quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

BLACKJACK

Entra
A luz já tá acesa
E as cartas sobre a mesa.

E eu?
Me reservo em cada curva acentuada
E na difusa sombra larga
A arrematar tuas certezas.

A dúvida é uma nobreza
E se duvido, em sonho amparo
O desvelar de um passo em falso
É o que virá em fé imensa!

Devora-me em teu espaço
Com o sangue equivocado
De todas-outras velhas lembranças.

Sei que de dizer um dia calo
E o que ficar então no claro
É o que havia de haver nas mangas.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SOBRE VOO

Pode parecer estranho, mas me dá uma certa satisfação quando ouço o comandante avisar pelos alto-falantes que estamos prestes a entrar em uma área de turbulência. Não sei se é por ter plena convicção de que instabilidade eu tiro de letra, ou pela possibilidade de ser preparada e avisada de que ela se aproxima.


Pra começar, ter um "comandante" a frente das decisões, assegurando o meu bem-estar e de toda uma tripulação de desconhecidos, já é privilégio, uma novidade no mínimo: Cada pormenor de responsabilidade da minha vida, é de minha absoluta escolha, conta e risco, como tudo que se acopla aos meus hábitos e interações.


Por vezes, tenho a ilusória sensação de que sou só e me basto, de que multiplicar/dividir esse "número", causa "bugs" de convivência ao meu redor. Tenho dias de estar com o bloco na rua, vestida a caráter, irremediavelmente viva. Mas também, calho de anoitecer singela, me resgatando anônima até para meus próprios pensamentos.


Vez ou outra me canso de escrever e só me deito a coroar possibilidades, desenfrear novos planos tardios, vazios, ou nem tanto. Aliás, pouco antes de adormecer profundamente é que me pego em idéias das mais absurdas, todas súbitas e circunstancialmente absolutamente realizáveis. Isso até eu conseguir dormir.



No sono surgem as inseguranças, os medos do que parece ser divino, o apego à minha própria solidão. Eis que acordo (de novo!) um SER INDIVIDUAL, ainda que sempre falando ao telefone, contando mil histórias mágicas, ouvindo tantas outras e sempre carregando comigo uma porção dos que amo. E é dos que amo mesmo: Ainda que não me saibam, ainda que não me amem em alusão de reciprocidade.



Pra mim o amor é uma instância, de fato, solitária. Se ama na presença, de modo absolutamente diverso de como se ama na saudade, na impossibilidade dos corpos, ou do "alinhamento dos astros". O AMOR ACOMPANHADO é um delírio de dias contados.



Por isso vou contando cada dia e fazendo a minha história, cá no papel. Documentados no meu desejo, estão a luz e a angústia, o gosto e o sagrado, o bem-querer liberto da premissa do razoável - instância cognitiva da limitação do homem.



O que não posso, adormeço, quase recalco, mas não esqueço do que fala alto à minha pulsão.

Eu sempre temo, mas me preparo, o destino é um para-raios que corta os céus como este avião.



"Com sua atenção, senhores passageiros: estamos prestes a entrar em uma nova área de instabilidade. Mantenham seus cintos de segurança afivelados e fiquem atentos aos sinais luminosos..." .


Sinais luminosos... Em pensar que tudo começou com um aviso de turbulência.


(Voo Recife/Rio - 27/12/10)

domingo, 19 de dezembro de 2010

GAME

Entrego agora
Minha máxima monogâmica
À elipse cardíaca
- Que me será crônica -
E não ditosa.

Que me venha o enredo
Que o pleito evoca
Em novas obras
Pois sobras
- Solilóquios de velhas cordas -
São para bem valer o ônus
Em mais cólera!

A glória vem depois
Que se desgraça
- Em suaves troças -
Os sonhos do mentor
De mentecapta
Mas tão vasta cátedra
Que em vão decora.

Em vidência duvidosa
Recebe esta máxima
Como a centelha divina de uma ópera
Não opero milagres
Não te rogo lugares
Só te livro, inteira
Dos díspares lunares
Em mais espuma e na beira.

Sou a entre-safra das faceiras
Alegre ao receber o célebre mais escuso
- E comportado -
Nos campos e macieiras.

Maçã. afã do pecado
O pedaço morde ao lado
Mas o gosto
É de uma letra.

EXTINTOR

Chegou o temido ponto do "sem palavras"
Do arrebatamento súbito pelo silêncio.

E eu, em respeito,
Me calo.

Meu poema é um breve braseiro
A incinerar em novos termos
O não-dizer do pleito a salvo.

INDICATIVO DO PRESENTE

Não há convicção mais duvidosa
Do que a do princípio.

Quando se pensa estar em ponto de partida
Astros realinham-se serenos
Deslocam o tempo
- A seu gosto e capricho -
E findam-se supostos
Quando não, clandestinos.

O destino é um cisco no olho
A lacrimejar
- então óbvios -
O em vão dos indícios.

ADIVINHAÇÃO

Advir?
Advinha.
Advém do respaldo em que me agarro
O lapso mágico que eclode em linha.
E eu sei...
Tu já sabia.

MUDANÇA DE HÁBITO

De hoje em diante
Não mais vivo romances e seu tempo dilatado
Tão pouco escrevo poemas à distância curva de um sobressalto.

Mas sim - e tenho dito - farei ao contrário.

Aos poemas - instância divina - darei vida
Aos romances - só os simulacros macros da escrita.

Por hora
Só ensaio.

O hábito,
É uma rima.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

EXTENSÃO

Meu poema começa no erro.
Ruim que sou da ótica do acerto
Resta-me o ermo recurso
De escrevê-lo por extenso.

sábado, 11 de dezembro de 2010

TEATRO DO ABSURDO

... E Sartre trancafiou Jesus no quase.

ÁRDUO

A rima é o acaso do infinito
Não idealizo o estímulo
Apenas pulso o instinto
E tinjo as luas em meu varal de vinho tinto.

Secar ao sol é bem mais bonito.

MERAMENTE

Por terra
Cai a tênue clausura de ar
Que suprime o vento
A virar pó
De quimera.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

VERMELHO

Herodes era o Rei
– não o mote –
A decifrar a esfinge da morte
Amortizei
Em Marte.

Anote.

INÊS É MORTA

Eu li a luz disseminada no rastro
Mais profundo do escuro obtuso
A me clarear idéias em cores do raso.
Razoável é uma eco-ação
Inexorável.

VIAJO (VI ÁGIO)

Busca
Tua mala
Obtusa
E ofusca
A tua última
Usura
De culpa
Desculpa
Des_usa
Da fuga
E fica
Em outra cor de mar
Ou só
Em uma.

