domingo, 11 de março de 2012

VÃ PREMIERE

Segura na minha mão
E fecha os olhos.
Me deixa só desta vez
Te mostrar quem eu sou.

Não que das outras vezes não fosse eu...
É que quando eu tô com você
Surge uma versão com cortes
Sempre em película e curta-metragem.

Uma outra de mim
- Tão tímida quanto devassa -
Como se saída de um filme de Fellini
Mas daqueles para ser assistido só em casa.

E tem sido assim
Desde o nosso primeiro contato
Digamos, imediato.

Não consigo evitar
De esconder-me no silêncio
A abreviar repertórios.
Parece que quando olha nos meus olhos
Eu, poeta
Experimento o inominável.

Só há dois espaços
- Sagrados -
Onde me sinto a salvo:
Um é aqui...

O outro é nos teus braços.

domingo, 4 de março de 2012

AUTO DE CONSAGRAÇÃO

Esconde-te
De meus olhos
Ainda tão repartidos
Em brevidade.

Não me deixe ver
Quanto de ti ainda resta
A vagar por aí
No claustro monocórdico
Desta cidade.

Finge que sou de conceber
O ímpeto do qual morri
Quando estavas em fins de reagir
Mas foste covarde.

Te quero perto
Sério
Sóbrio
Não em breves cismas
Ou em palavras frias
Sem teor concreto.

Vem me olhar em terra firme
Sem temer o lume
Que disfarçado de sublime
Pode esvair-se no léxico.

Me deixa ser teu amor sem dono
Extenso, semente em terreno plano
Em tantas paráfrases de Perséfone
Te proponho o verso dissuadido da tese
O mais terno, assim livre
Em benigno registro.

Lê a minha palavra
Pudesse transpor o entendimento
E simplesmente existi-la no infinito.

O amor é um símbolo
Mas o que sinalizo
É um ritmo absorto em monoteísmo...
Um só Deus
Enquanto não houver adeus
Eu não desisto.

POEMA SEM FRONTEIRA - A Leon Tolstói

Revólver
Devolve
Aos montes
As montanhas
Que nos separam
Dos feixes de luz do cosmos
Em estampido.

Cosmopolita...
Eu sou a tua íntima fêmea pré-concebida
E sou a mais tímida e pretensiosa
Promessa exígua
De um exímio impressionista.

A extinguir tantas eras
Mais líquidas
Te escorro pelas mãos
- Não me siga -
Posso calhar de revirar
Tantas promessas
Desprovida das resmas
Ou das mesmas tão eternas
Quando pífias.

Observa-me circunscrita em pedra
Sou primitiva quimera
A conceber o amor em conserva
E mesmo com todo o poder da arte na guerra,

A mais pacifista.

RELÓGIO DE SOL

Tem água
No contorno do céu
Terreno.

É um lado
Sobreposto
Ao que poemo
De chover substrato
Ao avesso
De clima árido
E tão seco.

Sou de florescer meus versos
Decênios
A ponto de apurar sua tolerância
À cada franca mudança de estação.

Me diz então
Por que acho de mim
Um corpo perdido
Intrigado de euforia
Bons poemas não surgem ao que principia
Mas ao que se termina em vão.

Teimosia a minha
Tentar ver lua em céu de mar
Se pareço chover sozinha...

O sol é um tormento de honraria
Bravos são os raios
A sapecar meu instrumento de precisão,

- A poesia -

sábado, 3 de março de 2012

POEMA DE FIBRA

O fim do beco
Era um bloco
De rua.

Paredes escarlate
Parafraseavam
Sentimentos rubros.

Um passo à frente
Deflagaria nova era.
Para trás, a quimera...
Lembrança taciturna
De mais ávidas estações
A sangue frio.

Te corto os olhos
Com o golpe máximo
De uma saudade desconhecida.

O grito é um assalto
Mas não te entrego a minha vida.

Logo agora
Que aprendi a reservá-la
De meu próprio mistério
Sou surpreendida
Pela remoção massiva
De escombros.

É tanto teto de ouro
Retorcido
Que não sei se acredito
Que potes de ouro
Possam cair do céu.

