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Mostrando postagens de 2009

RECREIO

Café da maré
É manhã de maresia
Sem qualquer intenção
De vir a ser poesia.

Aposto à euforia
O aforismo da vida
É o céu de todo dia...

Todavia
Café da maré
Faz sol à revelia.

ABALO CÍSMICO NO COSMOS*

O tom pesa na caneta
Canela fina esmerila brita quando pisa torto
Um pobre corpo a mercê das rimas
Um peso morto a conceber um outro.

E discuto cada lauda amarga
A fossilizar minha verve em tempo
Posta à prova eu sou um nada
A perecer de esvaziamento.

E dessa névoa fora que tanto me habita
Desacato a hora em meu descanso
Por onde a obra me segue escrita
Fica minha voz em silêncio e pranto.

E os que me choram não salvam a vida
Nem salgam a foz dos que me abandonam
Não chega a morte posto que artista
Revolve à sorte esses tais danos.

Calada no murmúrio impreciso
Pareço verter alma, quiçá solidão
Em último ato descubro que vivo
No ser inexato que eclode do grão.


POEMA DIRIGIDO AOS QUE PARTEM DESTA FORMA (HUMANA) RUMO A OUTROS MUNDOS.

VIDE-VERSO

Já conheço o lúdico que desacelera a tua vertigem calmamente dilacerada
A livre forma do teu ser sucinto, ainda que melhor te olhe com essa toda palavra.
Minha palavra te olha como quem roga ao silêncio estético o mérito que a abala.
Porque quieto, te invento e te meço na cor atemporal de minha marca extrema.
Porque quieto, sou incapaz de interromper a simbologia alada da paz que se postula tempo.
Porque quieto, me questiona a imprecisa ausência e sua erudição tamanho o transverso.
Porque quieto, minha palavra te aprisiona em seu ventre e te preserva da intermitência do gesto.
Mas mais do que tudo porque quieto desfazes o mudo, na calada da noite dos sinos de vento.

LIMBO LIMPO

Calhou de toda gente rondar o céu.
Mal sabiam que entre o pardieiro dos enganos e o beco do costume número sete
Raiava o estupor do infinito
E que o dia mais bonito teimava em escavar a fronte diabólica do homem sem idéias.

SONATA INSONE JÁ INSANDECIDA

O poeta dorme
E caótico é seu sono de catarse
Como não pudesse conceber o mote
Como não bastasse adormecer a morte
O poeta dorme às frias lentes de solavanco
O poeta lava-se na água suja do dia seguinte
A mesma água turva a salgar de sublime o seu pranto.
O poeta dorme nos pormenores do indissoluto
O poeta oculta-se, sonâmbulo
A auscultar em um só minuto o vir a ser de seu preâmbulo.
O poeta dorme à beira do precipício
O poeta precipita-se
- É o início –
E a queda no vão
- Obstante –
Pode ser do despertar o bastante não a unção de seu vício.
O poeta acorda
- enforcado-
Mas a forca transpassa seu transe
E o fôlego emerge transcrito.
O poeta dorme enquanto acordado despede-se no vívido.

REFERENCIAL APARENTE

O caos do acaso do desacerto do relógio
Me deu o óbvio
Poeticamente eleito
Intrépido fracasso
Disléxico de ponteiro

Ponti-agudo
Agulhando o curvo mundo-inteiro
Não fosse meu relógio
Teu seria o prognóstico
Meu seria um mundo e meio.

HERESIA

O que é essa descoberta
Essa luta acobertada de moléculas
Inócuas
O que é esta metáfora tão estética
Tão herética
Tão intrinsecamente dialógica
E tão liberta da retórica!

Ao vão à mercê das menções de amnésia
Ao vulto de ver roer e temer doer
As digressões às dionésimas!

O que é te ver tal voyeur do teu próprio prazer
De padecer à minha eclesiástica e tão clichê
De não herméticas rimas
De tão protéticas
- Cataclisma-
Catar o que?

Catar o rei
O hei
O porquê de apodrecer
E ser
E er
E r
Errar-se
Morrer-se
E ser talvez resto
Estória
Esporro
Ex-povo
Exceção
Escassez
Ostracismo
Estrabismo
Abismo
Absurdez...
Surdo
Surto
Susto... Súlfur talvez.

AFÔNICA

Você
O apóstolo átomo
O graal máximo
De minha vidência,

Você
A insônia acústica
A insígnia pronúncia
De onisciência.

Você
Esse verso teimoso
Que ausculta meu gozo
E se cala no sopro
De rimas-cadência!

