terça-feira, 28 de março de 2017

SINTONIA FINA

Ao meu amor
Mudo
Os sons graves no estetoscópio
O levante em arco dos pássaros
- Em bando -
Narrando em sons miúdos
O voo livre que há no ócio.

Ao meu amor
Mudo
A ligeireza singela dos pingos de chuva
O som evaporado em estado de nuvem
Que ninguém mais escuta.

Ao meu amor
Mudo
A cadência dos passos
Que o aguardam na varanda
E o volume de meus abraços
Que trazem beijos na garganta.

Ao meu amor
Mudo
A infância,
A agudez experienciada
Na fé das crianças,
E as vozes em voo de águia
Quando do balanço
Suas mãos forem a alavanca.

Ao meu amor
Mudo
A veemência metalizada
Dos sons do vento
A brisa bem breve
Das forças dadas
Pelo caminho que nos cria
O tempo.

Ao meu amor
Mudo
O silêncio,
O mais sereno dos contraltos:
Mesmo que em tons mais baixos
Há o luzir de seus passos, lentos.

Ao meu amor
Mudo
Meus vultos no espelho,
E meus poemas
- Todos -
Sem lei, de aço

A cadência dos versos
Que nele encontram
A cor dos sonhos
- Quando me deito -
A luz dos olhos
Quando acordado.

(08/03/17 - 19:50)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A SINTONIA DO SILÊNCIO NO CAOS DO MUNDO

O que te faz sentir vivo?
O que, potencialmente,
Torna a tua existência viável,
Mesmo diante de toda e qualquer perda?

O teu ofício, a tua arte:
Ela é o motor e o combustível de cada sonho,
Das realizações que alcanças pelo caminho.

É o teu altar de equilíbrio
Tua prece de loucura
Tua instância mais pura
Quiçá, a única libertadora.

Mas para seguir acessando essa dimensão
Para que extraia dela e de si
O aparato que o mundo precisa
Para além da tua força criadora
E artística,
É preciso equalizar o ruído da roda do mundo com a do próprio peito
A ponto de silenciar o caos em movimento.

O caos continuará ali
Em golpes de imagem
Exercendo a atração exata
Para degenerar a força reparadora
De cada um dos teus dons...

Mas tu não ouvirás nada
E assim tua mente terá a concentração necessária para trilhar o percurso
Por sobre o que os teus olhos não alcançam.

A cada verso
A cada acorde
A vibração criadora
Sacudirá os tronos e as masmorras,
E a tua voz,
Será dona da mensagem e da honra:

Exerce o teu poder de perceber
O que há por trás das sombras,
Mas deixa a luz do sol
Ser a bússola
Para que, e só então,
Busques em terra nova
A tua palavra, pronta.

(06/02/2017 - 04:46)

domingo, 1 de janeiro de 2017

TERRA DO SOL

Eu vi...
Teus olhos me atravessaram
Como no princípio

Mas não era rastro de fogo,
Foco de incêndio inflamando
O céu em fogos de artifício...

Era a chama mais íntima
De um fósforo
Que estivera a espera
Pela faísca mais exata
- E precisa -
A combustão espontânea
Prestes a se alastrar dos olhos
Para o além espaço e sem medida.

Eu sei...
Teus olhos sequer piscaram
Não desviaram um segundo sequer
Dos meus lábios
Foi como se me beijasse a boca
E tirasse de mim cada palavra
- inda sílaba -
Me oferecendo nos braços
O laço exato do aconchego
Que chegaria,
- apenas e a tempo -
Com a tua vinda.

E sequer tive medo
Sequer raciocinei
Ou criei expectativas...

Foi como se finalmente
- Das cinzas -
Todas as minhas instâncias
- Poesia e Poeta -
Estivessem renascidas.

Eu vi:
O fósforo
Teus olhos

A faísca.

RECEPTIVO

Você ouviu o céu
Versejando luzes
E trovões
Por tua chegada?

A lua, mesmo assustada
Brilhou ainda mais alta e plena
E o poema
Me foi a única resposta possível

Você chegou
E veio rasgando o meu nome
A minha certeza
O meu pedaço mais revirado

E nem pude sentir os teus braços
Ou fazê-los de abrigo
A certeza antes tão longínqua
- e solitária -
atravessou o tempo, o medo
- e o risco da estrada -

Para ser esta linha
- de chegada -
Contigo.
(20/03/16)

POEMA DE PALETA

É tão pouco
O claro
Do que enxergo
- Imenso -
Fosse a dimensão
Mera questão de colorir
- O vento -
No inverno,
E em silêncio.

Sou preta
Azul púrpura
E rosa acetinado

Sou fúcsia
Cor de abóbora
E violeta...

Sou laranja
Verde musgo
E também sou chumbo
Se me deseja...

Mas sou cor de fundo
Se me decora
Em tua letra.
(21/03/16)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

AMOR REMOTO

Apaga a luz
E assiste
Ao tempo
Clarear o vulto
Dos meus olhos

É no lapso dos outros
Sentidos
Que se ouve o pulsar permanente
Do que é sóbrio
E do que é sombrio

Guarda a sede
Cronometrada no silêncio,
Engole seco
A saliva
E deixa extinguir
O fóssil frágil
De voz primitiva

Deixa de habitar nau à deriva
E te atira
Ao mar

Esquece do chão
E da sensação de terra firme
Acostuma o teu olhar
Ao sol de vime
E as tuas pernas
À correnteza...

Apóia o medo na tormenta seca
E sobrevive,
Sem precisar de qualquer certeza:

Na imprecisão do mar
Só há que se duvidar
De maré certeira.
(04/08/15)

SOBRE DONS E RESGATES

Há versos
Que atravessam rios
Caminham sedes sobre as águas

Mas se desfeitas as metáforas
- São vazio -

E o poeta,
O leme
Que os resgata.
(13/03/16)

FORTE DAS CINCO PONTAS

Talvez
Para Marte

A lua seja
- Apenas -

A mais densa
Estrela.
(03/08/15)

ASTRONAUTA

O sol
Inventou
O vento
Para voar
Na terra
E ainda (re)pousar
Nos céus.
(04/08/15)

ESTAÇÕES DE PAPEL

Não me leve
Tão a sério, por favor
Minhas palavras não chegam
Para pesar teus olhos...

