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Mostrando postagens de 2011

HABEAS CORPUS

Que conste no autos
Cada evidência trêmula
                                   Das vossas concessões
Para que enfim,
Não nomeies o inevitável
Com os escrúpulos do todo-acaso.

A salvo os prazos,
Estão as prisões.

DORAVANTE

A poesia caiu do cavalo
E resolveu seguir
Adiante
Por sobre os próprios pés de estigmata
- Os seus punhos -

Jamais haverá de confiar seu vir a ser
A um quatro patas
Incapaz de livrar sua palavra
                                          Do infortúnio.

JURADA DE SORTE

Meu amorÉ uma afronta Imaculada Sob as amarras Da Literatura.
Liberta e sôfrega - A mais honesta  - De minhas súplicas.
Quisera poder arrendar O meu peito ao teu amor Como me invade a poética A cada jura.

ADVERSA

Te dou torpor
Amanhecido De promessa Sem garantias de volver à tua sede Os meus pecados são da fonte, a rede E eu, do verso.
- Ninguém -
                    Me versa.

SANGUE FRIO

Um poema
É vasta oferta
É fé, alerta
Em meu ventre
Um obstáculo.

Observa-me reluzir em tua pele
Enquanto me descobres anestésica coleta
O poeta que traz às margens a própria fome
Extingue a febre que lhe é concreta.

LEGÍTIMA (in)DEFESA

Quero tomá-lo
Percorrê-lo em guerrilha de mouro
Quero roubá-lo acerca de ti
- De teu próprio ouro -

Mas não quero
Querer-te
Em vias de latrocínio

Só em último caso
Te redimo e descarto
Com um único tiro.

SOBREVIDA

O amor é um parasita
- Trágico -
A debochar do próprio hospedeiro.

Hospitalize-o.

Tanto faz quem agoniza
O elo é um frágil
Descoberto na premissa.

Morrer de amor
É sobrevida.

DO EXERCÍCIO DA POSSE


Bem de onde
Ouço
A tua insígnia
Me calo
No sopro
E te verso
Infinita.

E a cada cor de mar
Maré vem
- Mansinha -
E molha-me a ponta do pé
Não sou bailarina.

Mas danço
Embalo o pranto
Em tua rima
E se choro
- Não te assusta -
A alegria não faz doer
De ouvir coisa alguma.

Sou menina de fé
Posso descrer se quiser
Há vezes moro na lua.
Não por sua imensidão
Taciturna
Mas por poder decrescer
E assim te esconder
Em rima de rua.

Eu sei
Eu te porto sem parecer
Flor de lótus
Ou adorno de chuva
Pois o que molha
Só irá respingar
Quando a lira
Por bem me deixar
Para enfim, ser tua.

DO PRINCÍPIO DE TODAS AS SOMBRAS

Amo a extrema fosforescência
 - Fosca ao amar-te -

Amo esbanjar-te tolo
Enquanto enfeitas aquela outra
Com torpor de colheita
E nenhuma face.

E bem sei, te são tantas...
Uma para cada teu
Obra para todo quase!

Ainda que não eu
Escolho-me íntima
Para abandonar-te ao teu descaso
Somos ouro de tolo
Farinha do mesmo saco
Assalto teus prósperos verbos
E me encontro quando me roubas
De tua própria fé
Ao fingir que não sabes.

São os médios e graves
Que dão os tons do teu ego
Mas se te começo
Te acabo
O amor não foge a um cego
Só protege-se na arte.

DISTINTA

A tinta caprichosa
Do meu desaparecimento
Te assinala vasto
E a mim, omissa.

Vivo em cada nota lágrima
Que entre lencóis
A sós em teus braços
Se presentifica.

DA GÊNESE E DO ESTRANHAMENTO

Você
É meu bendito
Usufruto
              Unsual...


Você é meu empréstimo
Servo e tão astuto
Que sei
Jamais substituo
Ao final.

Você
É a razão
Demasiada
Plena
Meu equilíbrio
- Díspar -
Em quarentena
Meu santo graal.