Ao final dos arcos da lapa
Cada pupila se dilata
- Em iris -
Peço que desfoque de tuas crises
E me desveja no papel.

O velho é apenas um outro pacto
A desafiar, de novo
O tempo intacto
Que no cadafalso se perdeu.

Ergue teus olhos
E me encara
Adulta.
Não adula-me como mulher
- Jamais serei coisa tua.

Aceita-me ímpar, como tua dupla
Sou fruto, acima de tudo
De rima, madura.

O verbo cansou de trafegar no imenso
Agora quer vaga cativa
Mesmo que sem professar a fé
Ele prossiga a pé,
E jamais chegue à missa.

Estou certa
De que o que chamam de fé
É o feito de uma mulher
Que jamais foi submissa.

REVELAÇÃO

Sofro de um medo
Excessivo
A lograr-me o bom êxito
Em teor vespertino

Não mais consigo
Nomear o que pretendo
Apenas tento evocar meu instinto
A censurar meus bloqueios.

Eu sei que está em hora
De reaver meus sentidos
Mas é tão íngreme o cerco frio
Que não posso aninhar-me
- É faca pontiaguda na carne -
A coragem que silencio.

CONDICIONAL

A liberdade
Cerceia
O direito
Ao delito.

INOLVIDÁVEL

Guardo comigo
Teu lugar
- Que é só meu -
Por escrito.

Temo reintegrar-te posses
Posto que há vozes
Que te tomam
Meu espírito.

Á luz dos meus medos
Escondem-se à penumbra
Os meus sonhos mais bonitos...

Penso serem olhos
A dádiva de te escrever o que não digo.

O silêncio é um sóbrio
Mas há o ilógico,
Ah, estas vozes em meus ouvidos!

LAST SHOT

Vai...
Me devolve
A usura desse tempo
Que te espera

Só por hoje.

PAR SELADO

A quê creditar
O descrédito
De meus planos
À vista?

MONOCROMÁTICA

Minha obra
Opaca
Ocupa-se
- À sombra -
Da pouca luz

Que reflete todas as cores.

RESTA UM

Tenho amor algum
Agonizado
Em consequentes
De desamparo.

Não temo remos
Ou raios
Sigo a maré do desassossego
Mas me separo
De cada onda amiúde

- São só rastros de juventude -
A prescrever o que já não trago
Elevado
Ou expresso.

Não sou mulher de um só verso
O que resto
É só o resto.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SOBREVIVENTE

O efeito mais nocivo da Literatura
É a sua constante possível de resgate.

Pode-se trazer à tona
- A qualquer momento -
O mais ermo naufrago da humanidade
Que pouco ou quase nada
Saberá de embarcações

Mas sim,
Só dos tempos
De tempestade.

MEGA CENA

Recebi pelo correio
Meu bilhete premiado
Há mais de uma década
Extraviado.

Pensava eu
Nada ter a sorte
A ver com o passado...

Não sei se haverei
De resgatar o prêmio
Mas por enquanto
Irei guardá-lo
Para meu próprio bem
Bem a salvo.

PARADA CARDÍACA

Um não
- Vivo -

Para escrever
O próximo capítulo.

PRONTA-ENTREGA

Empilhadeiras
Que perdoem
O meu mau jeito.

- Não sou de armazenar -
Mas de vestígios.

CORPO DE TRABALHO

Sou absoluta
Margem
Anteposta
À estrela.

Sou tida
Na frase
- Exata -
Como me cabe
O poema.

VERTIGINOSA

Minhas escolhas
São escolas
De encolher
Antagonismos

E o papel
O princípio.

Ter papel principal
É mirar precipício.

RESSALVA

Estou apaixonada.

Salve-me se puder.

DIREITO À PROPRIEDADE

Não és mais minha
Do que o pronome possessivo
Que te condiciona.

Eu te pertenço, poesia.

LITERAL MENTE

Provérbios
Em alfarrábios
São dúbios.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

POEMA DE AMOR PAGÃO

Será que tornei-me outra pessoa
Ou apenas
Fui sobrevivendo e me moldando
À possíveis fôrmas do não-fracasso?

Quanto
O tempo fez de mim
Sua escolha distraída
Enquanto eu pensava estar amadurecendo?