Não.
Quero que guarde contigo
E em ti
O meu desejo de vida longa
Feito nas mãos do teu sorriso
A nitidez constrangedora
E a liberdade serena
Que só os teus versos
Acesos na voz presa
Creem comigo.

Em tudo por onde arde
Há princípio
Meu verso
Não é vicio
Não é virtude
Metamorfose ou risco.

Meu verso
É víscera,
Metabolismo simples
Cruel e convicto.

Não.
Não deixa apressar o entendimento
Sem antes enxugar minhas palavras
Do que eu tão profundamente
Ainda desconheço

Não pensa no que sinto
Pelo avesso
Mas enfrenta o espelho
E procura nos teus olhos
A fé de fevereiro
Sem dias santos
Sem teus tantos planos,
De oceanos
O mar está cheio.

Esvazia essa razão
Tão voraz
Que me rapta e mastiga
Os beijos que ainda posso dar
Desde que escrita
A língua esteja
E eu, sozinha.

Fulmina o raio verdejante
Da espera
Rasga a cor do tempo
Que de tão teimoso
Irrompe o gosto da primavera
E seca
A estrela
É estréia...
Nem toda lua é cheia
Nem todo amor que já se foi
Então já era.
(11/08/15)

MORFOLOGIA

Ondas
De transmissão
Vorazes
Sussurram-me ao pé do ouvido:
Não fujo.

Sou antena,
Para-raios
E antígeno,
Genuinamente abrasivo.
(02/09/15)

DA PRIMAVERA E DAS PRECIPITAÇÕES

Hoje
Um temporal
Contou-me
De previsões:

De como acha graça
dos que pensam
ser probabilidade
a precipitação,
E fenômeno
O curso natural
Do que é invisível.

Não me vejo
Pois o sentido que aguça
Minha sobrevivência
É a percepção do entorno:
Sou tantos
- E por muito pouco -
Nem sequer teria início.

Os que atravessam
Minha inquietude
Encontram-me em precipícios

- Não em vozes de virtude -
Mas erguida e firme
A cada tropeço.
(20/09/15)

DEPOIS DA CURVA

A sensação
é de um grande
e profundo
engasgo:
daqueles que permitem
A respiração
Apenas o suficiente
Para deixar sobreviver.

Não sofro de nada.
Sofro em mim
Tudo o que esqueço
para conseguir dormir,
E sigo acordada.

O sol visita as pálpebras
Com misericórdia,
mas sou bicho
e não reconheço como fé
O que é
Instinto.

A memória engole
Subtítulos
E, sem titubear,
Recria saudades
Das mais irremediáveis.

Não é triste
Mas vasto,
- o ofício -
Mesmo quando cabisbaixo
Guarda em si
Dignidade.

Há um curso
Para os olhos
Do pecado
Ou será que se perdem
Quando os meus olhos
Te acham?
(12/01/16)

METALINGUAGEM

A língua
Contorna o poder
Com elegância
E decisão
Em rota hábil
E precisa.

Seu vocabulário
Não insinua
Porque diz a quem quer que ouça
Sem termos intermediários
Sem cláusula, contrato firmado
Ou firma reconhecida.

A língua ousa ser direta
Pois assim prefere
- Ser lânguida -
E no prazer, ser lida.
(20/03/16)

FENÔMENO

Porque você tem as palavras
Mais limpas
Sempre expostas no varal
Até evaporar cada gota
- De dúvida -
E a poesia ficar pronta
Pra que eu possa recolhê-la,
Enxuta.

SOPRO VIVO

Faz tempo,
A minha poesia não respira
Sozinha...

Quer dizer,
Fazia.

Agora, além de respirar
Ela suspira.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

DESFILADEIRO

Hoje
Meu coração parou
E faltou-me o ar
A provisão mínima
De sobrevivência
Sem ti.

Tudo revelou-se
Deserto
E tão íntimo
Quanto a fonte
Inesgotável
De calor que queima
Minha pele
Quando te vejo
Ao vago.

Tua hora
Paralisa os ponteiros
Do meu destino
E pereço-me era
A reaver espécimes 
 - extintos -

Me pega no colo
E me leva pra longe
Pra onde meus olhos
Sequer precisam ver
E eu preciso
Apenas ser
Tua.

Olha bem teus olhos
Naquele espelho
E vê a minha loucura
Minha timidez devassada
E tudo teu meu
E eu em ti.

Eu creio
No dia
Que aponta
O horizonte
Das tuas palavras
Logo rítmicas...
 
E te escrevo
Outra carta
Quiçá de amor
Quiçá de despedida.

...

Vistes?
Vou por aqui,
Por enquanto.

E tu?
Quando? 
(05/03/14)

ANTEPOSTO

Há quem redescubra o céu
Por entre limites
De vertigem profunda
Há quem dispare o peito
Arranque o fôlego
Apenas para demonstrar
Que a aridez dos dias sombrios
Jamais sufocará a bravura
De quem ousa sobreviver
Aos abismos.

Há quem embale o medo
Nos olhos
E ponha pra dormir o temor
Do dia seguinte
Há quem desperte na língua
O gosto atenuante
Da liberdade
Há quem esfregue os lábios
Com a ternura descompassada
De um beijo roubado
E esbaforido
Há quem rapte de mão beijada
A ausência que antes fora digna
Do infinito.

SANTO CORPO

Meu papel é teu corpo
Sempre disposto
Cúmplice e acelerado
Ao disparar
De minhas palavras mais honestas
Aos teus impulsos
Mais alterados.

Meu papel é a tua respiração
Lenta ou descompassada
E a tua voz em meus ouvidos
E as minhas mãos em tuas costas.

Meu papel é o teu desejo
Em meu tempo,
- sempre uma incógnita -
No anseio infinito
Por tuas respostas.
(01/07/14)

ENCONTRO DAS ÁGUAS

Sentou-se à beira do rio
E para seu espanto
Não fora reflexo
o que viu.

Não fora a lua
Espelhada n'água parada
E funda,
Nem a noite,
Esse véu de luzes
Sustentando cada estrela

Não fora imagem
- Mas fora poema -
A desconstrução silenciosa
Do medo
Evaporando-se às margens
Da lua cheia.

Duvidou.
Ergueu a coragem,
Aquela rocha enorme e quebradiça
E arremessou
Na água, a dúvida.