RE_VERBE

Insensatas sensações voláteis
Ao te soar frio.

A_TÍTULO

Ouvi luzes
Disparando paralelepípedos
O paralelo é pífio
Ao Sem-encontro
- Há o papo reto –
Mas escorre típico
- De ninguém -
É o título.

ESTIGMATISMO

A ótica
É óbvia

Confessa.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ESFINGE

E teu olho é o sarcófago
De minhas tantas mortes
Em teus braços.

A_GUARDADO

Eu posso disparar meus ossos
A favor de teus espaços
E me render aos teus olhos
Sem bem olhar em teu rosto,
- Há o meu rastro -.

Eu posso me doer, então a salvo
E se bem me tens
- Te dou -
Ao bem querer
E só ao bem
É que te guardo.

QUANDO

O tempo não é ontem
Tão pouco foi agora
Eu sempre te soube
Como bem sabes que te volto
- Me vou embora -.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

EcLIPSE

Essa tua vastidão tão súbita
É desejo
É desespero
Mas fé lúdica.

Quanto mais posso não crer
Mais me vens em busca
Eu te encontro ao perceber
Que só te tenho em luas curtas.

Mas se calha de amanhecer
- Como há de ser -
A lua é mútua.

sábado, 27 de novembro de 2010

POR HORA

Sinto uma falta localizada
Mas subversiva tamanha minha auto-desconfiança.

Não mais acredito em pulsares de amor súbito
Saudades em transgredida
Benesses lúdicas em alma enamorada
Mas na lei da vida.

Acredito mesmo é no intrínseco subentendido
Na concepção quase paranóica de comunicar-me por entre códigos
Por meios-olhos
Sem verbalizar noutros ouvidos.

Hoje permito-me jogral de naus e espíritos
Pego-me em canetas a rasurar rastros céticos
E só assim navego o impreciso.

Hoje eu só acredito no que trago espelhado no meu passado já re_lido.
Relíquia a antever novos fardos e a escrever outros livros.

Eu sei, eu documento o que eu vivo.
Talvez por saber que é no arder-doer que curo o aDeus de cada limbo.
Limpo minhas gavetas e reverbero uma dose de quimeras verde-musgo acinzentadas
Mas ainda assim, eu não existo
O que eu sinto é o nada.

PORÉM

Hoje aconteci princípio
E seria nova a era
Não fosse a saudade
- Esta fera -
A enjaular livre, o lírico.

A lira é um vínculo transgredido
Ao arrefecer em verso
O imerso no não-dito.

EQUÍVOCO

Enganam-se os que atribuem ao poeta a letra estreita.
É no largo do que agarro que liberto o que me deixa.

ANTI-CORPOS

Eis que escapa-te por entre as mãos
A mesma "rara" poção
A vaporizar mais amores líquidos.

EX-CASULO

À espreita
Preteri o silêncio
A gerir borboletas.

OMISSÃO - A MISSÃO DA FALA.

Minha poesia anda subentendida na rotina cíclica de minha omissão.
Quando explode-me em órbitas
- encolho-a -
Para estilhaçar categórica
- sem remendos -
A superficie curvilínea do meu desejo.

Minha poesia anda batendo o ponto
E cercando vagabundo em zona de conflito
Minha poesia anda poupando o desperdício cármico
No universal do envolvimento entre homem e mulher.

Minha poesia, por hora
É sangue e suor incontido
Mas assexuada na prerrogativa da satisfação efêmera.

Eu quero é doer de tanto que preciso de cada palavra solta e rarefeita
No inconsciente de quem sabe que me tem em cada verbo!

VERBALIZE.

domingo, 14 de novembro de 2010

DEPOIS DE ONTEM

Sabe, esqueci que te amo?
É... Por mero caso de desatenção...
Um bem súbito, entende?

Parece que de repente
A tua voz rouca e ordinária
(Não me entenda mal)
Passou despercebida pelo meu inconsciente
E escondeu-se retrátil nos poucos milímetros
Em que te resto nos meus poros.

Sei que essa coisa toda de te escrever
Depois de todos esses anos
Dá uma puta bandeira...
(Caberia até citar o Manuel:
"Eu faço versos/ Como quem morre")

Mas dentre todas as opções das mais esdrúxulas
Escolhi viver mais e além
- Não por todo sempre -
- Nunca eternizada na atemporalidade instantânea -
Mas em cada possibilidade pouca.

Escolha atípica para uma poeta - há de dizer
E confesso meu desaparelhamento masoquista
Ao não esperar pela atenuante sobra do depois.

Mas depois do verbo... É que eu te espero
Ainda que por enquanto

- Lembra? -

Eu finjo que esqueço.

AO AMAR MORTO

Hoje desapareci
E tão equivocado é o ausente
Há um rubor de terra e de braços contorcidos
Há um vazio vespertino
E minha cama, em esfera midiática
Descobre ilusões, me iludindo.

Cobertas, pra quê?
Se o frio me vai doer até os ossos do absurdo
Se o que vejo no futuro
É o súbito mal acostumado do que em vão tardia?

A morte é uma marolinha regressiva
Que enquanto alinha-se ao horizonte
Verticaliza-se nas águas frias da despedida.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

POEMA DE BERÇO

Aqui é o único lugar que me pertence

Aqui coexisto com o caos da dádiva

Da dúvida

E sobrevivo.




Aqui não renuncio à escolha

Moldo vocábulos ao sabor da pronúncia

E não dos ditos

Aqui a separação de corpos é simbiótica

E o simbólico é o que faz sentido

A mim enquanto garganta

A mim enquanto semântica subjugada a restos mortais.




A réstia é a massa quântica

E o logrado a linha pronta

Aqui o que me desponta

É o que jaz.




Aqui, um subúrbio decodificado em agentes da passiva

Aqui, um passional da imunoEficiência adquirida

Aqui, o murmúrio de clarividência

Veia-tríplice-traída

Aqui, a delícia estreita que habita

O ato ininterrupto da lira e do gozo

Aqui, o subúrbio intra-uterino

Que onde nasce, MORRO!

domingo, 10 de outubro de 2010

DO REVÉS E DA ESPERA

É dia, lógico.
Antes fosse noite
E a reedição um vasto
Digno do gótico.

Em gotas, te reservo sóbrio
Bem sabe, não sou dos óbvios
Behaviorista ao trágico
Te leio em meio ao lema
(e à lama)
Dos teus códigos.

"Please", tecle "enter"
E "Welcome" to às entraves
Entra de vez em quando
E quando tiver ao todo
"Take your time".