As nuances de dúvida
Constroem espetáculos
Por vezes hipnóticos.
O silêncio
Desenha com graça
O drama da não-presença.

Escrevo
Como quem pudesse pairar firmamento
Acenos da cidade maravilhosa...
Mas me calo.
Não estou em vezes
De suportar as vozes da palavra
Assimétrica e inolvidável.

Por isso
Peço que me fale baixinho
No sussurro quase surdo
De quem sabe de tudo o que há
No imenso.

E não ouses mencionar melancolias
Ou liturgias da palavra,
Clandestinas.

Quero é teu arrimo
A rima já me habita
Posto que ao verbo faço jus
Não quero a sua sina.
Sou poeta,
Isto te basta
Ou abominas?

Temo não caber
- Pequena -
Em teu abraço...
Não sei quem és
Apenas quem fui
Quando tu já não podias estar sendo.

Temo escorregar feita de louça
Pelos teus dedos
E espatifar-me em epitáfio lírico.
A despedida é um eco pálido
E eu, que tanto sangue trago
Sou dona de estourar cada vaso
Antes que cheguem ao coração.

Arrítmica bomba de epinefrina
- Mas na lira -
Espalho miolos ao chão.

Não calho de estabilizar batimentos
Tão pouco debater frustrações.
Sou o que sou
Só tenho no papel
O consentimento de não-ressuscitação.

Mas minha vontade
- Nula prisioneira de múltiplos compartimentos -
Compartilha da mesma veia que alimenta a minha inspiração.

Respiro.
Deixo o ar invadir teus espaços
E quem sabe
Preencher a sensação de amplitude
Que me toma quando penso em ti.

Liga o amplificador
Cúmplice da desova silenciosa
- Em batida frenética -
De minhas frases sobrepostas.

Não sei se aguento mais essa, sóbria.
Não sei mais sobrar manifestos.
Não quero mais ser dona das iniciativas
Nem das de recuo...
Quero o apuro ileso do teu corpo junto.

Há tanta solenidade em meus lençóis recobertos
Que sintetizo o vento a deflagar tempestade.
Que voem os varais
- E o tempo -
À vontade.
Roupa limpa areja boas frestas divinas.
Agora me beija
E me faz crer na saudade
Aquela deusa
Antiga.


(Voo Rio-BH 23/02/12)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

CÓDIGO FONTE

Sabe que essa pretensão
De atravessar
                    com a palavra
É mal feitoria
- Ainda que bem feita -
Típica de nós, poetas?

Acreditar que por onde um homem
Ergue seu subjetivo de significantes
Um outro cá de lá seja capaz de retransmitir
Na nulidade-dúvida de cada ideia,
Uma vibração de alcance
Que para muitos apenas soa como contraste...

E se te encontraste neste recheio de dia novo
- Ainda que cá deste lado inda seja noite -
Me desprendo fosse o que te veste o sonho
E do verso solto, faço o meu disfarce.

LUZ INDIRETA

E se a resma não cora
Ela chora
Parafina.

E se for a mesma vela
- A minha -
A fé que se ergue em reza
Me descredita a madrugada cega
E me recorda que sou sozinha.

SIGNO LINGUÍSTICO

Matéria...
Você ressignificou a matéria
Quando a nossa se fundiu à força sagrada
Do que transcende.

Se tenho vocabulário dos atos mais verbais
Não me servem mais...

Você me subentende.

POEMA PROLETÁRIO

O pai do ano nasceu inda filho
E mensalmente faz poupança
A fim de não subjugar-se à alheia.

O pai do ano vem todo santo dia da feira
Tem calos nos dedos 
E sua mãe não tem nome.

O pai do ano já é homem
E ainda reverbera o sonho do menino...

Logo que acorda o dia 
Vai Conduzido da Silva 
Aprender a lidar com a própria lida
E fazer render inteira 
Sua meia-idade.

O pai do ano inda é menino
Mas há de ser o arrimo
Força bruta a erguer o país em vão 
Do que há na terra
E do que jamais será seu, 
Nem quando estiver debaixo dela.

BENTO

Eu te desconjuro
Em nome do que vai
Do que lírico
Eu exulto...

