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É DAS ÁRVORES QUE SE FAZ PAPEL

Há vezes
Leva anos
Até que eu decida
Abrir um caderno novo,
Adentrá-lo.

O zelo que tenho
Para trazê-lo a mim,
Deitar-me nele
- Com minhas palavras -
Torna-se ritualístico,
Uma mimese estreita
Entre diálogo e risco,
Enquanto a ênfase se esgueira
E não se cala.

Afinal,
Escolher palavras
É entregá-las ao inóspito,
- Cruas -
É expor
Sua carne vocábulo,
Mastigar a língua
Engolindo os olhos
Ainda que estejam fechados,
E a boca, muda.

Mas uma vez aberto
- o caderno –
Não há volta:
É feito o trato
E a vida ali transcorre nascente
Flui córrego
Estufa o solo,
A semente,
Ergue-se fértil
Aos pés
Do céu estático.

Tudo o que nasce ali
Então se move:
Seja medo
Maré
Montanha,
Descaso de amor que se ganha,
Ou adeus que se perde no verso.

A fé só lê de perto
Quem a acompanha,
Que não teme renascer da lama
Nem abandonar o drama
E fechar de vez o seu velho caderno.
(Ilustração de Maja Lindberg)

Postagens recentes

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
Claro
E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
Com os olhos
E batesse no peito com a humildade
De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
Haveria como professar a fé
Sem que te sentisses um otário?

SINTONIA FINA

Ao meu amor
Mudo
Os sons graves no estetoscópio
O levante em arco dos pássaros
- Em bando -
Narrando em sons miúdos
O voo livre que há no ócio.

Ao meu amor
Mudo
A ligeireza singela dos pingos de chuva
O som evaporado em estado de nuvem
Que ninguém mais escuta.

Ao meu amor
Mudo
A cadência dos passos
Que o aguardam na varanda
E o volume de meus abraços
Que trazem beijos na garganta.

Ao meu amor
Mudo
A infância,
A agudez experienciada
Na fé das crianças,
E as vozes em voo de águia
Quando do balanço
Suas mãos forem a alavanca.

Ao meu amor
Mudo
A veemência metalizada
Dos sons do vento
A brisa bem breve
Das forças dadas
Pelo caminho que nos cria
O tempo.

Ao meu amor
Mudo
O silêncio,
O mais sereno dos contraltos:
Mesmo que em tons mais baixos
Há o luzir de seus passos, lentos.

Ao meu amor
Mudo
Meus vultos no espelho,
E meus poemas
- Todos -
Sem lei, de aço

A cadência dos versos
Que nele encontram
A cor dos sonhos
- Quando me deito -
A luz dos olhos
Quando acordado.

(08/03/17 - 19:50)

A SINTONIA DO SILÊNCIO NO CAOS DO MUNDO

O que te faz sentir vivo?
O que, potencialmente,
Torna a tua existência viável,
Mesmo diante de toda e qualquer perda?O teu ofício, a tua arte:
Ela é o motor e o combustível de cada sonho,
Das realizações que alcanças pelo caminho.É o teu altar de equilíbrio
Tua prece de loucura
Tua instância mais pura
Quiçá, a única libertadora.Mas para seguir acessando essa dimensão
Para que extraia dela e de si
O aparato que o mundo precisa
Para além da tua força criadora
E artística,
É preciso equalizar o ruído da roda do mundo com a do próprio peito
A ponto de silenciar o caos em movimento.O caos continuará ali
Em golpes de imagem
Exercendo a atração exata
Para degenerar a força reparadora
De cada um dos teus dons...Mas tu não ouvirás nada
E assim tua mente terá a concentração necessária para trilhar o percurso
Por sobre o que os teus olhos não alcançam.A cada verso
A cada acorde
A vibração criadora
Sacudirá os tronos e as masmorras,
E a tua voz,
Será dona da mensagem e da honra:Exerce o t…

TERRA DO SOL

Eu vi...
Teus olhos me atravessaram
Como no princípioMas não era rastro de fogo,
Foco de incêndio inflamando
O céu em fogos de artifício...Era a chama mais íntima
De um fósforo
Que estivera a espera
Pela faísca mais exata
- E precisa -
A combustão espontânea
Prestes a se alastrar dos olhos
Para o além espaço e sem medida.Eu sei...
Teus olhos sequer piscaram
Não desviaram um segundo sequer
Dos meus lábios
Foi como se me beijasse a boca
E tirasse de mim cada palavra
- inda sílaba -
Me oferecendo nos braços
O laço exato do aconchego
Que chegaria,
- apenas e a tempo -
Com a tua vinda.E sequer tive medo
Sequer raciocinei
Ou criei expectativas...Foi como se finalmente
- Das cinzas -
Todas as minhas instâncias
- Poesia e Poeta -
Estivessem renascidas.Eu vi:
O fósforo
Teus olhosA faísca.

RECEPTIVO

Você ouviu o céu
Versejando luzes
E trovões
Por tua chegada?A lua, mesmo assustada
Brilhou ainda mais alta e plena
E o poema
Me foi a única resposta possívelVocê chegou
E veio rasgando o meu nome
A minha certeza
O meu pedaço mais reviradoE nem pude sentir os teus braços
Ou fazê-los de abrigo
A certeza antes tão longínqua
- e solitária -
atravessou o tempo, o medo
- e o risco da estrada -Para ser esta linha
- de chegada -
Contigo.
(20/03/16)

POEMA DE PALETA

É tão pouco
O claro
Do que enxergo
- Imenso -
Fosse a dimensão
Mera questão de colorir
- O vento -
No inverno,
E em silêncio.Sou preta
Azul púrpura
E rosa acetinadoSou fúcsia
Cor de abóbora
E violeta...Sou laranja
Verde musgo
E também sou chumbo
Se me deseja...Mas sou cor de fundo
Se me decora
Em tua letra.
(21/03/16)