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Mostrando postagens de Março, 2009

CÁLICE - como jamais diria Chico

As palavras entre nós ocupam lugares desnecessários, roubam gestos, os precipitam.
Palavras entre nós são como foices a serviço do inquirir da alma,
A enunciação da angústia que poderia ser abstraída.
Palavras entre nós verbalizam nossos sonhos imaginados em teor desconstruído,
Abortam possibilidades de ganho, de tamanho, de futuro.
Palavras entre nós são divisões silábicas de afeto, são elucubrações do espontâneo,
São desconfigurações do simbólico trazido cru em torno de um real frustrado.

Palavras estão entre nós.

Mas nós estamos entre elas e o silêncio de uma nova possibilidade...
A de relevar e seguir adiante antes do ato,
Antes desse ato impiedoso de palavra!


"... Mais um gole, que com gás, as entrelinhas podem borbulhar a vontade!"

GESTAÇÃO

Silencia o verbo na instância clarividente do olho.
SIMPLES.
E o olhar arrebanha o que era um tanto de verso
Dentre a causa e o caos
O excesso.

E o olho verbaliza o convexo
Com a convicção de que só a si silencia o léxico
Mas toxi-cronologicamente imerso no olho
No teu olho
Eu silencio o joio
E de resto, eu gesto
Assim SIMPLES,
O in_verso.

ALFORRIA

Livrei a dádiva da maldição de acometer-se de amor.
Pobre e vã!

Mas a ponta da saia estava amarrada ao pé da cadeira de balanço sob o pé de abissal.

SAUVIGNON

Olho de raio que coube no hilário esperanto
À espera do espanto de regojizar suas teóricas teias-ilíadas!
Olho de trovão bem nas sílabas transversas
Do teu desconexo abandono
Do teu inquieto e com sono
Consolo de seresta e intriga.

Olho de cão bem às vésperas
Olho no vão e ver nesta
Viverão mais promessas e o bom Sauvignon que nos resta...

É a lida.

A POÉTICA E O TEMPO DO INTRANSFERÍVEL

Ainda que eu tenha a noção do quanto o tempo é de fato irrevogável
Encontro-me comigo em intervalos intermináveis
No silêncio absoluto do que resto sempre.

A contradição é o ser...
Atemporal, me forjo de princípio a arrefecer a dura queda do que cala... E passa.
Perecível, pareço germinar a cólera dos que sobrevivem
E vou de_compondo-me...
Dando-me ao arroubo do que emerge letra.

Se fico ou se hei de ficar é porque livre,
- Matéria sóbria -
Apanho o pulsar do que estanca,
Do que louca, sou capaz de parar com os olhos,
Firmar no punho e acontecer nova e vívida de novo
Não na minha,
Mas na toda mesma poesia do hoje,
Sempre.

TRANS_LÚCIDA

Transparecer
a liquidez
da dúvida
umidifica o caos
De certo. (deserto)

Água para mal de parto
Para Mal de Parkinson
Para mal de pais ou país
Pára!

Mais um gole
Que com gás
As entrelinhas podem borbulhar à vontade.

MORDAÇA

Curto a estória dos homens
Como a prolongar a efemeridade que os compadece.
Arrebanho todos e desato vossa boca
Salvadores dali são atos da bancarrota
Não salvos-condutos a abonar mais hereges.

AFAGO NA LIRA

Eu hei de errar
E cair
Até o poço dos pés
arrefecer
E se for de doer
que desdobre
A poesia, irmão
É aquele tropeço sôfrego
Safado
É um laço no ego
É o pescoço encerrado
de mágoa
E excesso.

Por isso escorro da santa à puta
Penduro a afronta nas ancas
E hasteio-as juntas na luta!

Sequer julgo as condutas
Sequer conduzo-as tão lúcidas...

O tombo principia a forca e o berço
Nos pés mais amarras de aço
Do poço a síntese do beijo.