Pedra é palavra breve
- não raro afunda -

O poema
- se for de amor -
É como chuva:

A gota desce
Feito miragem vinda do céu
E me procura.
(20/04/16)

DELAÇÃO REPATRIADA (E DESPATRIADA)

Brasília,
- não é de hoje -
amanhece magoada:

Seus campos urgem cor de terra
- Seca -
o azul surge num céu que parece beira
- mas não é água -
É a umidade que guarda-se
Para não ser lavada a seco
Nem evaporada a jato
Por onde passa
- Ou se arrebenta -
Por queda de força
Ou de represa.

Por entre os arbustos
Os seus planos tão cheios de asas
Preferem o longo percurso do chão ardendo em brasa e areia:
A vista que se tem do verde
É só a da bandeira
Como oásis no deserto.

Ordem e progresso
E as estrelas do Cruzeiro do Sul
Desnorteadas
- E não é de hoje -
Não é plano, o desgoverno
Há a relevância de décadas
Da mísera fome do brasileiro
E do fastio de promessas
- de cuecas -
Cheias de dinheiro.

Caêtando
(pausa)
Jogo de poderes podres
Pobres perderem podem
- o que sequer tem -
Em posse dos que apodrecem
Em ignóbeis causas.

E não é de hoje...

Não há santos
Nem falsos guerreiros
Há o desespero e a sintática
Que a esplanada dos "mistérios"
Há tantos anos reverbera
Como ameaça.

Brasília
Essa ilha do distrito
Destituída como marco de concepção
Para ser cetro
Ora em mãos de delírio
Ora em choque de razão
De amorais da própria didática.

Era pra ser o novo berço
Era pra ser o braço forte
Não era para ser a escrava
Da nova era
- o seu escroque -

Se me comovo
É porque o povo que representa
- à penas pulsa -

Brasília, não é bastilha
É filha de uma mãe parida
- "indigente" -
Expulsa de seu ventre de fome vazia
Como miséria.
(

ENFRENTAMENTO

Não é por ter medo
Que perco
A coragem.
(07/04/16)

POEMA DE FÉ

Ser mulher
Neste mundo
É perpetuar-se
Sem deus.
(17/11/15)

DONO DA LUZ

O tempo todo
Era você:
A sua voz
O seu olhar
A proteção do seu coração
Maciço
E precioso.

Era você
- Muito antes do outono -
Guardando bem entre as mãos
A gentileza do vento em cada sopro,
Carregando a fé imensa como dom
Pendurada no pescoço.

Era você...
Ali, pra mim
- o tempo todo -

Mas o medo,
- Calabouço de toda pretensa coragem
Por vezes congela as pálpebras
Em acrobacias baratas
Que sequer sustentam a verdade.

Não há malabarismo que disfarce
O coração que bate sem pulso nobre,
Não há silêncio que se compare
À voz radiante que se descobre
Quando do cárcere da ilusão
Ela se liberta em volume.

E como não há verso sábio
Sem o apuro frágil de seu curtume,
- Agora eu sei -
Não há poeta nem pulso claro
Sem a luz e o amparo raro do Vagalume.
(26/05/16)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

DI(A)LETO

Não importa o quanto
Escondas
O teu rosto
Ou enfeite a pele
Com as cores da irreverência.

Sei de teus olhos
- Escudos -
Do que segura entre as mãos
Quando fecha teus punhos
O que te desperta, pleno
Na madrugada
Insone.

Não,
Tua saudade não escorre
- Relampeja -
São segundos
Repartidos à milionésima parte
Dos teus sentidos...

Só percebe quem beija teus olhos
De palavra
E, minuciosamente,
Sabe lamber-te o juízo. 
(11/07/2014)

FULL GAS

Tudo em você
Tem o dom da provocação,
A irreverência desconcertante
De quem pinta em si
- O sete -
E mais,
Para brincar com os jogos de azar
E ser um sujeito de sorte, afinal.

Tudo em você
É "full gás"
Mas se fosse a Marina,
Da lima
Você faria uma limonada suíça
Amarga e marcante
Como um arrependimento
Do que valeu a pena.

É embebido na dose dos segredos
Que você satiriza a lógica
Com cada verdade devassa
E mentira honrosa,
Para gozar em conflito
de impulsividade magistral
E exata
- Não exposta -
De teus perigos.

- Não, não é sangue de barata -
Pra correr no teu corpo
Tem que ser veneno caro
E fatal
Mas deixar ressuscitar
antes do terceiro dia.

O medo é o instante
Que conduz o timming
da tua ousadia rítmica,
A tua língua ferina
Tem a mais fina poesia viva
E sabores de mundo
Ricos
Mundanos
Munidos
Dos murmúrios do vazio
Da vazão
Da deliciosa e tímida
Gentileza voraz
Que de tanto negar
Te legitima.

Tua menina
É da água do mar
Que brada aos ventos
Tempestade
Mas tu é o senhor
Da vontade
Proibida
Fênix
Em combustão
Contínua.

Agora para
De querer mover o mundo
Sem causar ânsia
Em quem pensa estar
De cabeça para baixo.

O lapso
Aos óbvios
Alucina,
Aos fracos,
Causa embaraço.
(14/09/2014)

DAS LIMITAÇÕES E DA POESIA

Que a tua única droga
Seja a impermanência:
A que pulsas
- Bem dentro de mim -
E teu único delírio
O gosto salgado
A relampejar o pensamento
Quando me tiveres só tua.

Que a substância da saudade
Seja o único alucinógeno
A corroborar no arrepio
Do reencontro...

Que da tua boca
A minha possa beijar a sede
- Da busca -
Das tantas noites adormecidas
E  em espera absoluta.

Que a faísca seja sempre
- Quimera -
A primeira a lamber nossos corpos
E a libertar nossas mentes
De tudo o que for desacato
À confusão de nossas pernas.

Que da tua natureza
Se faça a fonte
E da minha, a selva

Que o teu instinto
Aguarde a febre e a fissura
De quem se entrega, insone
Mas que adormece em transe
Quando a proximidade da noite
Se revela.
(27/02/2015)

TRABALHO DE PACTO

Eu sou um raio
A proximidade cortante
O que rasga o instante
Um verbo em trabalho de parto,
Natural,
- Coroando -
Eu sou o rebento
E sou o rebanho
Eu me banho no sangue
E antes que o verso estanque
Eu amputo, 
Eu expulso
- o corpo maduro -
Não há instrumento cirúrgico
Não obstante,
O bisturi é meu pulso.
Só há bem
Não há mal que me queira,
E a cada arrancar de pétalas
Evoco a estética
Do amparo.
Esbaforida,
Sou parida ao avesso
Em cada verso,
Que ora atravessa-me as vértebras,
Ora recebe-me em seus braços. 
(23/08/15)

POEMA ESPACIAL

Há um esvaziamento
Do sol
Em rastros luminosos...