O meu vem do que passou sem alarde.
Tem dia bom,
Mas tem noite, meu bem,
Que é grave.

MAIS DO MENOS

Guardei na boca
A remissiva daquele nosso pecado
Não te beijei bem a salvo
Te dei corpo, gozo
Mas não minha lírica propensão ao frágil.

Guardei na boca
O elixir da súbita satisfação do divino
A redimensionar minha volúpia
A destemer nova súplica
Ao suplantar meus versos íntimos.

HASTA LA VISTA, BABE!

Arrefeceu minha avenida
A erosiva da tua contra-mão.

Contra fatos não há tormentos
Se argumento é por mau trato
- Não tratamento -
Nem mal querer à solidão.

Já basta.
A curva é o perigo que não veio
A adornar a propensão!

EXTRA_TÉGIA

A tua fome ainda enche a casa
É saciedade pura no meu quarto
Se bem me olho no espelho, te vejo
Em suave remissão do que veio
Em co-variante de impacto.

Veio e assim virá
Adiante
Como convergência
- Não custeio -
Com o beijo nada casto que o desejo
Suplantou meu osso-láscio.

Mas tua fome ainda bate à porta
Como suspeita filosófica do nefasto...
E a lógica de guerra
É efervescer na entrega
E condensar no silêncio,
O inevitável.

ANUNCIAÇÃO

Acerte
Assertivo
Há de ser elíptico
O "aceite"
E o deleite
Um indício não presumido...
 
- Eu duvido -
E tenho dito:
Não duvide!

AUTÓPSIA

Meu poema é um corpo
Acontecido na ausência
De inscrição cognitiva.

Meu corpo é uma sílaba
Irrequieta na ossatura líquida
Da medula, só o fóssil.

Meu corpo é uma vaga premissa
A ressoar em verso
O que pulsa, no óbito.

STEREO

Escrever é um esmero
Viver é um verbo
Que cansou da MONOgrafia.

DOS VÍCIOS E PROBABILIDADES

Tanto esqueci
Que ergui
Recorrências.

Tem nada não...
Nada como lembrar do pouso
Quando se voa em vidência.

DA VERBORRAGIA CALCULISTA

Há na alíquota de base
Uma desordem padrão
A ser presumida.

SUSTENTO

Só há sustenido
No silêncio.

ANTES SÓ

A solidão é a saudade acompanhada pelo desamparo.

MIM-GUANTE

Concebi no ato de dispersão
A clausura
Percebi na fissura
Uma fístula larga
A esquartejar tola, a lua.

DA DEGRADAÇÃO NATURAL DO AMOR

Não admito
Dar-te mais uma linha
Sequer de presságio
Distante, despersonifico teu grito
E me calo em teu fomento de plástico.

PROCLAMAÇÃO DA RÉ PÚBLICA

Te concedi na lápide
A inscrição mais distinta
Por sobre ela um único
(não singular)
Exemplar de lírio.

Uma sátira abrupta ao vívido
E uma taça de bom vinho
Para brindar ao novo, o homem
Que vindo, nunca veio
E se foi no que não some.

Por sobre o mármore
Inscrevi ali, junto ao teu nome
O memorial de meu desterro
Te vais com meu punhal em teu peito
Inimputável é o meu erro
Condenável é o meu ontem!

CRIA TUA

É infinita
A cética lauda nascida
Do imprevisto revisitado
Pelo tempo.

Atento para a mística
Pois a verdade anda atônita
E a fé voa lírica
No abismo que invento.

AVULSA

Li na tua palavra
A minha lida
E quão longínqua
É a sonoridade esquecida.

A lira
É ímpar.

E O VENTO LEVOU - poema sem medo de não soar original

Cigarro
Se agarro as cismas
Ricas em tocos de tabaco.

Se cismo,
Não falo
Mas fumo
- O abalo -
E renasço das cinzas
Que descarto.

DA LIMITAÇÃO AO ABRANGER OBVIEDADES

Quisera uma só língua
Ludibriar a pronúncia inculta
Do meu pouco vocabulário
Coronário.

Imenso
É um hábito.

RETALHOS

Eu nasci retalhada no verbo
Inverossímil é o medo
Um cego estrangeiro
A revirar meu sossego.

Eu renasci talhada no verbo

E não por menos
- Me nego -
A negociar meus extremos.

POEMA A VAPOR

O que me cansa em todo pós-poema
É a eterna sensação de nada consta.

DEZ EM UM

Lucra.
Olha bem:
São 10 tempos em um.
Vem comigo que te aconteço na própria sorte
- É um pacote -
"Proibido vender separadamente"
Até porque não é pra completar álbum de figurinhas
É pra figurar tão única
Quanto a mesura lúcida do que foge à rima.

...

Ruma logo
Porque Roma
Foi só a mínima.


Nota da autora: Recomenda-se a leitura posterior à presente postagem de :
http://ressacadoversoseguinte.blogspot.com/2010/09/go-to-rome.html

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

AFRESCO

Escorri de garra a parede
Teu nome santo
Escolhi um ápice a te abster
- Ou nem tanto -
Enquanto chegaste para revirar
Os meus poros
- Puro hálito -
- Puro âmago -
Pasmem te sou mais um outro qualquer
A revelar mais nomes que não chamo.

Chamar-te seria a mais um ano
A revirar arquivos
A revigorar finitos
Os traumas sem amianto.

Amei - diz o tanto -
Que te posso eleger em pouco
Sadio é meu pranto
Se choro é porque perto do rio
Há um oceano.

Sede é o ramo
Parafraseado na metáfora ridícula
Do triângulo.

Tira os olhos de mim,
Ó sereno!
Me rendo ao prognóstico e te sustento...

A boca lambia
Um ou dois estragos
Que o tempo
- Liturgia do belo -
Oprimia
Eu não nego.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

AUTO DE CONSUMAÇÃO

Há uma ardência de licor e de ossos comprimidos.
Quase consigo confundir as cortinas deste quarto, com aquelas outras, do improviso.
Em telas de projeção a face emoldura sequências ilógicas,
O cheiro de cada frame me veste da mesma hóstia e contorno a ti oferecidos.

A prévia é um retrato em cor de brinde e o que vem depois é sublime líquido,
É vidro, é champanhe a embriagar o lascivo do teu hálito em mais vício.

Ah! E o meu nada cível anseio em pele colorida, tuas rasuras de fome,
Minha ausência de sede a mastigar cada pálpebra presumida...