Voz sede meu troco
Meu análogo esforço
Minha vã confluência.

ABRIGO

Sombrinha
                   Pra verter o sol
Sublinha!

Sublinarmente sombria

                                       Sublime sol o ser (eu sei!)
                                                                                 So(L)zinha!

BÚSSOLA

Puro é o tom monótono do não
Que revela teu auto-resgate em fuga minha
Fugaz é a tua linha
Que expõe o bote que te salva a vida
Enquanto NADA com a maré errante
E ignora o pôr-do-sol que te encaminha.

GERAÇÃO ESPONTANEA

Eu insisto
Porque o começo é a dor do porvir
E o que dói, quando não, canta
Alimenta a afronta
Mais a frente é o passo dado
É cousa do homem
Não é cousa do vasto
E eu não me refaço do que esqueci.

Eu insisto!
A existência corrobora na mímica da vida
Um pouco de lástima, bem pouco da dúvida
Um cado a mais da briga
E eu já não estava aqui.

POEMA DE MOTIVO TORPE

Embebida na gota lúdica
Do que creio ser a chuva
Me disponho sol na mão
E de vento voo curva.

Tão pouco o tempo me fala do contraste
Ao clarear minha letra rubra
Se o que sei sinto na face
E finjo chorar o que é a chuva.

POEMA DE ONTEM

A todos os que me moveram um poema
O gosto incolor deste outro
- neutro-

Adjacências à parte
Bom mesmo é dissecar o tempo
Na indiferença secreta
Que pode guardar o poema de hoje
Amanhã.

QUINTO ELEMENTO

Elementar, meu caro ócio...

Assim oca de fluir a ti recorro

Como se o inóspito silenciar me fosse outro

E o que de ti virá, em vão tão óbvio.



Elementar, meu caro ócio,

Tuas vias de acesso encontram-se escritas

Mas não pareces rondá-las no entanto

E de indiferença ressoam esquecidas

E de esquecer é que anulam-se no ponto.



Elementar, meu caro ócio,

Não peço que pragueje sequer de fome esse meu tempo

Mas se aqui há o que almeje em um só momento

Há que evocar mais de uma vez esse tal nome!



Elementar, meu caro ócio...

Ou é ofício o que virá enquanto some

A sós no quarto, eu ouço o quinto

Elemento tácito,

Meu dito HOMEM!

POEMA SEM QUERER

O gosto do som é tátil
Mas o exílio é tamanho sua dose de notoriedade absurda.
Eu vejo.
Eu deixo.
A partida subscreve o limite
- O desafio disfarçado em efeitos de plena educação me diverte -
Não à toa, eu Rio.

Aos que capturo na óstia de minha escrita
A extrema unção ao espírito santo...
Intocáveis.

O tempo é uma chacota cínica mas convincente.O que o tempo não concebe, a imaginação habita.
E eu não tenho pressa, mas toda a ânsia do mundo me consome...

Mas quando some
Volta a expirar a validade dos ditos em goles hostis
E me bebe ilimitada na lira e só.

Quando o que estanca na escrita deságua,
Eu verto, eu vejo,
Mas lhe escapa.

Há que se querer o bastante
Assim livre... Mas desperto
Tal a insônia que concebe o dia novo
Quando o ontem ainda está tão perto.

Boa noite.

GATO DE BOTAS

Dias de chuva libertam sôfregas gotas contidas...
Mas naquela noite não choveu.
O céu criava aquele abismo típico de dia seguinte.
O parapeito disparava, propagando novas nuances da madrugada desafiadora.

Para diluir o desejo, uma boa dose de percepção do entorno é fatal...
E no instante restaurado de volúpia, o volume ardente da indiferença.
O peso de cada passo em falso afeiçoa aos mortais...
Ardiloso...

  ...
Era mais um pulo do gato
que se fazia refém de sair intacto
E de novo
Não com quem
Mas com alguém
Tanto faz qual é o gosto!

CONTO DE USINA

Era mais um sábado oco e irascível – nada promissor. Era um mesmo conceito amparado de velhas outras expectativas. Era aquela sensação inusitada de formigamento no juízo, de euforia entorpecida de solidão. Era um breve consolo de sobrevida, um suspiro assim... De resistência... Não aos mesmos traumas de "nunca", mas aos de agora.

 Ele vestia qualquer roupa para convencer-se de sua ausente ansiedade eminente – par de chinelos para parecer casual e despreocupado, para soar leve. Os óculos cativavam certa credibilidade, transmitiam a sobriedade que sua aparência frágil e franzina desacreditava nos outros e em si mesmo. “Tudo ao natural” era seu lema: não racionalizar a seqüência provável (ou não) de eventos.
Já era hora de ir.