O cosmos
Opaco,
É o contraste com o passado
Essa esfera incandescente
De sorrisos.

Vultos operam milagres
Em raras presenças
- Sem expectativa -

A saudade
ainda encontra teus olhos
Em tempo de aeronaves
Na mesma galáxia
- Tão próspera -
Mas perdida.
(02/11/2015)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SONATA DE ANIVERSÁRIO PRESENTIFICADA

Três quartos de madrugada
Plena e encerrada
Na lua que escorro em teu pescoço
Quase que se em mim deixasse o gosto
O teu exasperado hálito de mala pronta
E eu a abarcar em tantas contas de tédio, resultados
Olhando em teu pleito o feito abafado...
Não era de ser ausente
O meu presente de aniversário...

E de fato não o foi
Estava ali
Em cada recorte de vontade
Em cada fuso de nada
No desencontro há só o encontro e um basta...

Que bobagem
A eternidade é um efeito negligente da abstinência
E eu que sempre te soube
Nem frio
Nem estio
Só miragem
Te escorro em saudade tão endêmica
Quanto a cadência exata daquela ausência
Em liberdade.

Telepatias não mais servem às nossas resmas documentadas
Em cada verso só encontro a ávida liturgia do que se cala
Uma simples pólvora intranqüila e controversa
- Há de te ser em mim o que resta -
Hei de te ser o que me for
E eu não tenho pressa.
(10/07/2010)

SANTO DE LIRA

Santo.
Prometi não maldizer-te o nome em vão
Mas se ergo nos braços os raios em imensidão
Como não regozijar-me no vão sacro dos homens bons?

Porque quando me olhas então
Afundas na fé lúdica e livra-te de minhas mãos
E não leva-me em tuas bençãos
E não serve-me em teus anseios?

Rezo a acontecer-te em mais silêncios
E quando é óstia o que recebo
- Mastigo -
A degustar teus sacrifícios desatentos.

Diz o tempo
- Esfera etérea além- fora-do-eixo -
Que relógios devotam seus ponteiros
Aos teus recessos tão caóticos e desordeiros.

Como ousas me elevar ao altar do imenso
Sem ao menos adentrar em meu ilógico devassar
Em não-extensos?

Por isso te escrevo, ó Santo de delírio
E é para quem rezo forte
Meu norte são teus medos
Teus meios são meu mote!

Anote!
Pois é de crer que ergue-se esta lira
Em suave sopro de impacto lento
Em remoto controle do que rege o firmamento.

Firmo o pensamento
Pois é vida o que se esconde por trás do monge
- Imagino o magenta dos teus montes -
Equiparados ao longe
Dos comensais da morte no horizonte.

Santo!
A lira é teu nome
Que calo em oferenda sábia e nada sacra
Sem maldizer o que a fé esconde na palavra!

Escuta
Eu venho do mar que se ilumina
Na fonte das sombras e sem ressalvas
Eu sou teu resgate pronto
A confundir o bem das tuas causas
- Eu sou a pausa -
A tímida (e absurda) regalia que mal te basta.

Eu sou a fé descalça
A caminhar apta por sobre a brasa
E como já dizia a lauda
Onde há fé, há fumaça
Por isso rogo aos céus
Que inda me chovam tuas graças!
(04/01/11)

MENSAGEM NA GARRAFA

Meu amor,
- Me perdoa -
Mas nada foi à toa,
Nenhum movimento
Foi assim tão friamente calculado.

O tempo é exato
E não o contrário,
E talvez por tantas horas
Em que minha fé fora dias
Por tantas palavras tuas
Que apenas me deixaram sozinha,
- Eu tenha acreditado -

Não, eu jamais soube do teu amor
Como um bem intacto,
Tua distância foi me tirando
Cada sonho, cada esperança,
Foi vestindo nossos silêncios
De vazio
Cada memória
De indiferença
E os teus olhos me fugiam sempre
- não te esqueça -

Sim, tentei de tudo
Mas não fui essa fera selvagem
Essa pantera,
Não fingi as feridas
De teus escudos
Não inventei teus discursos
Não simulei os os teus lapsos de amores
Com cada uma das tuas belas.

Mas ainda assim
Resisti...
Tamanho era meu bem querer
E minha procura
Cega...

Não havia nenhum plano
E de repente lá estava eu,
Ressurgindo resma de teu abandono
Presença nem sempre lúdica
Ou discreta.

Não te esquece, sou poeta!

E desde que tu me vieste
Tudo que era teu, meu amor
Também me veio:
Acabei virando o parâmetro
De como sobreviver em teu peito
- Sem nada -
No escuro mais absoluto
E alheio.

Sofri cada teste, cada estrago
Guardei a vontade de cada beijo
- Cada abraço -
No desamparo maledicente
Dos teus verbos de escárnio
Disparados à queima-roupa.

Eu sei,
Não foi por algum mal que me quisesse
Mas pelo peso das correntes
Que arrastavas a cada breve Despedida.

Como último sopro de meu amor
- Sem dono -
Te dei o termo tão longínquo
Quanto a espera e o esforço,
Atravessei o estado aparente
- Do oceano -
E te entreguei cada jura de amor
Sem mais promessas ou santos,
por escrito.

Mas tua voz não veio
Nem tua letra
Ou teu amparo...
Ficou só aquele imenso e temido
Vazio,
No vasto.

E nem viste quando me despedi
Sequer olhaste para tudo o que te dei:
Ficaste refém dos saberes
Que me atribuíste para não acreditares
Que juntos iríamos além.

E era tudo verdade,
Meu amor...

Verdade
Toda,
- E tua -
Assim como eu...

Mas desta vez
Vê se olha no meu olho
E me escuta.
(21 de Março de 2016)

domingo, 11 de dezembro de 2016

DA COLHEITA DAS FLORES

Só o amor
- de amparo -
Antídoto máximo
Para todo e qualquer mal,
Abraça o caos
E respeita a desordem
- Relativa -
Em sua dádiva
De circunstância.

Só o amor alcança
O vento forte antes do ruir das paredes
Só o amor defende
A mão que lhe empunha a adaga
Do sangue que escorre, valente.