E mais sobressaltos, para além do bicho ávido, 
Para bem além de todas as expectativas!
Eu sobro é na sílaba que te provoco quase inaudível, 
Quando te peço em ouvido que me cegue,
Que me pegue pra ti.

Meu prazer é nosso e intratável segredo, se sibilo veneno me contorcendo ao pleno,
É só pra te ouvir, é só pra arrepiar em garras a minha nuca,
Pra me arremeter na volúpia em que te serves de mim.

Ergo as pernas, empino-me serva,
E fundo dou-me ao quadrante do indivisível onde teu tempo em mim vigora...
E me vem (sempre) em boa hora...
Me lambe em órbitas, 
Alivia meu engenho de explosão pretérita e reincide em frestas das mais diversas
E nada óbvias...

Reinvoca meus santos todos, meus tantos pontos de arrefecer estrelas,
Quase como se ao ter a mim, ao fim, as pudesse tê-las...
E me arde é no lácteo nunca antes consumido, pra ti mera quebra de sigilo,
Simetria cega na semiótica do inversável e reinciso.

Inversamente proporcional é o meu hábil recesso quando te interrompo em ritmo,
Para depois desvanecer-me em tal gozo e fazer-te meu homem e em teu nome, há um grito...

Em mim chove.

E te olho no alto, impávido me some...
Sentidos de ver em vão preconizam inexatos,
O meu ontem.


Nota de roda-pé (essa por ter tirado meus pés do chão): Ainda guardo uma peça, como elixir de promessa devassada. Guardo-me com ela e em cada reserva me dou controversa a aludir tal pecado.

sábado, 11 de setembro de 2010

EIS PERTO

Espera
Só mais um pouco
Não vem agora
Me participar
Da vida

Espera
Eu volto já
A noite é dúbia
E amanhecer de sol sempre me dá
Uma baita angústia...

Espera, mas volta já
E em boa hora
Me vem em busca.

SOLILÓQUIO DE UM INCONFORMADO

Por enquanto
Prefiro não quantizar estrelas
Quantificar e entretê-las
É um mero hábito
De amanhecer minhas tristezas.

PRIMO QUANTUM

Extrema sina torpe é essa destreza
Quase que uma maldita praga de lavoura
Tão arcaica
Quanto a lepra em dom me discrimina
Que cega e pérfida mestra é essa
A usura dessa rima
Que mal me quer e bem me toma
Uma longa e vasta forma tísica
Mais que uma doença
Um lapso tântrico de quaresma
A devorar mais matilhas que aves indigestas
Em breves voos de rapina?

Extrema sina torpe é essa reza
Que hora vem em terço, texto e leva
Em som o dom das eras primas!

domingo, 5 de setembro de 2010

DILÚVIO UNIVERSAL

Hoje sonhei com a tua vinda
Teu olho metrificado na minha ilusão
E eu, era apenas uma terna e tão íntima
Intrusa em limiar de atração.

Te visitei quase rítmica
Mecânica quântica delira
Me livra dessa tímida saudade contorcida
Me liberta da secreta e tão cívica
Premissa de amizade pré-concebida.

Hoje senti tua língua
Tua pele recortada de estigma
Hoje te acordei mal dormida
E o que posso antever não anima
Não assina
A carta que logra a rima
Sistina
Capela infinita
Do meu pré-moldar de um altar
Renascentista.

MUTE

Será o tecido
Um permear dos escassos
Para além do que tem sido
Há o que leio e não lido
-O que sucumbe aos meus braços -
Abarco tuas mentiras
Quase como se duvidasse
De minhas próprias tão íntimas
E se me flechas à ira
Te miro, perplexa
A desencorajar novas idas.

Se te vai,
Não há dúvida
E o que fica é essa música
E em teus ouvidos minhas sílabas.

sábado, 4 de setembro de 2010

SOMBREADO

Acordei com olhos de sombra
E as olheiras bendiziam a minha próxima volúpia
Baguncei o termo à procura de um bom gole de night shot
Só que o golpe certeiro
Veio de baixo
Logo acima do meriadiano de greenwich...
Which one?

Meio-termo não me soa um bom boêmio
Mas não o quero pra uma rima firme
Ou casa de quatro quartos
Um para cada parto
De todas minhas filhas aborígenes.

Não te quero tão pouco sabido
No puro pouco perigo da minha exaustão.

Não me canso de pouco
Pouco me importa os teus tantos outros gostos de inanição...

O que eu sei é do teu não-gosto
Sei quando revives o inferno
Em busca de novas fissuras
Quando tua crua e tão lúdica clausura
Dá espaço ao tórrido tormento que te envenena.

Veneno... Te escorro solto
E é tua não-presença que me surpreende em torrente imensa.
Mesurar a decência dá trabalho à docência!
Ativo meu diploma de modo a não descer palavreado pelo ralo...
E te disparo
Indizível
Indiferente é um raro incrível
A antever o desamparo.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

MARCHA FÚNEBRE

Vermelho era a cor do berço de Joana
E seus olhos estrelavam a luz digna das belas.
Vermelho era a cor do berço de Joana
Agora pálida, semi-deglutida pela terra.

Olhos guardados no canto longínquo do ontem
E ali para vê-la, ninguém... Notem!
Vermelho era a cor do berço de Joana
Agora amparada pela finitude de seu espaço.

Seu braço é dado para além de sua saga, sua gana
Pois onde dorme Joana
Ninguém mais a acorda
Ninguém mais a acompanha.

Vermelho era a cor do berço de Joana
E quando a luz de seus olhos se apaga
Uma outra luz se acende em Sagarana.

Vermelho...
Vermelho era a cor no espelho de Joana.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

XENOFONTE

 - Cama -
Reconhecer o trauma
- Coma -
No leito, dar-se conta
Do que quer viver...

E se morrer pudesse
Me ser algo mais
Que o covarde orgulho
De perecer
Mas dar voz ao ser
Que suplica
Pelo raro amparo...

Até onde sei
A vida é mais uma proposta inerte do infinito
Era céu nublado
Brumas de gente
A percorrer
Em vasto solo, o meu grito
O silêncio é um ciclo
Mero desfoque
Centrado
No que isola do dito
Cujo ditado
Está datado
De 400 a.C.

INDOLOR

A poética não mais me impõe felina
Já sibilo a rastejar a rima
E... BOTE.

Levo alguns dias para digerir a vítima
E desprendê-la do mote
Em morfina.

ARBITRÁRIO

Tua boca
Esse epicentro
De mesmos enganos

E eu te ouço é no ranço
No que resto e não canso

Teu medo é um leigo insano
A ladrar eleitos a esmo
E não reclames aos santos!