Ela vestia verde para sinalizar sua esperançosa vestimenta de ousadia – nada literal. Cabulava o tempo respirando intervalos ausentes de conteúdo, permitia-se divagar naquela sensação absurdamente desconhecida de estar à espera... Os lados pareciam transita…

SOUVENIR

Olho perdido na esfera do quase...
Quase que encontrado no que distoa nunca.

Há de haver poema após a lira
Há de haver vívida
O quase-hora-nunca da vida.

Há de haver onde houvera dúvida
O que por fim na labuta
A certeza haverá,
Esquecida.

PRECISÃO

Ando precisando voar...
Voo livre, não queda brusca
Breve, sem breque no ar
Ultraleve que salve o peso das asas de poeta
Na lua onde a sombra repousa
O voo solo de artista.

PRECE

Livro...
Livrai-nos
do mau agouro da ignorância

Em cada ânsia de vesúvio
Livrai-nos do acúmulo
Que forja astuto
O estatuto que herege é santa!

O que não sangra o punho
Não vale o sonho do que estanca!

POEMA PLANADOR

Não canso de ver do alto
O ver_de que escapa por entre mãos ingratas
de neblina.

Não canso de ver do alto
A curva bárbara que se desfaz na rima!

POEMA DE EFEITO CERTO

Poema certo
É poema incompreendido
Passado batido
Em branco
pra baixo do pano varrido.

Poema certo
de certo
há de ser privativo.

Poema certo
de fato
é sem-vergonha...
De tanto crer no absurdo de que ninguém suponha seu substrato
Seu dado é exato e não exime o legado do que não raro sonha.

Poema certo
É o que vaga errado
Mas acerta na insônia.

ARTIFÍCIO

Articulado
Articulando
O colan do mulambo é a fronte
E até quando
Há de faltar o ar ao aspirante?

Aspartame só adoça
a sofreguidão que tolera
o não-gosto do instante!

Açúcar engorda
Mas só enche os olhos da gulodice.
Deguste com calma
O sabor não é vinho
Bem vindo, articule-se,
É arte, cure-se!

E basta de mais jogos de palavras infames!

Dai a fome ao homem não um nome!
Dai não ao homem e terá sua fome
Acredite.

SUJEITO OCULTO

Lá onde sai o sol
Saliva um súbito assalariado
Da dívida máxima da alma pequena.

Lá onde sai o sol
Saía o lume feito farol
No farfalhar das açucenas!

A sucessão é que rege o trauma
E equidistante não range o trema!

Lá onde sai o sol é monte
E há de sair Móises, o monge,
Por de trás deste poema!

POEMA ILUMINISTA

Não hei dizer do credo
Cruzes!
Eu, ao invés de abrandar ao clero
Divago no vulgo do verbo
E ergo-o sacro ao vão das luzes!

Não hei dizer do credo
Claro!
Se não me ouves!

Ouses dizer do que falo
E então far-se-ão em verso
As cores!

Não hei de dizer do cado
Enquanto não fores de fato iluminado
Na dúvida de teus outros amores!

AVARIA

Inverto o tempo
Afim de reverter a finitude a tempo
Não tardia!

A era da noite era dia
Essa noite vê se adia
E fica mais perto
Talvez amanhã bem cedo tenha nexo
E a noite sem dormir tenha medo!

Inverto a noite bem a tempo
E pareço não perecer se do ontem eu esqueço!

Eis a questão fundamental:
Eu inverto!
Escrever de baixo pra cima
Reza o texto!
E como diria a poetisa
Reviva!
Eis aqui o começo!

DE UM GRANDE POETA

NESSE ANO DE TANTAS UVAS
(à Natália Parreiras)

Modesta caverna é essa,
a caverna que habito
com meus filhos inspirações
Se agora tenho um travesseiro junto ao peito
é para nos proteger
dos raios nocivos
dessa engrenagem virtual
e das vespas que apenas nós vemos

Redescobrindo o pão, o trigo,
a trilha das colinas,
os furtivos gatos, os bosques amados,
os colibrís da infância

Piso no planeta, o planeta pisa em mim...
minha atmosfera
e a atmosfera dos dias de vento

Meus queridos,
calcemos as luvas das fábulas de Lafontaine,
risquemos mais que fósforos para aquecer
a pequena menina
de Hans Christian Andersen,
nessa noite calma,
nesse ano de tantas uvas

(Edu Planchêz)
http://www.eduplanchezpoesia.blogspot.com/

POEMA MASCOTE

Não enjoa, joaninha
Que tão logo pós-Joá
Fim do túnel chega já
E a Zuzu se foi sozinha!