Só o amor ascende 
Quando tudo mais não basta...

Só o amor é safra,
E também é semente.
(30/07/2015)

CURVILÍNEA

Descobre em meus seios
O contorno robusto de cada termo
Toma em teus lábios
Os caminhos
Capazes de incendiar
Os delírios mais serenos.

Esquece o tempo
No fascínio metafórico
Que eu revelo
A cada poema que te que escrevo.

Me dá o teu medo
Lambe a pronúncia
Do meu prazer por extenso...

Me toma
Na máxima em que me dou
Ritmada
No encaixe
Inquieto
Das palavras
Que me fogem
E te acham...

Me acolhe nos teus braços
Face e fogo feito de aço...

Depois te deixa adormecer
Nesse lapso de torpor
Que engole o tempo-espaço.
(Fevereiro/2015)

DA LIBERDADE E DO FIRMAMENTO

Olha o raio
Cortando o céu
E desenhando pra ti
Meu sorriso
Diamante.

A preciosidade
É das estrelas
Que emprestam
Constelações
Inabitadas
De pecado
Para despertar teus ouvidos
E ter teus olhos
Em seu rastro.

A liberdade transgressora
A reluzir em sonoridade
O tempo...

A convicção dos pormenores
Constituídos em identidade
- Nada idênticos -
Àquele que é o nosso único
- E real -
Direito:

SER livre
Para ter fé
Ou para ter medo.
(Fevereiro/2015)

ACASO SEJA

Que seja
Fôlego
A falta de ar,
- de meus pulmões comprimidos -
Na doce dose
E no empenho
Da tua escuta...

Que seja querer bem
O mirar e ver da tua boca
Que em toque "despetalar"
A mim se junta.

Que seja música
Essa nota solta
E sem juízo a retalhar
O improviso ímpar
De par em par,
Sem faz de conta.

Que seja distorção
O som do rádio
Nos teus ouvidos
E o trovão
Na chuva de amperes
Da minha poesia

Que seja exceção
Premissa breve da alegria
Que não fuja à regra
- mas que a enfrente  -
Com saberes de tato
E o toque abstrato
De nossos quereres.
(15/06/2015)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

DO USUFRUTO DO VERSO

Eu não nasci da ignorância
Do teor desavisado
dos injustos

Eu não nasci
por mero acaso dos astros
Tampouco carrego a missão
De ser mártir
Ou poeta
Do desuso.

Eu não nasci da ignorância
De quem pensa ser grande
Para subjugar os que acusa

Eu nasci do direito pleno
À circunstância do minúsculo.

Eu nasci do poder natural
Da gênese de toda infância
Eu nasci do símbolo rudimentar
Que tece a alma
Mas não a alcança

Eu sou a língua parida ao relento
Imemorial árvore da fé
-Não no que leva o vento-

Mas no que se planta.
(Maio/2015)

DESATA NÓ

Era tanta cor
Que você não via
- Não reparava -
Na expressão quase didática
Das minhas sílabas,
No meu corpo irradiando
Dons em metamorfose

E hoje,
Chove...

Por tantas vezes tentei
Devolver o meu amor à tua posse
- Roubei-me pra ti -
Fiz-te fiel depositário
de minhas asas
E fui caminhando
Pés corroendo a pele no asfalto
Por ilhas e cidades inteiras

Evaporei ruas manchadas de poeira
As relíquias em frases sem sujeito
Sem transcendências
Sem transitivos diretos
Recortados do pouco caso
Do teu mesmo e exato pretexto.

A sobriedade dos descaminhos
Trouxe cada um dos enganos
Cada um dos anos adiados
E varridos para baixo do pano.

Mas a memória, irrestrita
-Sempre que eram fechadas as cortinas
Trazia à luz dos olhos
Cada risada, cada lembrança
Sem ameaça qualquer de despejo:
Sim, havia apetite de amor
E alma, em cada beijo.

Era fome,
Abstração carcomida nos dentes
Era trégua
Fronteiriça
Entre acaso e destino.

Mas a dor na superfície
- Como se não à toa insistisse -
Perseguia cavalos no abismo
Recortados aos solavancos.

E eu escolhi ver-te, vindo
Bicho selvagem e ferido
Sangrando à beira do precipício,
Escolhi dar-te água do mar
Para salgar tuas chagas
- Curá-las -
Mas ao fim era tu que me abrigavas,
- Ninava minhas horas -
Com os cuidados e a calma
Que te deram meu sorriso.

Os trilhos do trem arremessados
Na cronologia acidentada dos oceanos
Submerso fora o amor,
Por entre mágoas, silencioso
Invadindo limites de terra
Engolindo a cada passo um poema
Entregue como náufrago
Em mar revolto.

Dá de ver, o vento já é outro,
Mas a maré só devolve
A palavra
A vida
- O firmamento sob nossas cabeças -

Se antes de chegar ao quebra-mar
A fé for capaz de atravessar
A correnteza.
(Abril/2016)

DO COMEÇO DE TUDO

Tua voz tem a senha
A maciez que arranha
E incendeia
Todo o repertório submerso
Em meus poemas.

Tua voz chega e desmancha
Qualquer rima pronta
Porque tem essa força
-  que ecoa divina -
Tua voz é o segredo
Redescoberto
Em amor que não se assimila.

Porque muito antes desse mundo ser feito
A palavra,
- Poeira da lua em gás rarefeito -
Já se contorcia no silêncio do cosmos
À espera do som que a faria estrela.

E não importa o tempo,
A rotação ou órbita do planeta,
Sempre que volto meus olhos
Para o branco do papel,
Tua voz acende o céu
Em transparência:

É dessa luz que nasce meu poema.
(12/05/2016)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

FUTURO DO PRETÉRITO

Era pra ser você
Os seus olhos
Nos meus
Penetrados
De saudade
Esse corpo
Rebuscado,
Nossa linha direta
Chamando...
                      Me atende.

Era pra ser seu
O meu corpo
Corrente
A fluir enroscado
Nos teus lábios
Era pra ser seu o cheiro
Roubado
E o meu juízo um vago
Delírio
Em dia de sol
                      Nascente.

Era pra ser tua
- A boca -
Pulsante
No beijo
Que se desencontra...
- Louca -
De tanto se perder
Ao se misturar
Às tuas luzes e sombras.