COM LICENÇA, POÉTICA

- Garoto -
Não é chocolate
- Ou BIS -
Não é curta-metragem
É média atriz
Não é mendigo às margens
É o que resta do triz

- Garoto -
Não peça passagem
Se vá e a deixe
- De vez -
Feliz!

SUBPARNASO - POEMA SÓ PARA RIMA DE IMPACTO

Você sumiu na esquina assim quase engolido pela mera obra do descaso.
Descaso!
Desquite!
Estamos quites!
E eu te ignoro mas não me calo
Quisera que o rastro sumisse
Junto ao mero tom de despreparo
Do teu despiste.

MAZELA

Vesti vertigem na voraz visão do vespeiro
Alérgica reação traz redemoinhos
Eu rodo
Rodopio
Mas meu giro é ínfimo
Não enfermo e defino:
Destino cínico é o traçado de um mendigo de trato fino.

DESLOCAMENTO

Persegui a lua encostada em meu caderno.
Era só uma pausa para iluminar meu rascunho
E fingir ad eternum.

PÓS-POSTA

Até onde sei
A vida é mais uma proposta inerte do infinito

IRREVERSÁVEL

Inefável
Fluí
Farta
E Inês é morta.
Fato, não faltaria.
Sou eu a extrapolar a cota
E a lógica, a pontaria...

POEMA DE GRIFE

ELE.
Apenas uma série inacabada de poemas
A coroar inconstâncias.
Cara.
Coroa.
Eis o Rei...
E a relevância?

DI_MENÇÃO

Transitório é o envólucro do tempo
- Realidade -
Transitar entre naves e discos voadores tem seu charme
Olho-me no espelho das paredes do teto
Flutuo na gravidade zero do nosso apego
E quem sabe...
Te encontro na confluência inexata de outros destinos
Tão íngremes e indistintos
Até que deliro teu ritmo
E me sou miragem.

MANIQUEÍSTA

Olho teu corpo
Cadenciado no peito
E te pulso
Ereto

Por entre os dedos
Te escorro
E quando o gosto é o que ouço
Me confesso.

SINUCA DE BICO

Abri mão do esperanto
Do esmero
E do santo
Cansei de rezar.

Quanto mais ora
Mais a hora fadiga
Mais a verve, bonita
Embebe e não há
Não há o que diga
Da estranha na escrita
Que teima em rima
O que quer terminar...

Há um rastro de fita
E a estrada bendita
É um parco bilhar.

IN_VERSÃO

Ajoelha
E se me der
Eu rezo.

PRÉ-MUNIÇÃO

Postura
Costura
Fratura
Costela
Gesso
Não gesticula.

Da próxima vez levanto voo com mais cuidado.



(Em 15/08/10)

DA FILOSOFIA DO EFÊMERO

Doce
Hoje
Deleite

Amanhã
Descartes.

PRÉVIA

O beijo é o pré-texto do leigo.
Por isso só leio o enredo
Quando me cabe a obra.

CORPO PRESENTE

Solidão
Só lidam com o vago
Os largos vassalos
Do cortejo fúnebre.

Enterrar defunto deprime.

Até que ele some.

domingo, 22 de agosto de 2010

DISPARE-O

Sonhei que adormeci
Na tarde
- Em ventania -
Quando desperta
Dei-me conta do cavalo
- À montaria -
Erguendo-me na força de suas pernas
Matando a sede de uma espera
Em boca, língua, saliva e crina.

Sonhei que era vento a conduzir o trote
E ele, a galope,
Segurava as rédeas
E eu, as rimas...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

NÃO-CONTO

Faz de conta que o silêncio é o eco
Redescoberto na voz afônica
E me ouve.

Houve mais uma estréia secreta
E foi hoje.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

REGRESSIVA

Saber repetir um "erro" é engarrafar aprendizado
Para estourar na hora da virada.

Um prazer que dura pouco
Mas que vale cada frasco-segundo.

tim-tim!

MATÉRIA ISOLADA

Tingi o tempo de fome e engoli algumas letras em negrito.
Sublinhar é sublinarmente inferior a sublimar
Sublime
Eu minto.

MOINHO

Virá água
Dessa insípida fonte
Que te cala?
Aponte
A travessia
Tem estrada
E percorrer
Desalinha o horizonte
Em escala.

VÓRTICE

Leitura
Lei não atura a dinâmica do desapego
Na soltura do leigo
Ré-leia no sebo
Amansebar é bom
Mas espiral é um erro.

ABDUÇÃO COGNITIVA

Ai, essas luzinhas tímidas de espaço-nave
Esse balanço típico de uma frase
Que se abre
E ergue as pernas da mesa
- Cabeça pra baixo -
A terra é o espelho do céu no imaginário.
A fé a rolar dados pra certezas.

Diz um sábio
Que há muito a minuta
Cansou de ser via láctea
Para ser mente e voz do que capta
A tristeza.

PÓS-POTÊNCIA

Metafisicamente falando
O poema não existe.
Está vivo à medida em que pulsa
A própria desproporção lógica
Que encontrará naqueles que o farão existir apenas consigo
O poema é um louco
Varrido do repertório sóbrio
E pelo delírio da razão perseguido.

LÍRICA À DERIVA

Percebo-me a reprimir-me apenas entre sobras.
Entre safras me espalho e sou toda vento
Sopro cerco
A dilatar monotonias entre as obras.

E é no intervalo deste descumprimento
Que violo a máxima absoluta do que me faz
Escrita.

Eu faço
Aconteço
E me esbaldo de vida.


Não há abismo entre o que viva, eu amorteço na rima.
A diferença é apenas o começo.
Eu me acabo é na lira!

PARA QUEDAS

Poltrona de avião é meu divã exógeno e propício a qualquer ato de confissão.
Sorte minha preferir a retina no papel em pleno voo...
Vai que olho lá do AUTO
E me atino
(atiro)
E não morro?

INDIZÍVEL DIVISÍVEL

Paixão de poeta é sempre de gosto duvidável
O sabor vai se ocupando da língua
Como o papel emerge livro
Paixão de poeta é sede de mesmo seio
A gotejar no próprio umbigo
Paixão de poeta é recesso inventivo
É um corte raso que verte sangue
- vidrado –
Vitrificado na vitrine do próprio desejo
Paixão de poeta é volume de beijo
Uns tantos decibéis a mais de serotonina
Paixão de poeta é mania
É alforria dúbia
Polissemia crua
É fé logarítimica
Paixão de poeta é vista por São Tomé
Como Oasis no Egito
Paixão de poeta é cine paradiso
Roteiro circunspecto no hábil do sujeito
Paixão de poeta é prévia apocalíptica
Se triangula piora
E o ganho é da pílula
Paixão de poeta acredita
Que há de ser amor
O verso trôpego que encontra na esquina
Paixão de poeta é sina secreta
Do que a síntese da espera
Só encontra na rima.