Você
É minha hora
Salva
Subentendida
Você
É aquela mesma aurora
Ingrata e voluntariosa
Que digna e exata
Me permeia...

Você é meu verso
Meu enigma.

VIAS DE FATO

Pareço vagar entre meias-inspirações Delírios de sóbrio em pirotecnia Acima de meus braços Está o absoluto diagnóstico Faço votos mas te devoro Como,  - Bem - Eu já temia...
Tento ser menos "Poe" E dar mais espaço para o óbvio Tento encolher minhas expectativas Para estar ao menos prevista No meu próprio descaso Mas tu me reclamas o êxito Quase que no dia-a-dia de nossas lavouras Lavra a si dor Como à palavra rege a boca E me cala.
Fico eu subentendida Em relatos de inóspita sobrevivente A intercalar meus períodos de luto Com tuas doses prematuras e tão típicas Que às vezes Pareço ler tuas sombras mais escusas E iluminar teu próprio rastro.
Sei que no fundo não recusas Mas é arbóreo o terreno etéreo do teu pensamento Sei que de viver sinto o pleno A léguas de prever assento A poeira que levanto a cada ato É minha senha Entenda-me bem se assim puder.
Clara é a predominância do intacto Vinga a reserva fina do acaso Ao caso de ser perene Precipito o caos da gênese Ao que já me é um hábito.
Mas não habito o que …

PARTE DE MIM

Não te espero
Porque te carrego
Íntegro
- E circunspecto -
Em cada frágil repetida frase
Quando coragem te é um verbo.

Não te espero
Porque a distância é exata
Entre o corpo teu que reage à palavra
E o amor meu que te elege, ereto!

E é por sempre estares perto
Que aperto o punho
E te faço um verso
Ora mil, ora cem
- Ora sem ti -
Te sei,
- Só, rezo -
E se é hora de dormir
Embalo a alma que deixaste aqui
Entregue à calma que te sabe
                                             Eterno.

RESSONANTE - para Luiz Parreiras

Não
Que não seja
Dor
O que pulsa
                   Minha letra
Mas não é mortificante
Ou de comprometer
Minha liberdade
Ou a dádiva
De desprometer-me
                              Da caneta.

Só sei que calhei
De devolver ao papel
Os personagens expulsos
Do seu próprio enredo...
E não é mágoa
Ou pesar
O que dá esse tom
É o revirar
De um sóbrio
Medo.

Eu sei
Que dá de machucar
O que eu escrevo
Mas a ferida
Que exponho ao luar
Muito antes já se foi pra lá
- Não mais a tenho -

Poeta quando ousa reverberar
É que a dor que fisgava está,
No só,
           Do imenso.

OBVIAMENTE

Eu encontrei nos teus olhos
A mesma (e viva)
Latência
Quase presumida e não extensa
Aquela mesma
Que te rende e me principia
A poesia
           Das evidências.

ARTILHARIA

Há uma singela
E extra Curvatura No recôncavo-gênese - Na literatura -
Há um sentido sui generis  Que enfim, não cabe à letra - Nem perdura -
Pendura as chuteiras E calça teus tênis...
Poeta bom de pênalti Não merece  Perder a falta                      De ternura.

GERATRIZ

Eu mastigo
                Cada bendito fruto
Resumido.

Em meu útero
- Um parto abrupto -

O que não me sai à luz
                                   Re-significo.

SÓ_TÃO

Escarlate
Eu bebo
Eu vejo
- O vermelho -
Em teu sangue
                      Não há sorte...

Quisera poder reverter
Tal tua arte
Essa cisma
Contínua
De decrescer à catarse.

Bem que tento
Ser porquê
Quando o que me resta
É pedir mais uma dose
Em dócil esmero
Ou em frase...

Frágil é o recesso
Do meu eu
- Eterno -
Em diálise...
Dia-a-dia
A análise
Anáfora
Presumida
                Em overdose.

Não fossem os fósseis...
Admiro-me dos sósias
- Do espetáculo -
Espero em Espártaco
Que sem rever
Espantalhos
Minha horta norteia
Aos dons do semi-árido.

