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BRINDE AO PÓSTUMO

Eis que a hipocrisia brinda
À hipotética estratosfera dos vastos instintos de destruição.

O brinde pode engasgar e amortecer a garganta se seu gosto é sóbrio.
Mas bêbado, brinda ao inútil do próprio gole de prostração.
Então brinde, meu caro!
Deguste a antropofagia saborosa de todos os teus órgãos inutilizados,
De teus todos ofícios abdicados pela insuportável face da dor inevitável da VIDA!

Beba, engula cada golpe de auto-intermitência,
E abstinente, assista ao dolo silencioso e fatal do teu eu.

Brinde, mas brinde livre do desejo de digerir-se alheio.
Deguste, sinta o sabor de cada palavra que me ofereceu em vão...

E nos sentemos juntos à mesa agradados do “gran finale”
Na quebra das taças e das promessas aguardadas
Em cada gole dos dias que de tão acreditados
Já se foram nossos.

Comentários

  1. Que brinde! Nossa! É personagem real ou fictício?

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  2. Luiz pai da Natália4 de abril de 2009 09:45

    Sua poesia faz até a dor ficar bonita. Mas ela doi ! Doi muito, até ser permitida.
    As promessas passam mas sua poesia é perene e edficante. Basta tomar um gole dela e se revigorar.

    ResponderExcluir
  3. Maria Lúcia tia da Natália5 de abril de 2009 17:33

    Brindar o que já se foi é aceitar o que já não é e o que já se foi não foi em vão!

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PLANO DE VOO

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Matéria-prima
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Que toda noção de limite
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Por mais que eu possa avistar a terra
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Estou em vias
De bastar-me
- Incrédula -
Sozinha.

Há quem diga
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A poesia...

Bobagem!


Há quem diga
Que nem só de voar
Sobrevive a saudade

Imaginada
Em cada rota linha.

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