Paixão de poeta é nota máxima
Escrita na mesma resma de uma dízima.

INCITAÇÃO À REPETIÇÃO

Vem...
Me vê
Não há não certo
Nem preciso...
Vem embebido
No gole e no gosto do suspiro
Suspeito
Que teu corpo
Há de conter bem mais sentidos
Que o bom apelo me possa prever
E insisto...
Vem...
Me vê...
Eu só vidro.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

META-MORFOSE

Se eu te amo?
Amo. E te mereço.
Teu preço é a liberdade de olhar ao desamparo
Mas eu te recebo e preparo
Quase que no além-dentro do meu peito
E me calo.

Não vou dizer
do desmaio
de tanto pranto
da boca seca
Do verso, o vasto.

Não vou dizer do poema
O poente encantado.
Não vou dizer o recado
Que vem arder e doer no obscuro que busco
Em teus olhos, enjaulado.

Não vou dizer do presságio
O meu rapto é insonoro
Insone
Ecoando via láctea enquanto em vão fecha as pálpebras
E não dorme.

Não vou dizer o teu nome
Apenas deixo a rima em desfoque preciso
E a salvo, não me some, o grito evocado
Em vão, precedido.

Salvo teu nome
Escorre meu ímpeto...
E eu hei de te ter em véu sagrado
Pra sempre é um livro.

domingo, 25 de julho de 2010

PESO VIVO

Cansei desta máxima de que coração de poeta tem peso presumido.
Peso pressupõe o que não deve ser leve
Mas quero meu coração na era da portabilidade
Nunca leviano ou descartável
Mas que possa ser desCOMPORTADO
Bem na verdade, trocando em miúdos
- Os meus -
Quero mesmo é que me LEVE
- E isso não é tudo -
O que chamam de peso
- Penso -
Para mim é nulo.

FOZforo

Tamanho de luz é rima
Desfoco é o que me cega é o sobressalto
Não a tímida foz do meu ato
Atordoado
Doando-se em chão tal escasso.

Escamas de peixes vivos
Viram pássaros na surdina
Surda te ouço soprar em soma quase exata
E perco a linha
Irradiada do meu desejo.

Desfecho estreito é o que lega o semi-deus ao leigo dêitico!
Dialética poética poderia impor-se em mais respeito
E o respaldo bem poderia ser um quase-beijo

É quase dia de amanhecer
Em porto seguro atracada
E cada onda amiúde há de ser água
A verter bem por entre o sol dadivoso do poente
Estremece a rubra e alva interface
Ali bem por onde
Já me vês beber da fonte
De onde nasce.

MÊS PRIMEIRO

Há um mês
Quimera flutuante ao avesso do tempo
- Há um mês que é alento -
Certeza exasperada em cada jura
- É silêncio -
Há um mês
É dezembro
E o Natal renovará
As esperanças em cheio
- Há meios -
Fins são só o começo!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

POEMA SUPOSTO

Me vejo em solidão
Essa luz tão fórmica
- Dis_fórmica -
E um trovão é meu desejo.

Exímio vento
A costurar ausências
Não tolero o que não vejo
Ressoar em voluptuosas sobras
Não me integro às cósmicas escabrosas do intempestivo
Não suponho ruído
- Eu digo -
Eu-mito!
Exógena!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

SONATA DE ANIVERSÁRIO PRESENTIFICADA

Três quartos de madrugada
Plena e encerrada
Na lua que escorro em teu pescoço
Quase que se em mim deixasse o gosto
O teu exasperado hálito de mala pronta
E eu a abarcar em tantas contas de tédio, resultados
Olhando em teu pleito o feito abafado...
Não era de ser ausente
O meu presente de aniversário...

E de fato não o foi
Estava ali
Em cada recorte de vontade
Em cada fuso de nada
No desencontro há só o encontro e um basta...

Que bobagem
A eternidade é um efeito negligente da abstinência
E eu que sempre te soube
Nem frio
Nem estio
Só miragem
Te escorro em saudade tão endêmica
Quanto a cadência exata daquela ausência
Em liberdade.

Telepatias não mais servem às nossas resmas documentadas
Em cada verso só encontro a ávida liturgia do que se cala
Uma simples pólvora intranqüila e controversa
- Há de te ser em mim o que resta -
Hei de te ser o que me for
E eu não tenho pressa.

SANTA SEDE TANTA

Sede.
Tem gosto de sede no que sobra em minha boca.
E não conto as gotas porque raios não chovem
Nem vivem à sombra.

Me assombra a lírica tão confundida em precisão de faz-de-conta...
Faz de conta que me ama
E me falta na iludida mais que perfeita da tua afronta.

Não sou a onda passageira que encontra
Tão pouco o maremoto que tanto pede que te esconda...
Sou aquela voz incômoda
Que ressurge em peito e pronta
Te segue
Te concebe
E espanta!

Se te inspiro
Invado teus pulmões em falso retiro e
- EXPIRAÇÃO -

E se te piro
Prefiro ser o que não canta
O que em pulso ínfimo não é mantra
Nem oração...

Ora, ora se não são duas obras inacabadas
Em alinhamento magnético perfeito
Viscerais no limite do sujeito viciado ao que se desfaz no próprio tempo
Aos poucos e com clara retenção de efeitos
Eu te sou um raro desastre desfeito
O segundo desencontrado no que te pulsou a mais por dentro...

E se te me doeu, não tem jeito
Há que se beber fosse me pudesse morrer
E te viver por inteiro!

domingo, 27 de junho de 2010

TARDE PRA MANHÃ

Luzes acendem a distonia cíclica de minha omissão
E eu te quero
Mas te apago
Em um ou dois tocos de cigarro
Plenamente absortos e mastigados
No que trago
- Não no que estrago -
Pelo chão.

Vem, me olha reunida
em partículas simples e à toa
O que me molha não é a garoa
Mas a lua, respingada de sereno
E eu, aturdida
Confundo a fome que cala na lira
Com o gosto sustenido que move o medo.

Eu cedo
Ainda
Cedo.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

REVERBE

Li alma transcorrida na fluidez engessada do teu corpo estático
Era vulto.