Eu te recuso.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

BACO DE PAPEL

Meu bloco
De concreto
Só tem o cordão
De isolamento.

Não sôfrego,
Contido
Ou amargurado...

Meu bloco
É um desfile de códigos
No ápice de seus logaritmos prováveis
E frases de efeito
Midiático.

Meu bloco
É feito
Em barco de papel
Mas ainda assim
- Tácito -
Como os feitos de Baco.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

TERMINAL

O porto de Suape
- Suave -
Me detém
A cada embarque
É dele que vem meu bem
E nele que meu bem descobre...

O segredo de ir além
É me ler em braile.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PROFUNDO DE GARANTIA

Já não tenho lugar
Desde que passei a me ocupar
De coisa alguma.

Nasci com trabalho definido
Licenciada e com cadeira cativa
Em minha própria escrivaninha.

E desde então, tudo o que eu existo, escrevo.
Não tenho folgas ou feriados
É uma espécie de sacerdócio automático
Das minhas funções emocionais
Neurais-Cognitivas.

Se meus escritos viram obra?
Aí depende da posição dos tijolos
E do tipo de estrutura
Que estou a erguer
Ou a derrubar.
A escrita
É um ato de implosão
Ora controlado
Ora capaz de varrer qualquer vestígio da face que aterra.

Aterrador é ler a si
Egoísta mas indispensável
Ao exercício Lácio
Do ofício íntimo...

Quando me abstenho de escrever
Algo de vasto se exacerba diante de meus olhos
Embaçados de tanto ouvir ressoar frio.

Meu ar de inverno mais febril
É o relampejo de ideias tão desconexas
Que talvez não seja nesta vida
Que vingue de dissolver-me a língua
Em solução, de deixar ver os que verão
Primavera já extinta.

Ácida é a base de todo o sacrifício
Desta oferta de rotina
A escorrer lado a lado
Fosse gargalo
De micro-ácido-aspersão
- De meu destino -. 

Dispenso aparatos de guerra
E reparo em cada fera enjaulada
Às frestas da janela do avião.
Muitos dormem
Outros se acomodam no silêncio relativo de estar acima de tudo
Até mesmo dos abalos
Sísmicos.

Mas eu cismo em olhar de perto
O andar desordenado das aranhas caranguejeiras
Fossem venenosas, dizem, seriam as primeiras
A me predar tal um pagão.

Mas meu sangue tão escorrido
Dor perpétua, hemofílico
Atreve-se a produzir o soro antiofídico
Até contra o choro
Que dirá contra a queda de pressão.

Se as palavras me carregam?
Não, eu as levito.
As espio escorrerem livres por entre os livros
E sei, não me ocupo de dígitos.
Nasci amparada por des_contar
Histórias de punho a pulsar
Em punhados de decoro infinito.

E sim
Carrego comigo
Um amor
Não um sonho
De vivê-lo
Antes que possa morrer
No que prevê
O Outono.

BIG BANG

Nosso
Segundo
De desencontro
Reuniu os astros em realinhamento
Infinito.

E foi ali 
- Nos teus braços -
Que aconteci princípio.

sábado, 14 de janeiro de 2012

REDENTOR

Há tamanho ardor
Retorcido em faz-de-conta
Que prefiro elevá-lo
À redenção.

Autoridades de fé
Nada movem além de miragens
Bravo mar em ricas margens
Vaga lei dos que fogem, em vão.

E daí que te ergo os braços
E te concedo o livre-arbítrio
Para que optes, ao fim
Por todo o acaso
- Não por bom exemplar de sexo frágil -
E não me escondas
De tua face máxima
- Me deixo exposta -
Mas não como tua devota

E caso faça as vezes
Do todo poderoso que me ouve
Mas que, passível, permanece imóvel
Ainda poderás olhar ao alto
A vaga estrela do impossível
- Que se recolhe -
Bem diante dos teus olhos.



(E como crer, se é incrível?)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TRAÇÃO

Não me leve
Tão a sério
Se não
A poesia
              perde a graça.

DE CARNE E OSHO

Teu dom é um poema
- Diferente do meu, que prescreve -
O teu presentifica.

