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AUTO DE CONSUMAÇÃO

Há uma ardência de licor e de ossos comprimidos.
Quase consigo confundir as cortinas deste quarto, com aquelas outras, do improviso.
Em telas de projeção a face emoldura sequências ilógicas,
O cheiro de cada frame me veste da mesma hóstia e contorno a ti oferecidos.

A prévia é um retrato em cor de brinde e o que vem depois é sublime líquido,
É vidro, é champanhe a embriagar o lascivo do teu hálito em mais vício.

Ah! E o meu nada cível anseio em pele colorida, tuas rasuras de fome,
Minha ausência de sede a mastigar cada pálpebra presumida...

E mais sobressaltos, para além do bicho ávido, 
Para bem além de todas as expectativas!
Eu sobro é na sílaba que te provoco quase inaudível, 
Quando te peço em ouvido que me cegue,
Que me pegue pra ti.

Meu prazer é nosso e intratável segredo, se sibilo veneno me contorcendo ao pleno,
É só pra te ouvir, é só pra arrepiar em garras a minha nuca,
Pra me arremeter na volúpia em que te serves de mim.

Ergo as pernas, empino-me serva,
E fundo dou-me ao quadrante do indivisível onde teu tempo em mim vigora...
E me vem (sempre) em boa hora...
Me lambe em órbitas, 
Alivia meu engenho de explosão pretérita e reincide em frestas das mais diversas
E nada óbvias...

Reinvoca meus santos todos, meus tantos pontos de arrefecer estrelas,
Quase como se ao ter a mim, ao fim, as pudesse tê-las...
E me arde é no lácteo nunca antes consumido, pra ti mera quebra de sigilo,
Simetria cega na semiótica do inversável e reinciso.

Inversamente proporcional é o meu hábil recesso quando te interrompo em ritmo,
Para depois desvanecer-me em tal gozo e fazer-te meu homem e em teu nome, há um grito...

Em mim chove.

E te olho no alto, impávido me some...
Sentidos de ver em vão preconizam inexatos,
O meu ontem.


Nota de roda-pé (essa por ter tirado meus pés do chão): Ainda guardo uma peça, como elixir de promessa devassada. Guardo-me com ela e em cada reserva me dou controversa a aludir tal pecado.

Comentários

  1. Os olhos atentos da facefriend, arregalou-se diante da amiga poeta de uma verve inigualável ...Parabéns querida...Bjs

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  2. Olhos Atentos, de Sandra , sempre te admirando cada dia mais. Lindo, Lindo. Bjs.

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PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

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E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
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Ouses dizer do que falo
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Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
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Claro
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Para subverter a beleza que não se vê
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De um cego
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Viesse sempre a costurar-me a boca
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E se minhas bênçãos debochassem
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Sem que te sentisses um otário?