Não enjoa, joaninha!
Seja for o que será
Faz a lira verdejar
Aço bruto em véu de mar
E assovia!

Não enjoa, joaninha
Se não podes bem voar
Ousa usar a ventania!

Não enjoa, joaninha!
Se aninha pra rimar
Pós o túnel céu virá
Voo teu e letra minha!

POEMA DE CADERNO

Fosse a cadência e não o inverno
Não haveria tal poema de caderno
Mas pés entrelaçados na coberta
Na vitrola a bossa que fora hipotética
A veranear na linha torta, mas do horizonte!

Houvesse amanhã
Não fosse ontem
Quiçá, porém, um ou outro titubear rouco em meu ouvido
Em verso trôpego ou em poema mais bonito
Não fosse um mero
Não fosse apenas mais um poema de caderno!

QUINZE PRAS NOVE

São 15 pras 9
Novenas versam vozes
a perambular resistência.

Instintos, quiçá, seriam nobres
Não fosse o 15 para o 9
Um rumar de outra ausência.

Veemente fito o relógio
No compasso alucinógeno
De cada minuto que me escorre.

De pouco minha esperança se recolhe
E de esperar em tempo ilógico
Renego o que há muito fito óbvio
Já são de fato 15 para as 9!

SEM MANGAS

Arregaço
Há regalos na vida
e não pedaços
Não arregalo os olhos
Mas firmo os passos
Há pesar na aguerrida
Que lhe suportam os ossos

O ofício!

O oficioso do fisco
É o fiasco do lírico
Aos vossos
Aos natos
Aos vícios!

Arregaço
Há regras nos lapsos
E elipses nos pífios páragrafos repetidos!

FIXAÇÃO PRIMEIRA (a chico buarque)

Litros vertem lidos
E eu bebo é da sede do desamparo
Pudera a língua lamber-me os livros
E infringir a lei
que vai do leite
Ao leito lábaro!

Se lavo a sede
Engasgo o ventre
E por merecer a vez do açoite
E por fazer do amor a noite
De peito em boca
Meu verso eu calo!

POEMA-DE-LEI (para meu pai)

Atento o Desatino
Assovia derramado
Seu suor em ser menino
A marcha é seu arrimo
Mas mancha o assoalho!

Atento o Desatino
Desafiou o tal vigário.

Atento o Desatino
Desatou-se em ser soldado
Incendiou-se no destino
Destinou-se a ser cedinho
Eis que vingou
Não virou fardo.

Atento o Desatino
Atenuou-se no ideário.

PONTO DE CORTE

O grande gesto poético
Está no porvir da palavra
Quando acende o sentido
No expresso milésimo de segundo
E se faísca tempo.

Não antes do verbete que se alastra
mas entre seu vigor e seu efeito,
entre o recuo e o traço feito
entre o peito aberto
e o que cede à adaga.

ATALHO

quebrantes
não sei se era o marquês
ou o abrantes
a abrandar em leis
não horizontes.

em mais quebrantes...
abarrotados são às seis
ao escapulir em vão xadrez
não aos xavantes!

índios... terra-índio-pedra clara!
e ao fim da passarela
a relva me desce
e é por ela que me aguarda...
que bom cheguei inda cá nela
que bom que da janela
o que eu vejo é a Barra.

JOGO DOS ERROS

cai o tango raivoso
a dor esvai caindo
recém-descoberto menestrel!

ao que vos jorra bem jovem
hei de parir o verso exposto
e hei de matar posto que é gosto!

suplícios são reais
ainda quem em bom jasmin!

com uma brisa no casulo de lusa
é perdiz a menina
tem a selva suave
e nos pés GARRINCHA.

vil perto, viu?
a avaria era mecânica
a nau tá exposta
e o chão tá mais perto...

e o xote a luz a ruir novas águas
se asa branca fosse partir
abria as asas.

(para errar com efeito e cometer os certos erros, consultemos: Dicionário Cravo Albin de MPB)

HIATO CRIATIVO

Aparelho
Aparato
Apartado
é seu botelho
enquanto dorme João
seu bedelho é ser do outro
O atrapalho!

Se conselho fosse bom
Se era honrado

Se o rato fosse Dom
Roer seria então
Um hiato.