E é por ficar, talvez
Que a cada letra
O tema me fuja à lira
Sou tomada a cada cem decibéis
Por uma onda de pausas quase rítmicas.

Não precisa dar nome ao meu lugar
Eu que já vaguei por vastas esferas
- Tão notívaga -
Hoje ergo-me do chão no será
Daquela que perfuma o ar, esquecida.

Mas continuo a acreditar
Porque ninguém há de devolver
Minhas luas, tão ingênuas...
Tenho fé mas sou feita de fibra de mar
Que a maré não há de afundar
Enquanto me quiser, terrena.

domingo, 8 de janeiro de 2012

ENSAIO SOBRE A VIDÊNCIA - O poder do poeta em transver a realidade

"O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.”.
(Alberto Caeiro)

Abri mão da prosa como quem aceita e reconhece o caráter predominante do imediato-sintético, adornando tal percepção em linguagem: meus poemas.
Um sentimento de eureca me tomava de modo totalmente inconsciente. Se as paragens que constituem a vida são sempre tão passageiras e terminais, como não internalizar tal noção temporal e imprimi-la à atividade mais orgânica que me move?
A poesia distorce bens perecíveis ao comprimi-los em vastas escolhas semânticas: cada verso tem o poder devastador de súbita paixão subtraída, roubando-nos adjetivos e elevando-os ao contorno, outrossim, do intangível.
Um bem súbito capaz de acometer como defesa até o mais relutante e convicto escritor prolixo, maltratado pelas recorrências de "fonemas-edemas" em sua arte.
A poética, de certa forma, não é para o entendimento das massas, mas para seu estranhamento. Este só vira entendimento se o povo, obtentor legítimo da língua, for autuado pelas palavras do poeta em flagrante e com leitura de seus direitos, de decodificação inclusive, ficando detido em seus termos. Em outras palavras, para um leitor não assíduo de poesia ou não iniciado nessa prática, esta só passará a ser assimilada, caso o vocabulário esteja acessível e o conteúdo alinhado ao momento de vida daquele leitor de ocasião.
Ainda que a linguagem e o domínio popular carreguem as vestes inquisidoras do poeta, é da própria natureza arbitrária da manifestação artística constituir o paradoxo de diferi-lo do comum, para que o dito ordinário possa refletir-se sem maiores implicações, uma vez que "o artista" reconhecido enquanto sujeito, torna-se autor da manifestação, representando o direito que "os demais" parecem não atribuir a si mesmos quando o elegem como representante, uma vez identificados com o que leem.
A grande deformidade do conceito do SER POETA, advém da glamourização do oficio em detrimento à conciliação estética das curvaturas do real em fantasia que o entendimento de conteúdos de arte proporciona. Como a linguagem tende a ser alegórica, a dificuldade em dimensionar seu alcance no dia-a-dia e aproximá-la da temática cotidiana, torna-se um obstáculo para a compreensão do leitor, para os desdobramentos espontâneos ou efeito catártico. A identificação é fator determinante em todo o processo.
Qualquer construção fica comprometida ao ponto em que o artista é confundido com o detentor de um ritmo ou filosofia de vida diferenciados e de expressão favorecida. Ora, se cabe a ele habilitar o próprio olhar e capturar paragens da constituição do coincidente da natureza humana, como tal processo se dará se ele for tido às margens da própria espécie e estigmatizado? Como poderá contribuir de forma genuína e reconhecida para conceber novas vias de percepção do indivíduo se passar a integrar lugar algum?
Entenda-se como artista, aquele que vê como nula a própria existência se subtraído de seu direito de elaboração e transformação constantes, sem as dimensões de expressão criativa, ou que, nas palavras de Fabrício Carpinejar, "distrai-se das coisas (estas utiliza apenas para efeitos de verossimilhança) para concentrar-se nas pessoas", que as percebe, incita, absorve, por vezes, constrange. O artista catalisa o que abomina com a mesma fome que a verve apaixonada do que dizem dom, o constrange. E este é o ponto: a inexpressiva capacidade de auto dialogar é o que gera sua reflexão, elege seus desafios, constrói sua busca autobiográfica, ora confundida em sobras ao puro acaso ora neutralizada na inevitável força do hábito. O artista é o fio condutor do que extrapola sua própria metalinguagem e o auge que rege como reage cada termo é seu produto icônico, sua pintura, sua escultura, sua fotografia, sua expressão artística, exposta ao mundo como a reconstrução de uma sensação agora itinerante, tão tóxica quanto uma saudade.

