Pular para o conteúdo principal

CONTO DE USINA

Era mais um sábado oco e irascível – nada promissor. Era um mesmo conceito amparado de velhas outras expectativas. Era aquela sensação inusitada de formigamento no juízo, de euforia entorpecida de solidão. Era um breve consolo de sobrevida, um suspiro assim... De resistência... Não aos mesmos traumas de "nunca", mas aos de agora.

 Ele vestia qualquer roupa para convencer-se de sua ausente ansiedade eminente – par de chinelos para parecer casual e despreocupado, para soar leve. Os óculos cativavam certa credibilidade, transmitiam a sobriedade que sua aparência frágil e franzina desacreditava nos outros e em si mesmo. “Tudo ao natural” era seu lema: não racionalizar a seqüência provável (ou não) de eventos.
Já era hora de ir.

Ela vestia verde para sinalizar sua esperançosa vestimenta de ousadia – nada literal. Cabulava o tempo respirando intervalos ausentes de conteúdo, permitia-se divagar naquela sensação absurdamente desconhecida de estar à espera... Os lados pareciam transitar extremos opostos e incontroláveis. Tonta, travava diálogos internos ( e austeros!) a fim de convencer-se de sua nova posse de segurança... Nunca houve tantos carros e rostos de ninguém, nunca houve. Aliás, ela nunca ouve. Fala, fala e fala... E ele parecia o extremo oposto: Sábio coletador de dados... Mas onde estaria?
Seus olhos alcançam de relance o esperado foco que cerceia os desdobramentos caprichosos de sua imaginação incontida e voluntariosa. Ele estava ali.


Vê-la manipular a caneta dava-lhe a impressão exata do que tais mãos seriam capazes de fazer com seus pensamentos, ali quase táteis pelo ar – ainda que suas considerações estivessem comprimidas em um silêncio contemplativo perturbador. Ela respirava vitalidade ainda que muitas vezes em excesso... Apesar do pano que usava como blusa mais parecer uma toalha de mesa estranha, ela tinha atitude e um ar despretensioso como poucas. Nem era tão difícil forjar um interesse agudo por seu ofício. Seu olhar insistia em comprometer, bem como suas dúvidas disfarçadas em vocabulário rebuscado... Ela gostava de confundir com respostas erosivas e provocadoras.

Sem hesitar ela paga a conta e sinaliza seu suposto controle. Mal sabia que ele, àquela altura, seria quem "pagaria pra ver".


Até ali já era o suficiente: memoráveis instantes espontaneamente compartilhados e demovidos de expectativas de continuidade... Fingia não perceber o esforço dele em conceber-lhe atributos que soassem cativantes, mas não aduladores. Em poucos segundos sua mente percorre a então distante seqüela de fatalidades. “Chinelos? Vai ver faz o estilo largadinho...Melhor assim, sem perigo! Mas... Ele respira tanta liberdade... É isso! Esse era seu encanto: sua natureza quase que irretocada, abusiva de tão liberta e nada promissora... Mas... Ainda não acabou? Ouvir? Eu? Tá bom... Pra variar...”


E eis que ela o ouviu como ainda faria por muitas vezes e cada vez mais... E tanto. Aquele som inundou sua esfera de contentamento e por um instante ela acreditou ser capaz de ir além ou a lugar algum... Contanto que pudesse carregar consigo aquilo que agora, de alguma forma, lhe pertencia.


(Novembro/2007)

Comentários

  1. Gostei, Natália! Muito bom...

    Nossa, faz tanto tempo que eu não vou lá no Corujão! Eu passei ontem na frente do João e ele não me reconheceu! ahuaha
    Bjs

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PLANO DE VOO

Vivo de amortecer a queda
De minha tão insensata
Passionalidade.
Mas foi quando fiz do cárcere
Matéria-prima
Que voei pela primeira vez
E avistei à rima

Raro é pouso de minha pele
A ponto de não averbar circunstâncias
- Mas vivê-las -

E foi ali, em via aérea
Que toda noção de limite
Ressignificou-se no timbre da minha espera...

Por mais que eu possa avistar a terra
- Aqui de cima -
Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive à gravidade
A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
Claro
E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
Com os olhos
E batesse no peito com a humildade
De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
Haveria como professar a fé
Sem que te sentisses um otário?