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Mostrando postagens de Dezembro, 2010

BLACKJACK

Entra
A luz já tá acesa
E as cartas sobre a mesa.

E eu?
Me reservo em cada curva acentuada
E na difusa sombra larga
A arrematar tuas certezas.

A dúvida é uma nobreza
E se duvido, em sonho amparo
O desvelar de um passo em falso
É o que virá em fé imensa!

Devora-me em teu espaço
Com o sangue equivocado
De todas-outras velhas lembranças.

Sei que de dizer um dia calo
E o que ficar então no claro
É o que havia de haver nas mangas.

SOBRE VOO

Pode parecer estranho, mas me dá uma certa satisfação quando ouço o comandante avisar pelos alto-falantes que estamos prestes a entrar em uma área de turbulência. Não sei se é por ter plena convicção de que instabilidade eu tiro de letra, ou pela possibilidade de ser preparada e avisada de que ela se aproxima.

Pra começar, ter um "comandante" a frente das decisões, assegurando o meu bem-estar e de toda uma tripulação de desconhecidos, já é privilégio, uma novidade no mínimo: Cada pormenor de responsabilidade da minha vida, é de minha absoluta escolha, conta e risco, como tudo que se acopla aos meus hábitos e interações.

Por vezes, tenho a ilusória sensação de que sou só e me basto, de que multiplicar/dividir esse "número", causa "bugs" de convivência ao meu redor. Tenho dias de estar com o bloco na rua, vestida a caráter, irremediavelmente viva. Mas também, calho de anoitecer singela, me resgatando anônima até para meus próprios pensamentos.

Vez ou outra me …

GAME

Entrego agora
Minha máxima monogâmica
À elipse cardíaca
- Que me será crônica -
E não ditosa.

Que me venha o enredo
Que o pleito evoca
Em novas obras
Pois sobras
- Solilóquios de velhas cordas -
São para bem valer o ônus
Em mais cólera!

A glória vem depois
Que se desgraça
- Em suaves troças -
Os sonhos do mentor
De mentecapta
Mas tão vasta cátedra
Que em vão decora.

Em vidência duvidosa
Recebe esta máxima
Como a centelha divina de uma ópera
Não opero milagres
Não te rogo lugares
Só te livro, inteira
Dos díspares lunares
Em mais espuma e na beira.

Sou a entre-safra das faceiras
Alegre ao receber o célebre mais escuso
- E comportado -
Nos campos e macieiras.

Maçã. afã do pecado
O pedaço morde ao lado
Mas o gosto
É de uma letra.

EXTINTOR

Chegou o temido ponto do "sem palavras"
Do arrebatamento súbito pelo silêncio.

E eu, em respeito,
Me calo.

Meu poema é um breve braseiro
A incinerar em novos termos
O não-dizer do pleito a salvo.

INDICATIVO DO PRESENTE

Não há convicção mais duvidosa
Do que a do princípio.

Quando se pensa estar em ponto de partida
Astros realinham-se serenos
Deslocam o tempo
- A seu gosto e capricho -
E findam-se supostos
Quando não, clandestinos.

O destino é um cisco no olho
A lacrimejar
- então óbvios -
O em vão dos indícios.

MUDANÇA DE HÁBITO

De hoje em diante
Não mais vivo romances e seu tempo dilatado
Tão pouco escrevo poemas à distância curva de um sobressalto.

Mas sim - e tenho dito - farei ao contrário.

Aos poemas - instância divina - darei vida
Aos romances - só os simulacros macros da escrita.

Por hora
Só ensaio.

O hábito,
É uma rima.

ÁRDUO

A rima é o acaso do infinito
Não idealizo o estímulo
Apenas pulso o instinto
E tinjo as luas em meu varal de vinho tinto.

Secar ao sol é bem mais bonito.

A_GUARDADO

Eu posso disparar meus ossos
A favor de teus espaços
E me render aos teus olhos
Sem bem olhar em teu rosto,
- Há o meu rastro -.

Eu posso me doer, então a salvo
E se bem me tens
- Te dou -
Ao bem querer
E só ao bem
É que te guardo.

EcLIPSE

Essa tua vastidão tão súbita
É desejo
É desespero
Mas fé lúdica.

Quanto mais posso não crer
Mais me vens em busca
Eu te encontro ao perceber
Que só te tenho em luas curtas.

Mas se calha de amanhecer
- Como há de ser -
A lua é mútua.