"O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo."
(Manoel de Barros)

ELOQUENTE - À Mariana Junqueira

O silêncio guarda
A exata melancolia
Que exalta.

ACASO ESTAÇÃO

Há vezes
Minha poesia
                    Rima
Com covardia
Frustração
Esquecimento

Há vezes
Meus poemas
Viram oração...
Ora são ovacionados
Ora chocam
A platéia de otários
Pseudo-Didatas
Escravos de empenho.

Ora escrevem
O que vem na sequência
Ora prescrevem
As próprias dúvidas
Em delito.

Meus poemas
São uma típica moléstia
Das que afastam aos fortes
E abafam os gritos
Fulminam-os em ode
Em ordinárias doses
E game over!
Meu poema é um cover
De infinitas covardias
Mais extremas
Meu poema é nave mãe
Que me abduz em alta voltagem
Dos restos de clausura
Meu poema é um cínico
Vacinado contra a própria obviedade
Meu poema é o viés por onde atravesso
E sobro-me nula.

Meu poema é voz de ciso
A empurrar a dentição que tritura
O enigma pastoso do meu dia-a-dia
Meu poema é uma pena
Uma condecoração por cada falho ato de bravura
Meu poema é tão só
Uma súbita sutura
Que sangra cada suposição
A coagular na fuligem
De minha franca armadura.

Meu poema é uma rima pobre
E letárgica
Que se consome no ventre
Mas no ventre não se espalha.

Meu poema é um acidente
Em percurso presumido
Meu poema é a ínfima gênese
Em que mato o que eu mesma crio.
Meu poema é um filho bastardo
Alimentado no verbo
Mas abandonado ao acaso dos trilhos.

NEOLOGUISMO (POEMA LOGO ALI)

Sempre invento
Novas esperas
Para me mover
No tempo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DA CONFISSÃO E DA INDULGÊNCIA

A tua malandragem
Te precede
E eu, admito
Cedo aos teus "em tanto"...

Entretanto
Te percebo
Te estudo
- Não projeto -
Projeção pressupõe perspectiva
E a minha literatura
Te deforma
A cada hora
Desconstrói
E temporiza ao meu gosto
E ao meu modo
Irrestrita
Sou dona de conceber
A fé antiga
Que atire a primeira pedra
Quem não for mulher
De erguer-se da queda
Mais bonita.

Minha beleza
É o contra-senso
Da tua lógica
Desafiada
Pela gótica
Simetria
Que verbaliza.

Conforme
A performática
Do anti-furto
Te entrego
O meu amor
Dissuadido do verbo
E enfim, me nego...

É meu indulto.

PLANO B

- E se o avião cair?
- A gente vai andando.

AUTOMATÁRIA

A arte
Distrai
Os que se dizem a léguas
Dalí
Das lições
                da língua
Daqui.

PONTUAL

Hora fosse
Tempo o que me habita
Eu já era.

sábado, 31 de dezembro de 2011

TRANS_LÚCIDA

Luas
Multicor
Afastam sombras
Da luz terrena.

E eu
Fosse o poema
Vivia a construir fortes
Para guardar a morte
Que desfalece
                 Na lua cheia.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

HABEAS CORPUS

Que conste no autos
Cada evidência trêmula
                                   Das vossas concessões
Para que enfim,
Não nomeies o inevitável
Com os escrúpulos do todo-acaso.

A salvo os prazos,
Estão as prisões.

DORAVANTE

A poesia caiu do cavalo
E resolveu seguir
Adiante
Por sobre os próprios pés de estigmata
- Os seus punhos -

Jamais haverá de confiar seu vir a ser
A um quatro patas
Incapaz de livrar sua palavra
                                          Do infortúnio.

ESTOFO

Na glória
E à deriva
O vínculo simplório
Do reencontro
É o que rema a vida.