Não há sussurro prévio,
- Só essa vontade que se agiganta -
Uma pequena molécula de mim
A arranhar-me a garganta em poema
A arrepiar os meus seios
- Fruta pronta -
A ser consumida quando me tens em ti,
- E tudo teu ainda pulsa em mim -
Bem entre as coxas.
(Setembro/2014)

COR DE PREENCHIMENTO

Coragem
Agir com o coração

Onde está a cor
Da ousadia
Quando não se olha nos olhos
Quando não se permite estar perto
Para só então estar junto?

Comigo...
Desabotoa os meus sentidos
Mas não desbota o vermelho
Que é só meu
- Da minha boca -
Te colorindo.

Não me atira
No lábio gentil
De outras curvas:
Sou escolha
Não escora de teor vespertino
Sou a história que não se conta
Mas que em tantas fases vem surgindo
Aquela que assentiu a fé mesmo a ferir
As próprias sombras
E segue a pé sem deixar rastro

E se há fato,
Qual a cor da tua lembrança?
Quantos tons suprimes
Para não ter-me em ti
Em auto- relevo,
Para não elevar teu pensamento
Ao que  - sabes -
desconheces ao pleno?

Nos verbos que te entrego
Estão a liberdade do meu amor
- A minha trégua -

Então,
Sossega.
Não é de mim que te defendes
Mas do vazio que tu carregas.
(18 de Agosto de 2015)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

DA REINVENÇÃO DA ESPERA

Hoje
Eu só quero
O teu abraço,

Só.

Pra lembrar que não preciso
Ter medo no escuro
Que a paz é fruto apenas do amor
- Em estado puro -
E que basta o amparo do silêncio
Para tudo irradiar mais vivo:
É nos teus olhos que mora o meu sorriso.

E não importa a despedida breve
O tempo, o enredo ou a errância:
Tudo se encolhe no arrepio da pele
Que guarda do amor,
- O desejo -
Pra recriar esperança.

POEMA SIMILAR

Vai...
Extrapola
Polariza cada uma das tuas incógnitas
Sufoca
Suplanta
Substitui tudo por palavra
Impermeável
Enquanto me absorve pelos poros
- Pelos olhos -
E pela falta.

Perambula por meus ouvidos
E minhas páginas
Ignora cada palavra
Capaz de mover teus verbos
À minha estática.

Dispara a esmo
O que carrega o meu cheiro
Na tua barba...

Vai...
Faz de conta que me abraça
E que o tempo não cansou
Da fé em nada.
(2014)

DAS IMPOSSIBILIDADES E DO SONHO

A tela por onde se projeta
Minha memória
É o tecido de minha própria pele
Exposta...

O sono que beira minhas órbitas
Apenas esconde-se no silêncio pleno
De nossas vozes já sem volta. 

Um arrepio vem-me pelo peito
A explodir-me a carótida...

Giro meu corpo na cama
Pudesse demover o tempo
E retransmitir cada fagulha
Devorada
Por minhas palavras
Fossem elas
Ainda dignas de ternura
Fossem elas do temor máximo
Minha bravura.

Então encontro o teu olhar
A cozer
Mais um longo e detalhado
Cobertor
Para abrandar
O meu desassossego
E - só por um instante -
Adormeço.

Tarde demais...
Agora já era cedo
Então percebo que sequer chegaste
Quando eu já estava
De fato, amanhecendo
(2014)

DO VAZIO DAS PALAVRAS E DO MAGNETISMO DO TEMPO

Não há moradia
Em desabrigar-se...

Não há veneno
Que remedie a febre
De quem toma
O peito
Como termômetro
E antídoto.

Sejamos vivos
Apenas indivíduos
- autônomos -
Capazes de desconstruir
A continuidade imposta
Pela suposta linearidade do tempo
Dos outros.

Sejamos fomento,
Mão de semear raios
Nos céus esquecidos
De tantas noites em claro

Sejamos o raro
- o bem distraido e generoso -
Não há garantia ou prazo
Só a magnética do encontro.
(2014)

DOS CAPRICHOS DA TEMPESTADE

A linha do horizonte
Aponta
O limite e o pulsar
De cada onda.

O vazio do teu olhar
É uma afronta
Nesse náufrago é o mar
- não a sombra -

Barco a vela
Pulsa
Profundeza
Mas sem bússola
Ou estrela
Vem o vento a soprar
- não te esqueça -
(2014)

AUTO-ESTRADA

As estradas
São imóveis
Incalculáveis rotas
Nas curvas do desconhecido
Começam e terminam
No sentido
De quem as desenha
Consigo.

Não há lei
Direção proibida
Permitido estacionar
Mantenha-se à esquerda
Homens trabalhando
Acostamento em 100 metros

O trajeto
Guarda em si a noite
A manhã
E as estrelas dos faróis
Comprometidos de luz
Na escuridão
Como os olhos do tempo,
Nebular.

Não há provisão de chegada:
O ponto de partida
É contínuo
Como se ter estado aqui
Pudesse ser destino
De quem não irá voltar.

Não há tráfego
Ou sinalização
Uma daquelas placas
- Pisca-pisca -
Vermelho-azul turquesa
Conveniências ao preço
De um acidente
De percurso.

Ao condutor
Restam as dimensões
Táteis
De seus estímulos
- Futuros -
Sempre aventurados
No que ainda virá
Imprevisto.

Viver é um risco
Para poucos.
(2014)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

FÁBULA ÀS MIGALHAS

Luzes são fonemas distorcidos
Pelo reflexo dos olhos.

Acende a tua fala
E palpita o meu peito
Na velocidade do som
Que assalta o pronome.

Ouve bem dentro dos teus termos
A eloqüência enumerada
Dos meus motivos
Ouve bem dentro da fome
A saciedade serena
De quem mira ao fim de um precipício.

Eu salto
Eu solto
Os braços e reconstruo
De vultos o mesmo muro
Meu casulo sem fim
Meu pesadelo carmim
Meu ócio em fruto.

Eu solto dos teus braços
Sem ver a quem
E voo.

Se for pra voltar
Então recue
Repercuta o adeus
E enfim
Se desespere.

Entregue tuas lágrimas
Ao sem apelo do silêncio.
Passeie por cada palavra
Que deixei pra ti
Como migalhas perecíveis
E não passíveis
de tempo.

Honre a inspiração que te toma
E ao menos uma vez
Admita:
Não recolha de mim
Os gestos descompassados do desejo
Não retire a mínima identidade
Da percepção de teus motivos.