ORLA

Ottorino
Laringo
Logista

A lógica maniqueísta que parasita tua sina
Pode ser a minha escrita
A minha língua
Ou a tua pista
A desnortear no Rio...
E eu "new"...
Hasta la vista!

ATEMPORAL

(Insone o som que te consome ganha asas e te ouve.Insone o que se cria é mais do homemE a fome agoniza no vasto vão do hojePorque insoneAinda era ontem.)

ESTRATAGEMA DO ESTRAGO

Implodido...
O pedido foi confundido no ato de ser concebido alheio.
Implodido se foi bem ao meio
Ao meio-termo do açoite boêmio!
Impedido de ser desbarateio
Barateado a custo zero
Ao gosto do que impero
Perpetuo bolero ao não do tango
- Tangenciado pelo acúmulo do contrabando -
Debando para o caos do preâmbulo...
O ângulo do escuso
Demolido, empoeirado
E o que prolifera é o hiato
É o terreno baldio
É o vazio
E o irresoluto não viu
O estrago.

PRESENTE DE GREGO

Crer é o caos da dúvida
Amém.Eu creio porque lavo minhas mãos E a água é santaPorque o que pranta é a foz do que me abocanhaTamanha a lenha do que me afoga,Eu torno a sobraÀ boca do que me acorda, lírica!
Eu creio é mais na dúvida No a sós do tempoNão na ininterrupta voz do sempreAo vendavar aos céus a súplica,Pois fim de vento quando não em tempestadeTermina no co(r)po ausenteE não pela metade.
Crer é o caos na dúvida Presente no ateu do que não sabe.
(a um sábio poeta e sua inacreditável composição em teia)

BEM-VINDO

E como houvesse de gangrenar
Sarou.
E a ausência cicatrizaria incólume
O resto esfacelado de tecido morto.

Era a cura
ACUDA!
A causa aquém da obtusa lauda
Não acalma nem assusta o bom aplauso que a saúda!

O dedo que a costura crua
Dá ponto sem dó na gota e abocanha o sedento
O dedo aponta o estrago
O déspota santifica o desejo!

Há déspotas rivais
E desejos de menos...

Há pouco que vai...
Bem-vindo não veio.

ADENDO

Teu olho é sangue
Sangria surrupiada do efêmero nato
Teu sangue é ato
Ator_doado
Doando-se em vão
Envaidecendo-se no dom do espetáculo.

Teu olho é um cado qualquer de pecado
Teu olho é o joule
O enjambre alojado
no Rembrandt enjaulado que jaz
no janeiro desajoujado dos justos!

Teu olho é o jubilo
O púlpito que em meu ímpeto se faz público
Teu olho é túrgido
Ungido assim do rugido do meu orgulho.
Teu olho é julho postergado no agosto do próprio esquecimento.
Esquece-te de mais,
Em teu olho contumaz, já é setembro!

REGISTRO DE PASSAGEM - uma exceção dirigida

Faz bem mais de um ano e ainda lembro de te ver parado,
Olhar perdido naquela imensidão de possibilidades,
Umas poucas malas e tanta coragem nas costas.

Ademais daquela porta,
Não me recordo das despedidas.
Talvez do nosso primeiro abraço de Déjà vu
Ou ainda de teu tom irritado de quando falávamos sobre tuas frustrações e ausências múltiplas
Do ressoar da angústia de tuas idas em mais estações de reticência...

Pois é...
Vagaram até descarrilhar as tuas premissas de ordem,
De suspensão inusitada de direitos,
Estas mesmas que inspiram meu deleite conceitual sobre nosso amor paradoxal e esteticamente imperfeito.
É sim,
Foi sim,
Amor.
Ainda que sendo assim
Do que sem tal direito.

RIO PRÉ-MEDITADO

O punho prevê a reticência do submeter-se
Inclina-se ao bom grado das proposições obscenas de meus tantos circuitos de alma espiralada e de sangue contido...

Vertido
Ter tido
Sangue
Ainda que não o tenha sabido ao cedê-la,
Pedida
Pedido me foi ao perdê-la!

O punho que te pragueja
E apedreja
Repousa em teu mito e sucumbe às leis de teu universo imaculado
Em tantas letras de sacros e imperfeitos risos
Eu Rio... Apenas.
Não ladro.

BRINDE AO PÓSTUMO

Eis que a hipocrisia brinda
À hipotética estratosfera dos vastos instintos de destruição.

O brinde pode engasgar e amortecer a garganta se seu gosto é sóbrio.
Mas bêbado, brinda ao inútil do próprio gole de prostração.
Então brinde, meu caro!
Deguste a antropofagia saborosa de todos os teus órgãos inutilizados,
De teus todos ofícios abdicados pela insuportável face da dor inevitável da VIDA!

