quinta-feira, 16 de setembro de 2010

AFRESCO

Escorri de garra a parede
Teu nome santo
Escolhi um ápice a te abster
- Ou nem tanto -
Enquanto chegaste para revirar
Os meus poros
- Puro hálito -
- Puro âmago -
Pasmem te sou mais um outro qualquer
A revelar mais nomes que não chamo.

Chamar-te seria a mais um ano
A revirar arquivos
A revigorar finitos
Os traumas sem amianto.

Amei - diz o tanto -
Que te posso eleger em pouco
Sadio é meu pranto
Se choro é porque perto do rio
Há um oceano.

Sede é o ramo
Parafraseado na metáfora ridícula
Do triângulo.

Tira os olhos de mim,
Ó sereno!
Me rendo ao prognóstico e te sustento...

A boca lambia
Um ou dois estragos
Que o tempo
- Liturgia do belo -
Oprimia
Eu não nego.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

AUTO DE CONSUMAÇÃO

Há uma ardência de licor e de ossos comprimidos.
Quase consigo confundir as cortinas deste quarto, com aquelas outras, do improviso.
Em telas de projeção a face emoldura sequências ilógicas,
O cheiro de cada frame me veste da mesma hóstia e contorno a ti oferecidos.

A prévia é um retrato em cor de brinde e o que vem depois é sublime líquido,
É vidro, é champanhe a embriagar o lascivo do teu hálito em mais vício.

Ah! E o meu nada cível anseio em pele colorida, tuas rasuras de fome,
Minha ausência de sede a mastigar cada pálpebra presumida...

E mais sobressaltos, para além do bicho ávido, 
Para bem além de todas as expectativas!
Eu sobro é na sílaba que te provoco quase inaudível, 
Quando te peço em ouvido que me cegue,
Que me pegue pra ti.

Meu prazer é nosso e intratável segredo, se sibilo veneno me contorcendo ao pleno,
É só pra te ouvir, é só pra arrepiar em garras a minha nuca,
Pra me arremeter na volúpia em que te serves de mim.

Ergo as pernas, empino-me serva,
E fundo dou-me ao quadrante do indivisível onde teu tempo em mim vigora...
E me vem (sempre) em boa hora...
Me lambe em órbitas, 
Alivia meu engenho de explosão pretérita e reincide em frestas das mais diversas
E nada óbvias...

Reinvoca meus santos todos, meus tantos pontos de arrefecer estrelas,
Quase como se ao ter a mim, ao fim, as pudesse tê-las...
E me arde é no lácteo nunca antes consumido, pra ti mera quebra de sigilo,
Simetria cega na semiótica do inversável e reinciso.

Inversamente proporcional é o meu hábil recesso quando te interrompo em ritmo,
Para depois desvanecer-me em tal gozo e fazer-te meu homem e em teu nome, há um grito...

Em mim chove.

E te olho no alto, impávido me some...
Sentidos de ver em vão preconizam inexatos,
O meu ontem.


Nota de roda-pé (essa por ter tirado meus pés do chão): Ainda guardo uma peça, como elixir de promessa devassada. Guardo-me com ela e em cada reserva me dou controversa a aludir tal pecado.

sábado, 11 de setembro de 2010

EIS PERTO

Espera
Só mais um pouco
Não vem agora
Me participar
Da vida

Espera
Eu volto já
A noite é dúbia
E amanhecer de sol sempre me dá
Uma baita angústia...

Espera, mas volta já
E em boa hora
Me vem em busca.

SOLILÓQUIO DE UM INCONFORMADO

Por enquanto
Prefiro não quantizar estrelas
Quantificar e entretê-las
É um mero hábito
De amanhecer minhas tristezas.

PRIMO QUANTUM

Extrema sina torpe é essa destreza
Quase que uma maldita praga de lavoura
Tão arcaica
Quanto a lepra em dom me discrimina
Que cega e pérfida mestra é essa
A usura dessa rima
Que mal me quer e bem me toma
Uma longa e vasta forma tísica
Mais que uma doença
Um lapso tântrico de quaresma
A devorar mais matilhas que aves indigestas
Em breves voos de rapina?

Extrema sina torpe é essa reza
Que hora vem em terço, texto e leva
Em som o dom das eras primas!

domingo, 5 de setembro de 2010

DILÚVIO UNIVERSAL

Hoje sonhei com a tua vinda
Teu olho metrificado na minha ilusão
E eu, era apenas uma terna e tão íntima
Intrusa em limiar de atração.

Te visitei quase rítmica
Mecânica quântica delira
Me livra dessa tímida saudade contorcida
Me liberta da secreta e tão cívica
Premissa de amizade pré-concebida.

Hoje senti tua língua
Tua pele recortada de estigma
Hoje te acordei mal dormida
E o que posso antever não anima
Não assina
A carta que logra a rima
Sistina
Capela infinita
Do meu pré-moldar de um altar
Renascentista.

MUTE

Será o tecido
Um permear dos escassos
Para além do que tem sido
Há o que leio e não lido
-O que sucumbe aos meus braços -
Abarco tuas mentiras
Quase como se duvidasse
De minhas próprias tão íntimas
E se me flechas à ira
Te miro, perplexa
A desencorajar novas idas.

Se te vai,
Não há dúvida
E o que fica é essa música
E em teus ouvidos minhas sílabas.

sábado, 4 de setembro de 2010

SOMBREADO

Acordei com olhos de sombra
E as olheiras bendiziam a minha próxima volúpia
Baguncei o termo à procura de um bom gole de night shot
Só que o golpe certeiro
Veio de baixo
Logo acima do meriadiano de greenwich...
Which one?

Meio-termo não me soa um bom boêmio
Mas não o quero pra uma rima firme
Ou casa de quatro quartos
Um para cada parto
De todas minhas filhas aborígenes.

Não te quero tão pouco sabido
No puro pouco perigo da minha exaustão.

Não me canso de pouco
Pouco me importa os teus tantos outros gostos de inanição...

O que eu sei é do teu não-gosto
Sei quando revives o inferno
Em busca de novas fissuras
Quando tua crua e tão lúdica clausura
Dá espaço ao tórrido tormento que te envenena.

Veneno... Te escorro solto
E é tua não-presença que me surpreende em torrente imensa.
Mesurar a decência dá trabalho à docência!
Ativo meu diploma de modo a não descer palavreado pelo ralo...
E te disparo
Indizível
Indiferente é um raro incrível
A antever o desamparo.