Deserto
A desertar Herodes
Heróis não sucumbem
Ao estupor dos que matam
Mas aos que em tanto
Disparam os seus cantos
Em in_pacto!

Te dou o meu sótão
Para que possas absorver
Isóbaros
Indignos de super exposição...
Te escondo, então
Se te acham
Não me roubam
- De ti -
Resta um simples
Auto-retrato
Não um léxico
Mas um leão
A devorar
               O meu porvir.

DO HIPOTÉTICO ÀS RETICÊNCIAS

Ele:
- Flamengo? Nossa... Essa sua paixão é recente...

Ela:
- Relativamente... Nada comparável àquela, sabe? Que é atemporal...

Ele:
- Paixão atemporal não é paixão....

Ela:
- Não mesmo... É aquela outra coisa, sabe? E nesse caso, onde há temporal, há chuva...

Ele:
- E quem sai na chuva...


Ele a olha nos olhos e fecham-se as cortinas.

Naquelas horas
- Adiante -
Só relâmpagos.

TEOREMA DO ABSTRATO

Te sujeito ao oculto
Mas o que cultuo no mundo
É o teu nome.

Toda e qualquer nova via
Será acesso
Aos teus mesmos caminhos
- Nossos cenários -

Odes inteiras, sonatas
- Meu presságio insone -
Não haverá nunca
Dose qualquer mais lúcida
Do que a convicta louca
A merecer, escrita
A tua música...

Por isso, te peço:
Vê se pulsa o objeto direto
Que embala minha rima
- Faz mais de um século -
E me escuta:

Acaso me escreva
Um jazz ou blues
Não me negue às notas
- Ainda que em sua forma bruta -

Não me negue a volta,
Seja qual for o teu tom de azul.

INSUPERÁVIT

Tudo o que fala
Guardo
Gravo cada pedaço
Recortado
Em nossos nós
De aço.

Sábio
Bem sabes de nós
Mas eu só,
- não sei -
O que faço
Com cada frase
Ali no "timing"
Do teu super ágil
Verbo
Que me invade no cego

E me sabe.

EFÊMEROS ROTEIROS

Já te vesti em tantos personagens reunidos
Tantos efêmeros roteiros
E empréstimos prévios
De amor
De_méritos
E detritos...

Já te substituí meu íntimo
Meu inteiro bem de moer meios
Já te arrendei um livro inteiro
Te descrevi em dedos
- Medos -
E nunca te fostes
- Bem -
Só quando ainda
Tu eras cedo.

Mas agora eu vejo
Esse meu extremo corpo coeso
Extratificado em verso
Imerso em seu próprio som
Imenso-mar, profano amor
Bem de consumo.

Pra bem falar
- O primeiro -
Em cor, eu assumo
- O único -
A estréia quase secreta
A embalar sempre às vésperas
Cada poema futuro.

E ainda há hoje
Em nosso ontem,
- Encontro em vulto -
Não me esqueças
Ainda que não me aches
No tanto em que te procuro.

ATEMPORAL - A Luis Kiari

Sei que o dia nosso
É nosso quase todo dia
(e noite),
E escrever sobre o outro
- ou para o outro -
É reverberar ninguém
- E todos -
No puro ofício,
até os ossos
A fé recria.

Pode ser ócio,
Credo revirado no próprio ateu
Que vê no ilógico,
O relógio
- ponta de lança -
A cronometrar o caos
De ainda verter
Esperança

... Ainda assim,
Salve poeta dada a inutilidade da data,
Pois o teu dom não cabe na fresta
De porta qualquer que se abra.

ANTES TARDE

A poesia, meu caro
Não é um dado exato
Tão pouco um espelho bem virado para os teus olhos.

Se te digo que são teus
- Os poemas -
E neles não te vês
Penso que talvez
Falte mesurar-me
- Para além do traço teu em minha carne -
Ainda que me temas
- Como tua -
A cada vez.