TUDO BLUES

Finalmente
O final diz a verdade
E você jazz era.

JURADA DE SORTE

Meu amor
É uma afronta
Imaculada
Sob as amarras
Da Literatura.

Liberta e sôfrega
- A mais honesta  -
De minhas súplicas.

Quisera poder arrendar
O meu peito ao teu amor
Como me invade a poética
A cada jura.

CUSTO BENEFÍCIO

Se Matisse
                Visse
A cor que o matou
Estaria em crise...

Jamais daria vida
- Ao dom -
Que pincela
                 Nas matizes.

SLOW MOTION

Era uma vez
Uma vespa amestrada....

De tanto voar presa
Aprendeu a morar no ar
- Suspensa -
E a morrer
                Em câmera lenta.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

OLHAR CLÍNICO

Acostuma
A me observar
Lírica e pautada
Na tua estética
Em minhas curvas.

Deixa que eu te escreva
O meu melhor é um porém
Se bem me mede
Há outras dúvidas.

DUPLO SENTIDO

Se você viesse
- Penso -
Eu não chegaria
A partir
             Do encontro

A sós, uma via.

DAS INTEMPÉRIES E DOS RISCOS

A cada dia
Convenço-me
Da transitoriedade
Do engano.

Há certas chuvas
Que trazem a colheita
De todo um ano.

ADVERSA

Te dou torpor
Amanhecido
De promessa
Sem garantias de volver à tua sede
Os meus pecados são da fonte, a rede
E eu, do verso.

- Ninguém -
                    Me versa.

SANGUE FRIO

Um poema
É vasta oferta
É fé, alerta
Em meu ventre
Um obstáculo.

Observa-me reluzir em tua pele
Enquanto me descobres anestésica coleta
O poeta que traz às margens a própria fome
Extingue a febre que lhe é concreta.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

LEGÍTIMA (in)DEFESA

Quero tomá-lo
Percorrê-lo em guerrilha de mouro
Quero roubá-lo acerca de ti
- De teu próprio ouro -

Mas não quero
Querer-te
Em vias de latrocínio

Só em último caso
Te redimo e descarto
Com um único tiro.

DA POSSESSÃO E DO DESAPEGO

Estamos
À beira
De um ataque
De termos.

Teremos
Nós
O devido
Tempo
De verbalizar
O dito
Efêmero?

Eu tenho.

ARQUIPÉLAGO

O amor
Preconiza
O que sonha.

Raios não são de verter estrelas
- Entranhas -
Mas de merecer
A lua que corta os céus
De Noronha.

DA LIMITAÇÃO DO AMOR E OUTRAS ABSTENÇÕES

Prometo de conter no olho
O que for de esmiuçar no verso.

Acaso te proponho 
De ver o mar no sonho
Não navegar o imprevisto
                                         Cego.

APELO

Explique-se
Evite-me
Eurídice
Morreu.

Motive-se.

METALINGUAGEM

Este poema
É a garantia
De que mesmo lido
O amor é um código
Que nos livra do óbvio
Não do risco.

O que não foi dito nos olhos
Permanece em sigilo.

SOBREVIDA

O amor é um parasita
- Trágico -
A debochar do próprio hospedeiro.

Hospitalize-o.

Tanto faz quem agoniza
O elo é um frágil
Descoberto na premissa.

Morrer de amor
É sobrevida.

OFICIOSOS OSSOS

Viro do avesso
O papel e o gesto
E te encerro
Em rima fria
Com mãos te ferro
- Te engesso -

Refrear o caos
Dá recesso

Não dá sílaba.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

DO EXERCÍCIO DA POSSE


Bem de onde
Ouço
A tua insígnia
Me calo
No sopro
E te verso
Infinita.

E a cada cor de mar
Maré vem
- Mansinha -
E molha-me a ponta do pé
Não sou bailarina.

Mas danço
Embalo o pranto
Em tua rima
E se choro
- Não te assusta -
A alegria não faz doer
De ouvir coisa alguma.

Sou menina de fé
Posso descrer se quiser
Há vezes moro na lua.
Não por sua imensidão
Taciturna
Mas por poder decrescer
E assim te esconder
Em rima de rua.