Agarra o minuto
Espiralando-se devagar
E comprime o verbo
O amor
E a vontade
De ser meu de novo.

Pronto.
Nada que talvez as palavras
não desconversem
Nada que o teu orgulho
Não faça submergir encalacrado.

Enquanto puder conter
Medir
Rimar
Não haverá sido
Amor
O suficiente.

Preciso
Mesmo
É navegar.

14/07/2013
(15:02)

METAMORFOSE

Se eu te amo?
Amo.
E te mereço. 

Teu preço é a liberdade de olhar ao desamparo
Mas eu te recebo e preparo
Quase que no além-dentro do meu peito
E me calo.

Não vou dizer
do desmaio
de tanto pranto
da boca seca
Do verso, o vasto.

Não vou dizer do poema
O poente encantado.
Não vou dizer o recado
Que vem arder e doer no obscuro que busco
Em teus olhos, enjaulado.

Não vou dizer do presságio
O meu rapto é insonoro
Insone
Ecoando via láctea enquanto em vão fecha as pálpebras
E não dorme.

Não vou dizer o teu nome
Apenas deixo a rima em desfoque preciso
E a salvo, o grito que diz
Em vão, precedido.

Salvo teu nome
Escorre meu ímpeto...
E eu hei de te ter em véu sagrado
Pra sempre é um livro.

(2011)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

BEIJO DE CHUVA

Quantas palavras
Fui capaz de esquecer
Apenas para ler nos teus olhos
O desejo?

Quantos poemas
Abandonei
À liberdade
Apenas para que encontrassem
O universo dos atos
Sem palavras?

Mas todas as outras
As mais sóbrias
- e soltas -
Eu sobrevivi
- Aqui - 

Pra você
Ouvir
Da minha boca.
(2014)

BEM VINDA

Eu só queria
Que minhas palavras
Soprassem
A saudade da ausência
Em teus ouvidos
E te contassem
De cada pequena descoberta
Ou de como o amparo invisível
Do vento, conforta
Desde que as portas e janelas
Estejam abertas
Para ouvi-lo.

Eu só queria
Condecorar com afeto
Todo o vocabulário meticuloso
De nossos postos de comando
Eu só queria caber no teu olho
Com a ternura digna da inspiração
Que me desperta,
Sonhando...

Eu só queria
Que recebesse minha poesia
Confundida com o silêncio
Que precede o beijo
E que me sobe às pernas...

Eu só
Queria
Ser tua
Procura noturna,

Irradiar
À sombra
Ou à luz
Das cortinas
Na lua em que me esperas.
(2015)

sábado, 12 de novembro de 2016

ACHADO FOI PERDIDO

Não devolvo verbos secretos
Em vocabulários
de múltipla escolha.

Uma errada não anula
Uma certa,
Mas de certa maneira
Há muitas formas
De se entender
Errado.

Não se deixa uma flor
Ao relento
Esperando que as mãos do tempo
Reconheçam como afeto
O que não passa de um achado.
(2014)

O POEMA E EU

Acordei

Contigo

Em meu sonho

Mas as luzes na varanda

Refletiam o som do vento

Que se foi.


Nos teus olhos 

Eu perdi o direito de esquecer

Enquanto a ti

Restou a liberdade triste

De se repetir.


Eu reparti

Em mil pedaços

O futuro que escolhi

Só pra reencontrar nossos dias

Ao acaso.


Eu reparti

Meu amor

Minha fé

Mas a poesia

É unicidade.


Toma.

Guarda e espera.

O tempo das palavras

É templo do que vigora.

(2013)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

DA MATÉRIA DOS SONHOS

Nas florestas mais escuras
Há o fruto transgressor
Que excede a cor e o nada
Habita ermo espaço
E reflete luz polarizada.

Por sobre ele
Voam
As águias
As gotas são o farol
As estrelas pingam o sol
Que das margens
Faz metáfora.

Nas florestas mais escuras
Resiste o legado
O dom é o inexplorado
Aguardando
Novos ares de descoberta.

Nas florestas
E nas árvores
Raízes erguem seus milagres
Fotossíntese é coragem
Novos raios em velha terra.

Sagrado é o fruto
Que irrompe o tempo
É no vazio que corre
O vento
E vasta é a era:

Não o condeno
Por morar em frestas,
Quisera ainda
O homem crer
Nas florestas
E não temer o escuro...

A semente é o futuro
Que não desiste na véspera.
(2014)

RESSONADA

Eu te empresto
Cada camada
Da minha pele
Adormecida
Para que sinta
O pulso secreto
Do meu amor
- e objeto -
De minha escrita.

ESTRUTURALISMO

O amor
É um dom
Não domínio
É o contorno macio
Dos lábios sem cor
A recortar alumínio...

O amor é um signo
A estrutura no abismo
O que apaga a estrada
E improvisa o destino.

O amor
É um domingo
A sós no Arpoador
Até o sol 
        ir sumindo.

LAVRADIO CELESTE

É preciso reconhecer cada espécie
De ramo
Folha
Fruto
Mas sobretudo
Raiz

A teia de contato
Vascularizado
Que libera cada molécula
De oxigênio
Na superfície

A terra abriga a semente
O sol faz a síntese
Mas o devir mais simples
- A gênese que se perpetua -
É ventura irradiada
De pura influência...

Há o tempo,
O solo,
A cadência de cada estação
- Da friagem ao viço -
O trato do grão
À colheita do fruto

Cada intervalo exato
Entre o ventre maduro
E o vento
Que varre cada vestígio...

Há o esmero
- a esmeralda -
Jóia bruta a arder galhos
Com equilibrismo.

Há a superexposição dos astros
Na terra
Há a sombra que apara
Na selva
Seus abismos...

Há o menino
O ente redentor que,
- E em tudo -
reverbera...

Há o poeta
Esse exímio agricultor
Que das folhas faz estrelas.

sábado, 5 de novembro de 2016

DA CRUELDADE DO DESEJO

Se me tens nos olhos 

Eu te desafio a tatear 

A plenitude vaga 

Das coisas imaginadas. 


É que depois 

De tu e eu

- Sermos nós dois - 

A pele é desespero

É boca, é nuca 

É fissura alquímica 

Em fusão absoluta...


Não tem cor 

E não tem cura

É a latência esquecida

No rastro cego dos próprios verbos 

Que só no suor se faz escuta. 