POEMA CON_FINADO

Já te dei um livro
Um puro filho parido às vésperas de minha infortúnia
Já te dei o lábio, o asco, o lascivo errático de crua fissura
Já te dei aquela jura, sôfrega e dilatada
Como quem te tem bem entre as pernas.

Já me dei em terra
E acabei aniquilada pela vicissitude do teu ar, despreparo
Já me dei só e em rapto
Quase fugida da lâmina exposta do teu hábito
Porque não te sou mais retalho
- Retículo endoplasmático lácteo -
Já me sou e me calo
No silêncio discreto de novas luzes de plástico.

terça-feira, 8 de junho de 2010

POEMA INSIGNIFICANTE

E foi como um sopro de arrebatamento
Um algo qualquer a não redizer coisa alguma
Foi uma sequência de luas infinitas de fortuna
Todo o sentido do mundo desvelado na cor nada atenuante dos teus olhos.

Foi um cosmos alegórico em vão tão raro
Uma sensação assim de caos alado
E em largos braços estreei a noite, tola
A versejar sem métrica, rima ou escolha.

Eu li com a tua língua a infinitude do meu desamparo
Agora alardeada da insígnia da tua aura
Agora consumida na vívida pronúncia que me escapa aos lábios.

terça-feira, 1 de junho de 2010

FUNDIÇÃO

Olhos que afundam fundem juízo
- E eu que não consigo antever o precipício -
Atiro-me em desfoque preciso
E assisto...
Olhos que afundam não somem previstos.

FARÁ-O

(M)Olha-me com tua garganta
Sedenta por mais nuances de gozo ensurdecedor.
Encara-me transversa
E não há o que não peça
- Nem de roupa -
Só a louca que em pouca pressa te engole
E de lua te tarda em noite
O peito desata em fole
No dia que se descobre
O Bem já se foi.

Mas volta.
Em tua garganta de amuleto sibila a cobra
E o fôlego que me olha
É par, a dois.

domingo, 16 de maio de 2010

LIDA

Se eu morresse hoje
Bem quereria que não me acabasse
À base do verbo
No efeito da frase
E simplesmente permanecesse
À espera de olhos de vida
Divina
ou desastre.

ALPISTE

E nada me toma
como
o teu silêncio.

A recorrência da gravidade em meus versos
é um simples reflexo do complexo grAVE que sou
a sobrevoar íntima o rasante de razão
que vai do não basta ao que arrasa
o chão que eu desprezo
é a migalha
do despiste
.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SALVO CONDUTO

Estrelas adormecidas
Adornam nossos tapetes de chão
Em leito e sonho.

E ademais o que me principia
É o teu olho.

BOCA DE SUMO

Língua invadida pelo palavreado bem pontuado do nosso intertexto.

Há trechos de pares
E intrépidos silêncios.

TRIPULANTE

Lírico é o desvelo semi-tornado do teu desassossego a me dar nó.

Marinheiro
Bem-vindo a bordo
Que tão logo te desfaço em chão de ser solo
Não te deixo só.

RESTA UM

Olhar lácteo a teorizar cataclismas...
Revirar o terráqueo não te faz mais abalos
Só me vê novos prismas.

TOTEM

Ponte
Aponte
Meu nome
e a noite
Te será
Como ontem.

SERENATA

Flutuante
Flauta
A flamejar
Meus ritos.

Eu grito!
E anoiteço.

NOVO ATO

Tenho sono e carcomido é meu peito
À espera, estupefato,
Do pós-sol eu vejo o astro

E tão lógico é o tempo...
E tão gasto.

Pausa.
Pausa para meu delírio existir
Inexato.

AO PÉ DA LETRA

Nota...
A nota de rodapé
Lança os olhos ao chão
Lá do alto.

Roda o pé
Voa o chão
No auto
Não anoto nada.
Porque tudo roda
E o pé...
Tem asas.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A_VEIA

Mingau
Mim, Gal
Agora tenho voz de sereia
- Quaker -
Qualquer um tem fibra o suficiente
Pra fingir de vida o que era ventre
Pra vibrar alheia
O que era mártir.

POEMA ESTRUTURALISTA

Super
Supra sumo
Da eloquente cisma
Com o signo alheio
Que presumo ser cerceio
Ao que não há de vingar.

MINGUANTE

Empresto
Imprestáveis
Coibições
de cor
à lua.
E o que quase digo
É silêncio.

NOCIVA

Incrível como a crença em palavras
-Tão disléxicas tal asas -
Revive a crível e não cível oferta
Em prol do que resta e não basta!

TRINCA DE QUASES

MITOSE

Sou poeta
Assim aguerrida
Da saudade.

Quando me acho
No quase-sempre me perco
E quase nasço.

ÓPERA

Fígaro
Fígado
Financiado
Em vastas frontes
Do vão letárgico!
Figura no céu do imprestável
E se for saber de minha híbrida rima
É um quase ágio.

HOMEOSTASE

Acendo aquarelas
Na literatura singela
Do quase-ato.

E a cor da tinta é o tato
E o tom da sina é o fraco
Treme as bases alcalinas
Ao semi-aceito que alinha
O que corrói ao suco gástrico.

Raro é o lapso
Assíduo é o plágio
Ao redizer prosas-rimas
A cor repercute tal qual lima
A ver moer o anti-ácido!

sábado, 17 de abril de 2010

DESCARGA ELÉTRICA

Raios dão o tom emblemático da imensidão.


E eu, controvertida
Trago em dois goles de dúvida
O vão inexato do quão.


Raios se vão no instante exato em que são.

SALTO TRIPLO

Eu parti
Com dois golpes de ponte aérea nos braços
E a partir daí
- Do ar -
Foi quase inevitável não abstrair as asas
E me arremeter em queda livre.

QUARTETO EM DESABALO

A viga vazia suplanta o edifício
A vida vazia soprando é difícil
O pranto imbecil espanto o mau vício
Enquanto era bom
sobrava resquício.

resCISÃO

Eu sempre te vivi nunca
E agora teu torpor foi antes
Na véspera de resplandecer dia seguinte
Tão mais veio pareceu distante
- A menos que me esteja perto -
Contumaz é a lucidez veloz
Delírios roubam luzes de outrora lentamente
E a razão devolve turva a visão imediata
Duvidar dá certa satisfação, meu caro
Acredito errante no dolo da descontente
- Certamente -
Apenas idéias baratas o bastante
Para reprisar erros e pagar caro.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

ENTRESAFRA

Eu não
Eu não lhe tenho
- Tormento -
Eu não lhe tenho
- Fomento! -
Intempestiva mão a semear tempestade.