Beba, engula cada golpe de auto-intermitência,
E abstinente, assista ao dolo silencioso e fatal do teu eu.

Brinde, mas brinde livre do desejo de digerir-se alheio.
Deguste, sinta o sabor de cada palavra que me ofereceu em vão...

E nos sentemos juntos à mesa agradados do “gran finale”
Na quebra das taças e das promessas aguardadas
Em cada gole dos dias que de tão acreditados
Já se foram nossos.

POEMA INTER_MINADO

A poemática diverte-se burocrática no acaso dos termos
E acasala-se no mau-agouro do sentido, vívida!

Se parar adormeço
Desfalecida,
Acendo as cortinas da ante-sala de minha solidão
Imóvel,
Acordo presa ao limite do lúdico
- Real eixo adjacente-

E morro ali... E mil vezes me morro ali.

PRÓ-CRIAÇÃO

Acabo de morrer
E nesse instante acabo de restituir-me de minha morte.
Pedras tantas declarei incólumes
Tal o cúmulo de falecer em ventre
Tal a sorte de prescrever a gênese
Não um vulto a conceber o mote.

OUTRA

Pérolas balbuciadas
Em ostras aladas
Tamanho o ostracismo
Que rói dadaísta
A nau que naufrague e não perca de vista
O não que não age
O vão que não rege
O mal de ser quista.

RÉSTIA

O vago governa o vernáculo do carma
- Morena –
O vago verbaliza ter dado
Em vasto verbete e velado
O lábaro joguete e o dardo
O vago que esconde o escravo
É o vago que agora gangrena!

O vago agoniza-se alado
O vago envaidece o estrago
O vago depõe dor pequena
O vago vagou o vazado
O vago versou um vassalo
Respaldo...
Restou o poema!

CÁLICE - como jamais diria Chico

As palavras entre nós ocupam lugares desnecessários, roubam gestos, os precipitam.
Palavras entre nós são como foices a serviço do inquirir da alma,
A enunciação da angústia que poderia ser abstraída.
Palavras entre nós verbalizam nossos sonhos imaginados em teor desconstruído,
Abortam possibilidades de ganho, de tamanho, de futuro.
Palavras entre nós são divisões silábicas de afeto, são elucubrações do espontâneo,
São desconfigurações do simbólico trazido cru em torno de um real frustrado.

Palavras estão entre nós.

Mas nós estamos entre elas e o silêncio de uma nova possibilidade...
A de relevar e seguir adiante antes do ato,
Antes desse ato impiedoso de palavra!


"... Mais um gole, que com gás, as entrelinhas podem borbulhar a vontade!"

GESTAÇÃO

Silencia o verbo na instância clarividente do olho.
SIMPLES.
E o olhar arrebanha o que era um tanto de verso
Dentre a causa e o caos
O excesso.

E o olho verbaliza o convexo
Com a convicção de que só a si silencia o léxico
Mas toxi-cronologicamente imerso no olho
No teu olho
Eu silencio o joio
E de resto, eu gesto
Assim SIMPLES,
O in_verso.

ALFORRIA

Livrei a dádiva da maldição de acometer-se de amor.
Pobre e vã!

Mas a ponta da saia estava amarrada ao pé da cadeira de balanço sob o pé de abissal.

SAUVIGNON

Olho de raio que coube no hilário esperanto
À espera do espanto de regojizar suas teóricas teias-ilíadas!
Olho de trovão bem nas sílabas transversas
Do teu desconexo abandono
Do teu inquieto e com sono
Consolo de seresta e intriga.

Olho de cão bem às vésperas
Olho no vão e ver nesta
Viverão mais promessas e o bom Sauvignon que nos resta...

É a lida.

A POÉTICA E O TEMPO DO INTRANSFERÍVEL

Ainda que eu tenha a noção do quanto o tempo é de fato irrevogável
Encontro-me comigo em intervalos intermináveis
No silêncio absoluto do que resto sempre.

A contradição é o ser...
Atemporal, me forjo de princípio a arrefecer a dura queda do que cala... E passa.
Perecível, pareço germinar a cólera dos que sobrevivem
E vou de_compondo-me...
Dando-me ao arroubo do que emerge letra.

Se fico ou se hei de ficar é porque livre,
- Matéria sóbria -
Apanho o pulsar do que estanca,
Do que louca, sou capaz de parar com os olhos,
Firmar no punho e acontecer nova e vívida de novo
Não na minha,
Mas na toda mesma poesia do hoje,
Sempre.