Meu tema
Tu e teus olhos a esverdear fonemas
Tuas crises
Teus acessos de sinceras e abruptas barreiras
Teu ser de lua sensível em fuga
Mas tão elouqüente
Quanto o ciúme que te brota premente
- Em rara coragem -
A vagar doses súbitas.

Subo ao palco
E escancaro teus traços
Na minha escrita
Me atiça e me corre
Mas não me foge
Na cama
É beira
É briga
À beira de um ataque
- Desejo -
Eu te provoco
Eu te rogo
Mas não te beijo
Acaso sou eu de dividir o imenso?

Não te esqueço...
Mas se não és meu
Finjo que o és
                      E te cedo.

DE-EXISTO

Meus poemas
Fogem
E pedem resgate

Me juram a liberdade
De nada esperar
E cronometram no tempo
O seu ritmo.

Meus poemas
Só existem
                  Se desisto.

NOCAUTE

Hoje me recolhi
Do "luto".

Não quero mais parafrasear o mudo
Para sinalizar o medo.

Hoje eu cansei do tempo
E submeti-o ao final
Afinal
O que jaz
- No fundo -
Não é fé
Mas convicção
                       do efêmero.

SEGURO DE DÚVIDA

Eu quero ir
Pra onde
Não existe lugar
Nem nome.

Eu quero partir
- Sem chegar -
Já basta
            Do que some.

Mas se vens me buscar
Eu fico...

Longe.

INTÉRPRETE

Corro como um "até então"
- A passos lentos -
Disparo paixões recolhidas
Na pulsão de seu subentendimento.

Quem me crê
Não me vê
Coreografar
                   O silêncio.

DESFRAGMENTADA

Que sou eu?
O mesmo amontoado
Anestesiado
A prenunciar desejos?

Um ser
          A menos
Em detrimento
A tantos outros que abandonei
Mas debandaram-se
Pra dentro?

Que sou
Ao ser
Inteiro?

POLAR

A bateria
Tá me deixando
Sobre
         Carregada
Tomada pelo acesso
Dos teus braços...

E é tanto fio
- Da meada -
Que de vida útil
Só resta mesmo este poema.

RÉPLICA

Não me fale de ausências
As tive todas
Tolas e completas.

Não me fale do compromisso
De meus direitos adquiridos nos teus
- Lascivos -

Não me fale dos sorrisos
De quem te espera
Do trem, da terra
Incalculada nesse meu ventre de distância.

Não me fale das reentrâncias
Da superfície parodiada do teu medo
Não me exponha ao veneno
- Fascínio -
Se não pretendes me expurgar tal teu antídoto.

Não me fale dos riscos
Se ao te escrever já te vivo
Há meses, em pré-âmbulo.

Não me fale de teus motivos
Se não puder ouvir o ridículo...

Eu nem ao menos sei
Porque
Ou se
           Te amo...


É possível?

REMIX

Tá tudo remexido
Remixado
Na batida
E no sem freio
No bem a salvo
                         do silêncio

E o meu peito
É só um simples seresteiro
A cancionar o teu estrago.

LEGÍTIMA

Fui musa
Intrusa
Volume adulterado
A corroborar vocações.

E eis que entregue a ti
Me fiz parte
Dissonante regra
A arder o impasse
Que pasmém, tu celebras

Em interface...

OSÍRIS

Guarda-me
- Palavra -
                 Da chuva
- Gota d'água -
Enquanto
              For sedenta
Essa ilha
             Inspiração.

PRESENÇA

De_lírio...

Flores
Fenecem
No campo
                 Exato
- Magnético -
                           Do parecer
Em terra...

São espíritos.

TEU LIDO

Afago
Há fogo
A troco
De quê?

Acender um sem sono
Se ao ver faíscar
Faz-se da isca, um tolo
                                   A tolher?

VARSÓVIA*

Eu procuro
Mas temo o medo

7 vidas
Só tem a gata.

Eu tenho gueto.



