
E o poeta
Que antevê
O amanhecer
É um pároco
Que desfaz-se em símbolo.

É quase o mesmo abalo que habito
Ao atravessar teu olhar
Então, adicto.

RESSONADO

Acordei
Irreparável
Abalo sísmico
Em quarentena.

Acordei
Rastro limítrofe
A parodiar em síntese
O sono que já me é
Enferma.

Acordei
Em solo íngreme
Em voo-hímen
A estrear novas estrelas.

Acordei
Um cado triste
Pois sei que só existes
No adormecer de meus poemas.

AUTÔNOMA

O poeta só existe
No enquanto
De seu ato de escrita.

Isto feito
Deixa de ser
- Por hora -
O que só então
Significa.

NON SENSE

Hoje faz um ano
Que comecei a te perder.

Mas a contradição existe
Para além das minhas lembranças.

Pode ser
Que tudo
Não tenha
Passado...


Ou semântica.

POSTERIDADE

Ainda que a poesia
- Ressignifique -
A palavra
É pra sempre

- E pra sempre -
Não existe.

APREN_DIZ

A poesia
ilegitima
A cria.

Ainda que lambida
Passa a desmerecer o vão
Quando não empírica.

O rebento é um dom
Que só a fé
Ensina.

terça-feira, 5 de julho de 2011

P&B

Vou contornando teus lábios
E separando-os da doçura
Vou tateando teus oficiosos ossos
E me libertando dos teus braços
Vou debatendo-me em teu peito
E a cada pulsar perfeito
Recolho-me ao eleito
De minha própria nostalgia.

Nós tal tua linha...

Bem-aventurados na cura
Na sublime clausura
Das minhas
Das tuas
Fantasias.

Vendo-te
Ceguei mais uma trilha
Sonora é a foz de onde ressurge a minha lira
Aqui, quase abafada conforme a fome de ser sozinha...

E foi nesta ausência que me deste companhia
Em cada espaço enfeitiçado
Pela natureza tão finita do dia-a-dia
- Acordar e não ter-te me alivia -
Pois o teu toque ressonado
É puro, santo, quase sacro
Resguardado de tuas fugas de alquimia.

Sei de tuas fórmulas e correntes sem despedida
Mas é despida que desafio-te tal teu sono
Em recaída.

Não creio em amor
Que só ame o que já não cria
Não creio na reinvenção de próprias sílabas
Creio e apenas
Em fé que não defina
O amor de uma mulher
Ou de uma fêmea em voz ferina.

E sangro
E sigo
Enquanto não estanco
O pouco canto que bombeio
- É meio -
Em meio a tantos inteiros
Há um silêncio
No qual te reconheço.

Mas te deixo
Equivocado
E não suponho teu pecado
Não perceber
Minha voz tão limpa.

E ali se vai outro feito...
Quando tu vires que bem faria
- Esquecer -
É só querer
E desbotar-se
É bem diferente
De virar cinza.

domingo, 3 de julho de 2011

ALIBI

Não
Há nada
Que possa
Ser dito.

O sentido
Suprime
O veredicto.

Convicto...

E não há nada
E não haver
É só um aviso.

sábado, 2 de julho de 2011

PRÉ_VISTA

Tem um rasgo de olho
Presumindo o meu sentido
Se não olho para os versos
É que vendo-os
- Disperso -
Na prioridade zero do meu outro.

Há ouro e estanho no que cobre tão estranho
A passagem em teu voo.
Sabes que de contorcer a palavra
Esfinge é a idéia.

Li tantas esferas em poeta, reunidas
Reuni-me filha
Dádiva de promessa esquecida
Não te esquece
Há muito me conheces
E de mim não duvidas
Te dou uma, duas ou três cismas
Em tardia hermenêutica de liturgia

Unge-me ao fósforo semblante que te principia
Aliás é distante
É de bem antes essa espera infanticida
Não te mate, se nem cai em minha obra
Como crua teia contorcida

Eu, infante
Eu, um durante
A mediar novos prólogos
Em profecia.