PÃO-DE-PEDRA

Sinto cheiro de fistulas
Farejo implícitas chagas de tempo.
Me ponho em termos boêmios
Que extrapolam rebelde linhagem.
Me faço às margens
Não decodifico o engenho!
E o que reverbera é beira
É pé na pinha d’água
E na calçada em que o pé afunda é meu poema.
Chão de pedra
Pão de brita
Miolos ao asfalto
Às faltas com a escrita.

SOBREVÔO

Curioso como o ser humano apodera-se da metáfora...
Cá estou a prevaricar a gravidade incrível que dá asas a este pássaro de aço
Que sobre_ passa e não fica
Tal qual a poesia que gera à estática!

SINTAGMA

Irrompo na ilusão de fluir
Libidinosa
Defloro autos, outros e pratico a livre forma
Ao matar a lógica do verso que incrimina
A láurea da mutilação óbvio-comportada.

Devoro-me enjambres burlescos
Tambores são preços
a pagar bem em hora
No batuque de meu verso
no lume que sossobra
e não sossega
Hei de ser nova velha
Não de ser boa obra!

LITURGIA

Reinvidicai, ó cegos
O odor da palavra
Pois é de enxofre e esperança
Que ressoam vossos cultos
Não em vão nas parábolas!

MARCO

O marco
era o zero
à esquerda da prerrogativa existência

Ainda que de valido eu leve
A dádiva de simbiose de minha flâmula
- estagnação –
Eu elevo meu verso ao pulso
E encaro a próspera noviça em clérigo sibilante
Sedenta por zerar a lucidez da cidade das águas
Imersa na lentidão das luzes temperadas de saudade
Dos velhos dias de lá.

Ô meu Recife
Bem que te disse
Que eu ia voltar.

POEMA DE BERÇO

Aqui é o único lugar que me pertence
Aqui coexisto com o caos da dádiva
Da dúvida
E sobrevivo.

Aqui não renuncio à escolha
Moldo vocábulos ao sabor da pronúncia
E não dos ditos
Aqui a separação de corpos é simbiótica
E o simbólico é o que faz sentido
A mim enquanto garganta
A mim enquanto semântica subjugada a restos mortais.

A réstia é a massa quântica
E o logrado a linha pronta
Aqui o que me desponta
É o que jaz.

Aqui, um subúrbio decodificado em agentes da passiva
Aqui, um passional da imunoeficiência adquirida
Aqui, o murmúrio de clarividência
Veia-tríplice-traída
Aqui, a delícia estreita que habita
O ato ininterrupto da lira e do gozo
Aqui, o subúrbio intra-uterino
Que onde nasce, MORRO!

TERRA À VISTA

A lira difundiu na terra de São Tomé
O livre-arbítrio de um tal José qualquer sem patrocínio.
E foi tanto mote independente
Que ao acaso calhou-se de colher rima boa
No descrédito da escolha de render a nau aos índios

Não à coroa.

POEMA-ÂNCORA

É tanto poeta que breca a proa da beira
Que acaso o pé de acrobata se afunde na barca aquém da trincheira,
Não há certeza a salvo que não naufrague no ato de pisar na areia.

LEI SECA

Perigo!
Aqui o que irriga o poema me irrita
E eu, leiga
Confundo o findo com o lindo doído
Do que resta de mim e não da letra
Do que violenta,
Abusa-me inteira por meios escusos
Por fim, que não se justificam nem ao meio
Nem o meio
Nem o meu meio,
Grita.
Perigo!
Há seca à vista.

SÊ MEADO

Entre Rios poluo...
Mãos de luva a apodrecer sementes.
Se a margem espia em teu conluio fundo
Encontro-me rasa ao te banhar correntes.
Se de fluente cravo em teu mergulho o rumo
Melhor te tenho bravo a percorrer mais gente.

DERIVA

Se pudesse conter em minhas mãos o sal
Saudaria o adeus no abismo de vento...

