SOBRE VOO

Pode parecer estranho, mas me dá uma certa satisfação quando ouço o comandante avisar pelos alto-falantes que estamos prestes a entrar em uma área de turbulência. Não sei se é por ter plena convicção de que instabilidade eu tiro de letra, ou pela possibilidade de ser preparada e avisada de que ela se aproxima.


Pra começar, ter um "comandante" a frente das decisões, assegurando o meu bem-estar e de toda uma tripulação de desconhecidos, já é privilégio, uma novidade no mínimo: Cada pormenor de responsabilidade da minha vida, é de minha absoluta escolha, conta e risco, como tudo que se acopla aos meus hábitos e interações.


Por vezes, tenho a ilusória sensação de que sou só e me basto, de que multiplicar/dividir esse "número", causa "bugs" de convivência ao meu redor. Tenho dias de estar com o bloco na rua, vestida a caráter, irremediavelmente viva. Mas também, calho de anoitecer singela, me resgatando anônima até para meus próprios pensamentos.


Vez ou outra me canso de escrever e só me deito a coroar possibilidades, desenfrear novos planos tardios, vazios, ou nem tanto. Aliás, pouco antes de adormecer profundamente é que me pego em idéias das mais absurdas, todas súbitas e circunstancialmente absolutamente realizáveis. Isso até eu conseguir dormir.



No sono surgem as inseguranças, os medos do que parece ser divino, o apego à minha própria solidão. Eis que acordo (de novo!) um SER INDIVIDUAL, ainda que sempre falando ao telefone, contando mil histórias mágicas, ouvindo tantas outras e sempre carregando comigo uma porção dos que amo. E é dos que amo mesmo: Ainda que não me saibam, ainda que não me amem em alusão de reciprocidade.



Pra mim o amor é uma instância, de fato, solitária. Se ama na presença, de modo absolutamente diverso de como se ama na saudade, na impossibilidade dos corpos, ou do "alinhamento dos astros". O AMOR ACOMPANHADO é um delírio de dias contados.



Por isso vou contando cada dia e fazendo a minha história, cá no papel. Documentados no meu desejo, estão a luz e a angústia, o gosto e o sagrado, o bem-querer liberto da premissa do razoável - instância cognitiva da limitação do homem.



O que não posso, adormeço, quase recalco, mas não esqueço do que fala alto à minha pulsão.

Eu sempre temo, mas me preparo, o destino é um para-raios que corta os céus como este avião.



"Com sua atenção, senhores passageiros: estamos prestes a entrar em uma nova área de instabilidade. Mantenham seus cintos de segurança afivelados e fiquem atentos aos sinais luminosos..." .


Sinais luminosos... Em pensar que tudo começou com um aviso de turbulência.


(Voo Recife/Rio - 27/12/10)

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