Procura na curva exata 

Do meu desejo 

A tua loucura

Esfinge devorada por teus beijos

De autodidata do meu prazer

Em ser tua.


Toma meu corpo 

Com a embriaguez do encantamento 

Mais sóbrio 

Porque quando me olham,

Os teus olhos 

Me desnudam...


Não deixa minha pele sem o fôlego 

Tácito 

Das tuas rotas de implosão 

De minhas razões tão íntimas...


Não espera o vento tecer 

Os lençóis de nossas rimas

Me toma pra ti

E me des-ensina

O medo, o limite e o sabor

De estar viva.


Me deixa 

Morrer só pra ti

E te fazer morrer em mim

Até o fim, 

Sem anestesia.

(2014)


POEMA DEVOTO

Me diz

Que o que eu vejo

Em teus olhos

Não é entrega 

Das mais inteiras 

- E sinceras - 


Que o olhar que me percorre 

Movediço 

Não paralisa o teu tempo

Como engole todo o ar

Que eu respiro. 


Me diz que é veneno 

O desejo legítimo 

Mas também é deleite 

Virtude e fome 

- E sede - 

A dádiva 

Em liberdade consentida 

De bem querer irrestrito.


Não, não escrevo meros termos

A erradicar desperdícios 

Mas o vocabulário que temo 

Silenciar sem sossego 

Até que possa alcançar teus ouvidos. 


Sim...

Eu vi teu corpo

Sobrepor o escuro 

E fosse infinito, 

Irradiar firmamento


A fé 

É um dom 

- invisível -

O amor,

É um templo.

(Dez/2014)

MONET AO MAR

Hoje

As águas de Monet

Molharam-se pra mim.


Os barcos 

Tinham qualquer coisa de repatriados

Como se os largos faróis escurecidos

Ressurgissem esbranquiçados 

- Da areia - 

Em um mar continuo. 


Consigo ver no reflexo da água 

O verde pegajoso da esperança: 

Navegar de mar, no sol, cansa...


E eu,

Fruto sempre inalterado

Jogo-me da nau 

- aos céus -

E despetalo:


Navegar é princípio;

O destino, 

Perseverança. 

(Maio/2015)




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

CASO QUEIRA

Acaso eu te permitisse 

Tu provarias do meu amor?


Não do meu desejo

Da volúpia

Ou de meus sentidos, 

Mas também de meu sentimento

Consentido

Da face mais escondida

Dentre minhas todas fases

De poeta inconstante

E arredia?


Acaso eu te desse 

O usufruto absoluto

Do meu peito

Tu me tomarias em teu beijo

E adormecerias teu corpo

Assim, com o meu junto?


Ou fugirias ao soar

Do primeiro raio

De meu descuido,

Sem permitir aos meus olhos

O teu despertar aos meu fusos?


Sim,

Tua língua lambe meus poros

E respiro toda a imaterialidade

Que vem de ti

A cada frase em que me deseja.


Mas para além do que impera

Há o que rege cada verso

Mas que sequer vira poema.

(2012)

QUEBRA DE SIGILO

Meu amor,

Que tal a gente se olhar no olho

E deixar um se encontrar no outro

Sem o medo instantâneo que, 

- Sabemos - 

Habita os nossos silêncios

E compromete tantos sonhos?


Porque já existe 

Essa substância pura

E absolutamente tácita

A percorrer cada válvula-curva 

De palavra

Sem encontrar meios-termos.


E pra quê dar conta

Do que sequer foi feito

Ou carece de medida

Pra quê continuarmos reféns 

De nossas escolhas 

Se a liberdade é a única premissa 

Que faz do amor, verdadeiro? 


(2016)


DE_VASTO

Eu sou uma dama

Que se contenta com a sede

E com a fome

E com a mesma e infinita

Réplica tão pequena.


Se for de me vir

Que me venha

Que me sobre no olho

E que me retenha no fôlego

Enquanto a fé for imensa.


Eu sou um verbo

E só reverbero

Quando o que há de ferro

Me marca as veias.


Ah, sim!

E sei que te amo

E sei que te quero

E sei que não há tanto tempo

- Que não há tempo algum -

Que te revire

Ou que te traga

- Respire -

Ao meu lado...


Esse elo tão estupefato

- De estragos -

De histéricos restos

- E não me nego ao que não acho -

Acho bem que é hora de partir de mim

Rumo à solitude do que te assombra

Sumo de infinitude em leve afronta.


Se te amo

Não te conto

Nem à Santa

De santa não hei de ter um raio

Nem pleito

Nem vento

- Só o estilhaço -

O vidro

Vivo

Terno

- E mal comportado -

Quando percebo que te amo

E te assisto ao longe largo do meu vasto.


(2011) 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

DA LEGITIMIDADE DO ABRIGO

Ei,

Eu tô aqui

Olhos grudados na ternura

Dos teus,

Aconchego de abraço 

Moldado no peito,

Silêncio a percorrer teus medos

Para que, com a mesma coragem, 

Eu vença os meus.


Ei,

Eu tô aqui, 

Pés aquecendo a extremidade

Trêmula

De cada insegurança,

Eu tô aqui

Embarcada e mesmo à distância

Atenta às marés 

E à correnteza,


Ei, 

Eu tô aqui inteira, 

- Sã e salva - 

Em cada passo 

Da condução misteriosa 

Das palavras,


E assim como me embalas

Na profundidade desconcertante

De tuas retinas,

Atravesso com meus versos

O papel e a neblina

Para apontar cada estrela 

De cego

À tua volta.


Sabe esse sopro de amanhecer

Que bateu à tua porta?

Foi só o firmamento 

Trazendo, enfim, o alívio

Pra cada resposta.

ACASO SEJA

Que seja
Fôlego 
A falta de ar,
- de meus pulmões comprimidos - 
Na doce dose 
E no empenho
Da tua escuta...

Que seja querer bem 
O mirar e ver da tua boca 
Que em toque "despetalar"
À minha se junta.

Que seja música 
Essa nota solta
E sem juízo a retalhar
O improviso ímpar 
De par em par,
Sem faz de conta. 

Que seja lúdica distorção
Ao som do rádio 
E do trovão 
Na chuva de amperes 
Da minha poesia.

Que seja exceção 
Premissa breve da alegria
Que não fuja à regra 
- mas que a enfrente  - 
Com saberes de tato
E o toque abstrato
De nossos quereres.