*A palavra veneziana 'ghetto' era o nome de uma ilha onde existia uma fundição que fabricava peças para a artilharia da cidade. Mais tarde, quando os judeus de Veneza foram obrigados a viver nesta ilha, fugindo de perseguições, o local passou a designar uma zona isolada onde vivia um povo confinado. O Gueto de Varsóvia foi o maior gueto judaico estabelecido pela Alemanha Nazista na Polônia durante o Holocausto, ao tempo da Segunda Guerra Mundial.

MINUETO

Fico achando
Poemas perdidos
Por entre absolutas
Certezas
Resguardadas
De dúvida.

Resgato-as
Se é por entre meias- palavras
Que te salta
A minha óbvia
Garantia inesperada...

É terna
E deveras simples

A sonata.

PÔR-DO-SÓ

Quando o sono
Me abriga Na libertária Sensação de finalmente                                    Ter anoitecido Me adianto E deponho contra o sol Meramente um astro-rei 
Remissivo.
Raios ultra Violenta é a cor  do pacífico.

TECELÃ

O que sinto
É assim tão imenso
Mesmo AMORtecido
- Em meu hábil silêncio -
Eu te escrevo
Agora
Por hora
Ora compulsivamente
E cada verso
- Tão só -
É o mesmo

Eu, te amar
Pra te escrever?
É só um pré-texto.

ACIDENTE DE PRÉ-CURSO

Disparo

Contida

Pelo impacto

E te encontro

No vai e vem

Dos carros

- Agora em meu quarto –

Estou a salvo

E minhas paredes distraídas.



O ir e vir não é um pacto

E neste caso

Bem mais do que uma ironia imprevista.



Atravesso

Teu trajeto

E te injeto

Adrenalina

Da pura

Na veia.



Não me venha

Com saldos

- Inexatos –

De tuas análises

Científicas

E nem alheias.



Sei bem

Que estive em cena

Em plena teia

- Não que creia –

Em jogos de parafrasear pecados.



Sei bem do gosto

Do gesto

E do gasto tolo

De teus verbos todos

A fim de explicar

O inexplicável.



Não te assusta

Se sou de escrever

Teus dados

Quase a roubá-los

Ainda que no vir-a-ser

Excedidos.



Não te apavora

Com a loucura de minhas notas

De minhas histórias

Do que sequer

Possa vir a ser

Ou tenha sido.



Eu sou

Essa excêntrica

E tão óbvia

Garantia de sinistro.



Eu sou um acidentável

Comumente reprimido

Eu sou um resgate

A encurtar a dura-máter

Do teu olho castanho.



Eu sou um seguro

Resguardado

Automático

A reavê-lo apenas no fantástico de teu sonho.



VINTAGE

Imaginei-te magenta Uma lúdica interface de cometa Acometida de labor em osso novo A oscilar em céus o contraste do meteoro.
Rota de colisão - É Córdova -  Acorda e drena essa costa! Que de pena não nasce a cobra Nem de bote se resgata Lorca.
Há uma só arca E Noé mora é na cidade maravilhosa.

CONVERSÃO

Afasta a dor com cautela
Posso não suportar o atrito
Da flor com a leva
Leva-me quase ininhada
Se já fui tua
Não sou ninguém
- Em um nada -
De detritos.

Afasta desta minha costela o grito
O ardor que ainda a conserva intacta
Afasta a dor
- Caso ainda me queira -
Afasta essa dor alheia
E seja lá como for
- Não creia -
Em santos ungidos na água benta
Que tanto receias em beber...

Beba desta lauda em veia
É sangue, não fogo de palha
- Mas lenha -
E se queima
Acesa, sou freira
Mas atéia
Até me provar
Que já posso crer.

MAJESTADE

Eu me afoguei no teu olho
Liberta da sequela do ir além
Era tanto, que tonto
Tu cuspias o rosto
Ora suposto em gesto de bem...

Meu bem querer é um outro
Contanto há o mouro:
 - Rei morto, rei posto
Não resto, porém.

À PRIMAZIA DA OPRESSÃO

Vívida
Levito
A carta de alforria
E me comprometo.

Meu verso é um pleito
Dissociado da paixão
- Pérfida rima -
Dela só me acometo
Pra libertar o que no peito
O poema não confina.