ENCADEIA

Esse fio
- que é tão entre -
É tal ato
- propagado -
Em corrente.

QUAL_QUER?

Dar nome ao nômade
Desloca o homem
E lido
Ele some.

OVERDOSE

Eu verti um ou dois goles de ausência
Pra depois te beber neles todos.

DECORADA

Um espasmo
e estou de volta
- Ouvida -
Involuntária é a cria
A flamejar meus excessos
E o que me sai não é léxico
Não é nexo
- É sangria -
Em furta-cor Coralina
A lira CORA o meu verso.

FOZ

A espera
reverbera
O infinito.

E eu que não grito
Espero como - quem dera -
Fosse tê-lo em mais de um ímpeto.

...


A espera é a flor amarela
Que navega sem vela
E se afoga no rio.

terça-feira, 23 de março de 2010

ONTEM... NOCTEM

O gosto do som é tátil
Mas o exílio tamanho sua dose de notoriedade abSURDA.
Eu vejo.
Eu deixo.
A partida subscreve o limite
– o desafio disfarçado sob efeitos de plena educação me diverte-
Mas afeiçoa... E rio.

Aos que capturo na hóstia de minha escrita
A extrema unção ao espírito santo,
-Intocáveis-
Mas aquele gosto eu quero tátil
-Tal o som que desemboca em certos olhos –
Áridos.

O tempo é uma chacota cínica, mas convincente.
O que o tempo concebe, a imaginação habita.
E eu não tenho pressa,
Mas toda a ânsia do mundo me consome...

Mas quando some e volta a expirar a validade dos atos em goles sutis,
E me bebe ilimitada na lira... E só.
Quando o que estanca na escrita deságua
Eu verto
Eu vejo
Mas te escapa!
Há que se querer o bastante
Assim livre... Mas desperto!
Tal a insônia que concebe o dia novo
Quando o ontem ainda está tão perto.

NON SENSE ON THE ROCKS

Gelo?
Lógico!
Deixa declinar!
Latim cupim
Dá ferro
E a dó traz o tétano
A dedetizar
O ego.

PONTA DE PÉ

Sesamóide
Ser essa mói
E a dor funde os miolos.

MAU AGOURO

Vou tragar teu torpor incandescido
- Eu que não fumo -
- Eu que não te trago comigo -
Te inspiro.

APOCALYPSE NOW

Cápsula
Cópula
Francis fode Coppola
E eu a espreguiçar monotonia.

DIZ CRENTE

Bebo língua diluída na fala
Mastigo típica
Exaspero elíptica
E a rima
Se separa.

Bebo língua líquida
E a minha cínica insígnia
É a fé na palavra!

RETICENCIALIDADE APARENTE

Dispensa o aparato de guerra e te joga na lona passível da minha teia.
Me deixa engolir o codinome da tua verve rebelde
Me afoga na sede a qual não cede
E eu inteira...

DO CONTRA

LI
ILustRE
ERraDA
ADverbialmenTE
ETétrea.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

FELINA

Sabre sabe bem até onde abre a boca pra mastigar próspero o juízo.
Sabre sabe bem onde é presa ou presumido.

PRO_EMINENTE

E a última vértebra é o que reverbera
A vera.
E a última quimera
Foi aquela.

Fora aqui dentro
É cólera
- Heróica atmosfera -
Fora aqui dentro
É tudo fera
Um fora da lei
Que já era.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

OFERENDA

Tem uma verdade no teu olho que me abocanha
Assim de verve, assim de rumor
- Não que te apresse -
Pra ser tua quermesse
Tua oferta santa maculada
Ao forte efeito do primeiro beijo que não se esquece
Seja um, último, seja todo,
Abarrotado, sopro
Pedido rouco, aceso
Ou o que roga à prece.

Quero teu todo gozo santo forte
Quero me ver rubra no teu olho
E não depender do que escolho
Mas do que então me merece!

E quando em vão me contorce
Quero o que não se quer em poema
Mas te quero, sobretudo,
No vulto insepulto do que foge à resma,
Quero-te a mim mesma
Eu quero o que não foge de ti
Pelo simples direito de abdicar da instância múltipla do dilema.

Porque tem no teu olho
Uma dose limítrofe da minha miopia pragmática
Te ver de perto, hoje, foge à estática
E eu quase orgástica,
Te invento outro
Almejo tua cruz e tu todo tal estaca!

Estaca zero não basta!

Porque no teu olho
No teu olho tem uma verdade que me arrebata!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

INFUSÃO

Mote mão resenha
O bote é o que desenha
Induz pensamentos trôpegos
Sôfrego é o logro do que desdenha!
E a santa?
Quanta sanha por debaixo dos véus
Quanta veia!
Sudorípora atéia que induz os olhos teus!
Céus, ilhéus, morfeu, morfina
E o mote quando mata,
Refaz-se em rima,
- Menina -
Assassina tons pastéis
Impulsos fiéis ao sopro de mar.
Amaralina
O mar alinha
Marolinha tsunami
Sáfon alçapão
Alcaçuz de leito lábaro
Conduz peito ébano
Bárbaro refém de ilusão!
Pulso retida esteio
O fuso que espelha meu seio
No meio de nós atados
Escracha retina fato
Meu faro, teu sangue, meu prato,
Teu cado, derrame, infusão!

Roberto Pontes & Natália Parreiras

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ACÚSTICA

Li a crua exatidão da tua boca
Tão finita quanto o acorde doce
Que se faz refrão.

Como se firme o vívido volvesse hoje
Como se o nada fosse
Volver ao chão!

LADEIRA

Ponha um amendoeiro
Dobrado
no meio-fio
E observe.

...

PALÍNDROMO GÁSTRICO

Minha poesia me engasga
Devora as vísceras inteiras de minha rejeição
Arrebenta vaso por vaso
E expõe a rota circulatória
Em sangue vivo pelo chão.

Minha poesia revolve à boca
O gosto nauseante do nunca.
Impregna minha língua de liquidez homofônica
E acredite! Tem gosto de açúcar.

Minha poesia afoga o fôlego da minha espera
Em inóspito veredicto
Minha poesia serena reverbera
O que nem a sós eu não grito.

E por tanto sonhar em deglutir
- Mastigo - Instigo - Castigo -
- Que eu cismo ser sísmico -
E meu paladar
a ladrar
Tal o avesso ingerido.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

RECICLAGEM

Tem um sangue quente
Me bailando a fronte
Ponta-de-pé a arrefecer o céu
Se estanco o pulsar
Finjo que é fonte
E deixo pingar cá no papel.