Pena não ter dedos, nem braços, nem naus
Só o abismo de sal
A navegar-temporal
O saudosismo do tempo.

ALVO-ALÍVIO

Hoje não respiro a flor do meu cortejo
Mas irrigo o fôlego de meu tiro perfeito
- E cínico –
Não-lírico de absinto
E próspero de percevejo...

Alvejantes desbotam a roupa suja
Tamanha cara mal-lavada.

Des_bote.

POEMA INTERINO

Meu filho foi coagido por meu útero
Inutilizado no último circuito curto
Meu filho esbaforido
Deu o último trago em meu ventre confundido de mercúrio...
E sangrou como tido escasso
E sanou como um tiro em falso
A alvejar em gesto o que me seria orgulho.

Meu filho a sós foi parido vivo, mas era só véspera de meu futuro.

TRANSCENDENTE

Havia tempos o instante não era engolido pelo compasso da hora certa.
A calma a mastigar os olhos
A pressa a lamber os lábios
Represada pelo eixo-tranquilizante do durante
E não pelo direito de ir adiante
Mas pelo que resta à vida advir do saldo.

A VOLTA DE GENI

Se meu é o teu
É coro
A couraça envelhece a cachaça
Mas não o fogo
E até onde me for teu
É não do outro
Porque é no teu olho que a voz embriaga
Não no pescoço
E eu te ouço como a calhar de ser mulher
- E não de osso –
Dessa costela tua que ergo grito
E eu admito
Que mera espera estúpida fora aquela
Que era tua
Se nunca se fora nela
O que era meu desse Seu Chico.

AMBI-VALENTE

Há dias em que odeio meus poemas
-Outros nem tanto-
Há dias em que amaldiçoou cada emoção que me rasgam, escritos.
E nesses sou gente.

Qualquer colóquio de dor me impõe, humana
E sangro o desuso da escolha
Pela não-optativa da poeta.

Me sou o que não basta
Não obstante, sou limítrofe.
Sou tudo o que repercute e cala
Sou o equívoco da raiva
Sou o fantoche maior da ilusão do ser...

Eu,
Sou a crise.

POEMA COITADO

Pobre rimas a mercê
E não mecenas
Pobres letras lendo ao tema
- Analfabetas –
A decodificar anagramas e morfemas de intermitência e de estética!

O caos dita a monofásica essência do drama
Poemas estrangulam suas membranas
Sudoríparas entranhas a transpirar o engasgo do coito.

Coitadas palavras gestadas em ventre-espasmo
Ao não conceber ao vocábulo
A instância máxima da variante
E tão vasta cor de Dante
Ao só distrair do estrago!

Pobre poema coitado
Aos gozos do açoite
Servil e não foice
Foi como o poeta acabou-se
Nasceu foi do seu e não pôde
Merecer o que falo.

LIQUIDEZ CARMIM

É tarde
E no vazio do copo perambulo sonolenta
Como o caos a me embeber tão lento
E então a letra!

Dou um gole na água santa
E rogo às outras putas a minha sede
- O meu engasgo-coldre –
Arma pronta a explodir miolos em vão!

E o pão
Mastigo intermitente
E temo – o cano entre os dentes –
Engolir o estilhaço de meus festins todos...

Boca pra fora
Fora da boca
Os ossos no espelho não desfocam o olhar do outro,
Nem da louca!

E eu espero, abençoada
A anágua e a dádiva do esmero
Por entre a dúvida, me ponho absoluta
Solúvel na liquidez afônica
Da rubra blusa e não carmim.

É ácido-base e não festim!
E tenho dito, eu alvo-aliviado
O que vinga não vem do a salvo
Mas advém do que sangra em mim!

ININHADA

Li bruscas andorinhas
Adornadas ao juízo de minha escuta
- desdobrável me escondia –
E ela avoava tal astuta
Eu que em “si” não me cabia
Ouvia a danada da labuta
Se desdobrar... Em andorinha!