Minha liberdade é existir no enjeito
Não no engenho
De matéria qualquer que me oprima.

DISPARATE

Eu estive ali
Para além do quanto
Me coubesse o teu porvir.

Por falar em ausências
Calhei de dormir
Sob vaga premissa
A disparar em meu peito
Aquela mesma batida

Difícil...
Então resisti
Mais intensa
É a cor de partir.

SIMULTÂNEO

Nunca
Escrevi
Tanto
Em tão pouco
Espaço
De tempo.

Sempre
Ouvi
Teu pranto
Em tantos outros
Amontoados
De silêncio.

Mas agora
Eu te escuto
- Não te estanco -
Não tenha medo
O absoluto
É um lapso
Quântico.

QUERÊNCIA

Confesso!
Eu não queria...
Mas querer
Nada tem a ver
- Com você -
Ou com poesia.

Aqui tudo posso
Versos são apenas ossos
Do ofício.

Papel A4
Não cabe
Em minhas impressões.

À primeira vista
Secundária é a vestimenta
Do desejo
Mas o que impera é a intempérie
Do próprio tempo.

GRADUAL

Não quero
Abrir
Mão
Olhos
Dar-me conta do óbvio
Não quero
Querer
Os teus lábios
Meu presságio eterno
Do que nos pertence...

É um princípio
Não um pra sempre.

A_TEU AFETO

Tu tão vivo
Tu tão vidro
Transparente
E altamente quebrável
Frágil
Franco...

Esse meu altar movediço
É teu, por enquanto
Mas só enquanto a minha oração
Mover o teu coração
Não só o teu Santo.

LE RETOUR DE LA ROUGE

Estou de volta:
E mais!
Voltei de cósmica abdução re-inventiva
Estou de volta à aldeia instantânea da minha vida
Um tanto mais bucólica
Não mais carbônea
E em tinta de insônia
Adormeço o vasto
- Que resume em falso -
O teor da minha lida!

Eu lido é com a vívida expressa
Na cor que vibra a promessa
De não mais arrefecer diante à dúvida.
Entre odes e certezas que tenho
Há apenas o pacto tão sigiloso em denúncia:

Estou de volta
E agora
Já posso ganhar o jogo...

"Não contavam com minha astúcia"!

(Paris - Outubro/10)

DEUS TEMIDO

Estranha essa posologia barata
Que careço de suspender dimensão.

Diminuem os sãos
E há sal nos grãos
Do descarrego.

Não há
- Lúcida -
Uma só razão
Que justifique o dom
De quem DOMina
O próprio medo.

TESTEMUNHO

Eis que a insone
Sucumbe ao sono
Embalada pela sonata
Do imprevisto.

O impacto que a desperta
Não a acorda do silêncio
Mas do precipício.

Luzes inexatas
Refletem novas órbitas
Aos seus olhos misturadas.

Eis que ressurge uma outra ótica
- Agora lógica -
E indefinidamente sensata.

A do princípio.

"DESISTERE"

Há uma palidez adjacente
Em tais adjetivos
E eu, mal consigo
Ocorrer em mal signo
Sem fáscinio pela súbita
Técnica do desastre.

É latim?
Eu declino.

Me desate...

Há destino.

HOMÔNIMA*

A vida é boa
A vida é dela
E revivida
É Cinderela.

Dom divino, dom na terra
Esta, que gira infinita
Tanto traz que quem nos leva
Em cada rima fica à vista
O que dizer se é eterna?

Ela, Natalia
Cor tão fluída, flor de Hera
Quis a vida
Sempre ávida
- Não escrita -
Quais guardá-la tão bendita
A nossa linda Cinderela.

Vida boa
Vida bela
Só sei que é bem de noite
Que ela, doce, se revela
A cada insone badalada
Das doze que encerra.

Noite-dia virá hoje
Nossa viva Cinderela
Faz encanto e nos espalha
O ser no tanto que nos separa
O dom de ser
Quem sempre és
O dom você,
Nossa Natalia.

