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Mostrando postagens de Julho, 2009

POEMA DE EFEITO CERTO

Poema certo
É poema incompreendido
Passado batido
Em branco
pra baixo do pano varrido.

Poema certo
de certo
há de ser privativo.

Poema certo
de fato
é sem-vergonha...
De tanto crer no absurdo de que ninguém suponha seu substrato
Seu dado é exato e não exime o legado do que não raro sonha.

Poema certo
É o que vaga errado
Mas acerta na insônia.

ARTIFÍCIO

Articulado
Articulando
O colan do mulambo é a fronte
E até quando
Há de faltar o ar ao aspirante?

Aspartame só adoça
a sofreguidão que tolera
o não-gosto do instante!

Açúcar engorda
Mas só enche os olhos da gulodice.
Deguste com calma
O sabor não é vinho
Bem vindo, articule-se,
É arte, cure-se!

E basta de mais jogos de palavras infames!

Dai a fome ao homem não um nome!
Dai não ao homem e terá sua fome
Acredite.

SUJEITO OCULTO

Lá onde sai o sol
Saliva um súbito assalariado
Da dívida máxima da alma pequena.

Lá onde sai o sol
Saía o lume feito farol
No farfalhar das açucenas!

A sucessão é que rege o trauma
E equidistante não range o trema!

Lá onde sai o sol é monte
E há de sair Móises, o monge,
Por de trás deste poema!

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

AVARIA

Inverto o tempo
Afim de reverter a finitude a tempo
Não tardia!

A era da noite era dia
Essa noite vê se adia
E fica mais perto
Talvez amanhã bem cedo tenha nexo
E a noite sem dormir tenha medo!

Inverto a noite bem a tempo
E pareço não perecer se do ontem eu esqueço!

Eis a questão fundamental:
Eu inverto!
Escrever de baixo pra cima
Reza o texto!
E como diria a poetisa
Reviva!
Eis aqui o começo!

DE UM GRANDE POETA

NESSE ANO DE TANTAS UVAS
(à Natália Parreiras)

Modesta caverna é essa,
a caverna que habito
com meus filhos inspirações
Se agora tenho um travesseiro junto ao peito
é para nos proteger
dos raios nocivos
dessa engrenagem virtual
e das vespas que apenas nós vemos

Redescobrindo o pão, o trigo,
a trilha das colinas,
os furtivos gatos, os bosques amados,
os colibrís da infância

Piso no planeta, o planeta pisa em mim...
minha atmosfera
e a atmosfera dos dias de vento

Meus queridos,
calcemos as luvas das fábulas de Lafontaine,
risquemos mais que fósforos para aquecer
a pequena menina
de Hans Christian Andersen,
nessa noite calma,
nesse ano de tantas uvas

(Edu Planchêz)
http://www.eduplanchezpoesia.blogspot.com/

POEMA MASCOTE

Não enjoa, joaninha
Que tão logo pós-Joá
Fim do túnel chega já
E a Zuzu se foi sozinha!

Não enjoa, joaninha!
Seja for o que será
Faz a lira verdejar
Aço bruto em véu de mar
E assovia!

Não enjoa, joaninha
Se não podes bem voar
Ousa usar a ventania!

Não enjoa, joaninha!
Se aninha pra rimar
Pós o túnel céu virá
Voo teu e letra minha!

POEMA DE CADERNO

Fosse a cadência e não o inverno
Não haveria tal poema de caderno
Mas pés entrelaçados na coberta
Na vitrola a bossa que fora hipotética
A veranear na linha torta, mas do horizonte!

Houvesse amanhã
Não fosse ontem
Quiçá, porém, um ou outro titubear rouco em meu ouvido
Em verso trôpego ou em poema mais bonito
Não fosse um mero
Não fosse apenas mais um poema de caderno!

QUINZE PRAS NOVE

São 15 pras 9
Novenas versam vozes
a perambular resistência.

Instintos, quiçá, seriam nobres
Não fosse o 15 para o 9
Um rumar de outra ausência.

Veemente fito o relógio
No compasso alucinógeno
De cada minuto que me escorre.

De pouco minha esperança se recolhe
E de esperar em tempo ilógico
Renego o que há muito fito óbvio
Já são de fato 15 para as 9!

SEM MANGAS

Arregaço
Há regalos na vida
e não pedaços
Não arregalo os olhos
Mas firmo os passos
Há pesar na aguerrida
Que lhe suportam os ossos

O ofício!

O oficioso do fisco
É o fiasco do lírico
Aos vossos
Aos natos
Aos vícios!

Arregaço
Há regras nos lapsos
E elipses nos pífios páragrafos repetidos!

FIXAÇÃO PRIMEIRA (a chico buarque)

Litros vertem lidos
E eu bebo é da sede do desamparo
Pudera a língua lamber-me os livros
E infringir a lei
que vai do leite
Ao leito lábaro!

Se lavo a sede
Engasgo o ventre
E por merecer a vez do açoite
E por fazer do amor a noite
De peito em boca
Meu verso eu calo!

POEMA-DE-LEI (para meu pai)

Atento o Desatino
Assovia derramado
Seu suor em ser menino
A marcha é seu arrimo
Mas mancha o assoalho!

Atento o Desatino
Desafiou o tal vigário.

Atento o Desatino
Desatou-se em ser soldado
Incendiou-se no destino
Destinou-se a ser cedinho
Eis que vingou
Não virou fardo.

Atento o Desatino
Atenuou-se no ideário.

PONTO DE CORTE

O grande gesto poético
Está no porvir da palavra
Quando acende o sentido
No expresso milésimo de segundo
E se faísca tempo.

Não antes do verbete que se alastra
mas entre seu vigor e seu efeito,
entre o recuo e o traço feito
entre o peito aberto
e o que cede à adaga.