TRANS_LÚCIDA

Transparecer
a liquidez
da dúvida
umidifica o caos
De certo. (deserto)

Água para mal de parto
Para Mal de Parkinson
Para mal de pais ou país
Pára!

Mais um gole
Que com gás
As entrelinhas podem borbulhar à vontade.

MORDAÇA

Curto a estória dos homens
Como a prolongar a efemeridade que os compadece.
Arrebanho todos e desato vossa boca
Salvadores dali são atos da bancarrota
Não salvos-condutos a abonar mais hereges.

AFAGO NA LIRA

Eu hei de errar
E cair
Até o poço dos pés
arrefecer
E se for de doer
que desdobre
A poesia, irmão
É aquele tropeço sôfrego
Safado
É um laço no ego
É o pescoço encerrado
de mágoa
E excesso.

Por isso escorro da santa à puta
Penduro a afronta nas ancas
E hasteio-as juntas na luta!

Sequer julgo as condutas
Sequer conduzo-as tão lúcidas...

O tombo principia a forca e o berço
Nos pés mais amarras de aço
Do poço a síntese do beijo.

PÃO-DE-PEDRA

Sinto cheiro de fistulas
Farejo implícitas chagas de tempo.
Me ponho em termos boêmios
Que extrapolam rebelde linhagem.
Me faço às margens
Não decodifico o engenho!
E o que reverbera é beira
É pé na pinha d’água
E na calçada em que o pé afunda é meu poema.
Chão de pedra
Pão de brita
Miolos ao asfalto
Às faltas com a escrita.

SOBREVÔO

Curioso como o ser humano apodera-se da metáfora...
Cá estou a prevaricar a gravidade incrível que dá asas a este pássaro de aço
Que sobre_ passa e não fica
Tal qual a poesia que gera à estática!

SINTAGMA

Irrompo na ilusão de fluir
Libidinosa
Defloro autos, outros e pratico a livre forma
Ao matar a lógica do verso que incrimina
A láurea da mutilação óbvio-comportada.

Devoro-me enjambres burlescos
Tambores são preços
a pagar bem em hora
No batuque de meu verso
no lume que sossobra
e não sossega
Hei de ser nova velha
Não de ser boa obra!

LITURGIA

Reinvidicai, ó cegos
O odor da palavra
Pois é de enxofre e esperança
Que ressoam vossos cultos
Não em vão nas parábolas!

MARCO

O marco
era o zero
à esquerda da prerrogativa existência

Ainda que de valido eu leve
A dádiva de simbiose de minha flâmula
- estagnação –
Eu elevo meu verso ao pulso
E encaro a próspera noviça em clérigo sibilante
Sedenta por zerar a lucidez da cidade das águas
Imersa na lentidão das luzes temperadas de saudade
Dos velhos dias de lá.

Ô meu Recife
Bem que te disse
Que eu ia voltar.

POEMA DE BERÇO

Aqui é o único lugar que me pertence
Aqui coexisto com o caos da dádiva
Da dúvida
E sobrevivo.

Aqui não renuncio à escolha
Moldo vocábulos ao sabor da pronúncia
E não dos ditos
Aqui a separação de corpos é simbiótica
E o simbólico é o que faz sentido
A mim enquanto garganta
A mim enquanto semântica subjugada a restos mortais.

A réstia é a massa quântica
E o logrado a linha pronta
Aqui o que me desponta
É o que jaz.

Aqui, um subúrbio decodificado em agentes da passiva
Aqui, um passional da imunoeficiência adquirida
Aqui, o murmúrio de clarividência
Veia-tríplice-traída
Aqui, a delícia estreita que habita
O ato ininterrupto da lira e do gozo
Aqui, o subúrbio intra-uterino
Que onde nasce, MORRO!

TERRA À VISTA

A lira difundiu na terra de São Tomé
O livre-arbítrio de um tal José qualquer sem patrocínio.
E foi tanto mote independente
Que ao acaso calhou-se de colher rima boa
No descrédito da escolha de render a nau aos índios

Não à coroa.

POEMA-ÂNCORA

É tanto poeta que breca a proa da beira
Que acaso o pé de acrobata se afunde na barca aquém da trincheira,
Não há certeza a salvo que não naufrague no ato de pisar na areia.