* Poema escrito em memória de Natalia Soares de Melo.

RESGATE

Fitava a sobra de seu desaparecimento
Quase que em um frêmito de claustro e amargura.

Eram lustres e obras despencando em torno de seu leito
Hora vozes de um suspeito a detê-la em cárcere sem uso de força bruta.

- O ódio não impera aos distintos - repetia em mantra, sua voz aguda -
- O labirinto máximo de quem tanto perde
É a curva breve
De quem se encontra.

EVOCAÇÃO

Há um quadrante de luz
Quando ascendo o quarto
Assim quase exato
A mergulhar estrelas.

É um egresso de medos
- De mesmas tristezas -
É pressa desnuda
É no vão, um raio.

É um vago vassalo
Em superfície litúrgica
A prospectar-me translúcida
- Esfinge de amparo-

É um hábil e tão breve
E disforme
Presságio
Que me transbordo em sangria
Discorrendo sob pele fria
Um estranhamento que me é exato.

A vida é turva
E a inspiração tão breve
E há essa bruma a exaurir-se em manhã
Amanhã, quiçá, não me espere
Oyá Eparrei, minha mãe Iansã!

INICIANTE

Acabo-me
Por reconhecer
Minha inquietude
Cega e irrefreável.

É a temática do absurdo
Consumindo-me aos poucos
É o gigante adormecido
Despertando de seu sono lúdico
Hora fosse um súbito
Em meu verso, inválido.

PREMISSA

Ser
O sentido
É quase como morrer
Antes mesmo
De ter nascido.

Sentir
Anula
O que tem sido
Ainda que venha a ser
Só se é o que te sou...

E eu,
Existo.

BEM MEU

Todo som
Te repercute
E eu
Tento em vão
Cegar meus ouvidos.

Quando me dou conta
Da natureza irretocável desse desejo
(Em desamparo)
Resolvo coexistir com o limiar de distância
Excedido por minha letra
Não sei se serão tuas
As liras ou as borboletas
Mas ainda assim te resgato
Pois é como se eu já te tivesse inventado
Desde o meu nascimento
Para só então encontrá-lo
Ainda que (in)digno de merecimento.

No entanto
Não hei de te guiar
Tão pouco ao teu voo
Sem acerto.

Há muito já sou tua mulher
Ainda que não saibas
Se é bem-me-quer
O que te provoco por dentro.

E é por não enxergar
Que te enfeito
Quase como se fosse reanimar
A veia-cava que vem desfibrilar
O efêmero.

E já te sou
Como havia de ser
- Um engenho -
Em seio alimento teu som tal silêncio
Quase como se houvesse de haver
Juramento.

E eu juro:
Jamais te darei
Meu tormento
Ainda que te torne a me perder
Eu apenas
Te pertenço.

DISTORÇÃO

"Tem uma parte de mim
Onde ninguém chegou ainda"
(Lucila Nogueira)

Fragmento
Flagro
Largo
O fomento

Te pressinto em verbo
Em signo
- Galeano -
Abarco tuas críticas
Como o resgate pronto
Em tantos outros mundos
Em oceano.

Eu te proclamo
Vida
Verve
Âmago
E em quase pacto
Eu te descarto
Porque sei que não te amo.

TODA PROSA

Preciso desapegar-me
Do automatismo da síntese...

Poiesis... Estou em crise.

Preciso não retomar
Mais movimentos refratários

Mas verter e verter
Pra depois
Me morrer

Ao contrário.

QUINTA

Terça
parte
Manhã.

Em chamas
Atravesso a ponte
- Azul híbrido do céu -
E tal te vejo
- Reverbero -
O meu norteio é um cego
Ao estupor do papel.

REATIVO

Eu me apaixonaria por você
Fácil
Fácil
Mas nada de facilitar a sua vida.

Se chegar um pouco mais perto
Talvez
Encontre uma rima atípica
Dessas de comprometer estímulos.

E assim te quebro
E assim me caibo
Em teu ritmo, elíptica...

Não é a cisma que te ressoa
- Batida -
Mas o óbvio de nossa química.