LEI SECA

Perigo!
Aqui o que irriga o poema me irrita
E eu, leiga
Confundo o findo com o lindo doído
Do que resta de mim e não da letra
Do que violenta,
Abusa-me inteira por meios escusos
Por fim, que não se justificam nem ao meio
Nem o meio
Nem o meu meio,
Grita.
Perigo!
Há seca à vista.

SÊ MEADO

Entre Rios poluo...
Mãos de luva a apodrecer sementes.
Se a margem espia em teu conluio fundo
Encontro-me rasa ao te banhar correntes.
Se de fluente cravo em teu mergulho o rumo
Melhor te tenho bravo a percorrer mais gente.

DERIVA

Se pudesse conter em minhas mãos o sal
Saudaria o adeus no abismo de vento...

Pena não ter dedos, nem braços, nem naus
Só o abismo de sal
A navegar-temporal
O saudosismo do tempo.

ALVO-ALÍVIO

Hoje não respiro a flor do meu cortejo
Mas irrigo o fôlego de meu tiro perfeito
- E cínico –
Não-lírico de absinto
E próspero de percevejo...

Alvejantes desbotam a roupa suja
Tamanha cara mal-lavada.

Des_bote.

POEMA INTERINO

Meu filho foi coagido por meu útero
Inutilizado no último circuito curto
Meu filho esbaforido
Deu o último trago em meu ventre confundido de mercúrio...
E sangrou como tido escasso
E sanou como um tiro em falso
A alvejar em gesto o que me seria orgulho.

Meu filho a sós foi parido vivo, mas era só véspera de meu futuro.

TRANSCENDENTE

Havia tempos o instante não era engolido pelo compasso da hora certa.
A calma a mastigar os olhos
A pressa a lamber os lábios
Represada pelo eixo-tranquilizante do durante
E não pelo direito de ir adiante
Mas pelo que resta à vida advir do saldo.

A VOLTA DE GENI

Se meu é o teu
É coro
A couraça envelhece a cachaça
Mas não o fogo
E até onde me for teu
É não do outro
Porque é no teu olho que a voz embriaga
Não no pescoço
E eu te ouço como a calhar de ser mulher
- E não de osso –
Dessa costela tua que ergo grito
E eu admito
Que mera espera estúpida fora aquela
Que era tua
Se nunca se fora nela
O que era meu desse Seu Chico.

AMBI-VALENTE

Há dias em que odeio meus poemas
-Outros nem tanto-
Há dias em que amaldiçoou cada emoção que me rasgam, escritos.
E nesses sou gente.

Qualquer colóquio de dor me impõe, humana
E sangro o desuso da escolha
Pela não-optativa da poeta.

Me sou o que não basta
Não obstante, sou limítrofe.
Sou tudo o que repercute e cala
Sou o equívoco da raiva
Sou o fantoche maior da ilusão do ser...

Eu,
Sou a crise.

POEMA COITADO

Pobre rimas a mercê
E não mecenas
Pobres letras lendo ao tema
- Analfabetas –
A decodificar anagramas e morfemas de intermitência e de estética!

O caos dita a monofásica essência do drama
Poemas estrangulam suas membranas
Sudoríparas entranhas a transpirar o engasgo do coito.

Coitadas palavras gestadas em ventre-espasmo
Ao não conceber ao vocábulo
A instância máxima da variante
E tão vasta cor de Dante
Ao só distrair do estrago!

Pobre poema coitado
Aos gozos do açoite
Servil e não foice
Foi como o poeta acabou-se
Nasceu foi do seu e não pôde
Merecer o que falo.

LIQUIDEZ CARMIM

É tarde
E no vazio do copo perambulo sonolenta
Como o caos a me embeber tão lento
E então a letra!

Dou um gole na água santa
E rogo às outras putas a minha sede
- O meu engasgo-coldre –
Arma pronta a explodir miolos em vão!

E o pão
Mastigo intermitente
E temo – o cano entre os dentes –
Engolir o estilhaço de meus festins todos...

Boca pra fora
Fora da boca
Os ossos no espelho não desfocam o olhar do outro,
Nem da louca!

E eu espero, abençoada
A anágua e a dádiva do esmero
Por entre a dúvida, me ponho absoluta
Solúvel na liquidez afônica
Da rubra blusa e não carmim.

É ácido-base e não festim!
E tenho dito, eu alvo-aliviado
O que vinga não vem do a salvo
Mas advém do que sangra em mim!

ININHADA

Li bruscas andorinhas
Adornadas ao juízo de minha escuta
- desdobrável me escondia –
E ela avoava tal astuta
Eu que em “si” não me cabia
Ouvia a danada da labuta
Se desdobrar... Em andorinha!