Eu sei
Eu te porto sem parecer
Flor de lótus
Ou adorno de chuva
Pois o que molha
Só irá respingar
Quando a lira
Por bem me deixar
Para enfim, ser tua.

domingo, 4 de dezembro de 2011

DO PRINCÍPIO DE TODAS AS SOMBRAS

Amo a extrema fosforescência
 - Fosca ao amar-te -

Amo esbanjar-te tolo
Enquanto enfeitas aquela outra
Com torpor de colheita
E nenhuma face.

E bem sei, te são tantas...
Uma para cada teu
Obra para todo quase!

Ainda que não eu
Escolho-me íntima
Para abandonar-te ao teu descaso
Somos ouro de tolo
Farinha do mesmo saco
Assalto teus prósperos verbos
E me encontro quando me roubas
De tua própria fé
Ao fingir que não sabes.

São os médios e graves
Que dão os tons do teu ego
Mas se te começo
Te acabo
O amor não foge a um cego
Só protege-se na arte.

DISTINTA

A tinta caprichosa
Do meu desaparecimento
Te assinala vasto
E a mim, omissa.

Vivo em cada nota lágrima
Que entre lencóis
A sós em teus braços
Se presentifica.

DA GÊNESE E DO ESTRANHAMENTO

Você
É meu bendito
Usufruto
              Unsual...


Você é meu empréstimo
Servo e tão astuto
Que sei
Jamais substituo
Ao final.

Você
É a razão
Demasiada
Plena
Meu equilíbrio
- Díspar -
Em quarentena
Meu santo graal.

Você
É minha hora
Salva
Subentendida
Você
É aquela mesma aurora
Ingrata e voluntariosa
Que digna e exata
Me permeia...

Você é meu verso
Meu enigma.

VIAS DE FATO

Pareço vagar entre meias-inspirações
Delírios de sóbrio em pirotecnia
Acima de meus braços
Está o absoluto diagnóstico
Faço votos mas te devoro
Como, 
- Bem -
Eu já temia...

Tento ser menos "Poe"
E dar mais espaço para o óbvio
Tento encolher minhas expectativas
Para estar ao menos prevista
No meu próprio descaso
Mas tu me reclamas o êxito
Quase que no dia-a-dia de nossas lavouras
Lavra a si dor
Como à palavra rege a boca
E me cala.

Fico eu subentendida
Em relatos de inóspita sobrevivente
A intercalar meus períodos de luto
Com tuas doses prematuras e tão típicas
Que às vezes
Pareço ler tuas sombras mais escusas
E iluminar teu próprio rastro.

Sei que no fundo não recusas
Mas é arbóreo o terreno etéreo do teu pensamento
Sei que de viver sinto o pleno
A léguas de prever assento
A poeira que levanto a cada ato
É minha senha
Entenda-me bem se assim puder.

Clara é a predominância do intacto
Vinga a reserva fina do acaso
Ao caso de ser perene
Precipito o caos da gênese
Ao que já me é um hábito.

Mas não habito o que me acende
Apago cada lampião exato
A ditar amarguras
Eu sou livre forma intercalada
Inequívoca o suficiente para submeter-te
À todas as minhas falhas
E às tuas.

O tempo é meu íntimo inimigo
E o mais bem aventurado.
Que queres de vencer 
 - É dúbia tortura - 
Se não sabes o bem viver 
Que te aguarda, a salvo
Na loucura?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

PONTO DE EQUILÍBRIO

Barroco
Tua voz arde
- Rouco –

No silêncio
A contrastar
                        En_ contraste


Eu,
Desencontro.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SÓ_LETRANDO

Tem um espaço curioso
Em meu esboço
Quase fosse possível
Revirar o poema.

Sou avessa ao óbvio
- Como quem sente e simplifica -

Na verve há alma...

Não há na sílaba.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

PARTE DE MIM

Não te espero
Porque te carrego
Íntegro
- E circunspecto -
Em cada frágil repetida frase
Quando coragem te é um verbo.

Não te espero
Porque a distância é exata
Entre o corpo teu que reage à palavra
E o amor meu que te elege, ereto!

E é por sempre estares perto
Que aperto o punho
E te faço um verso
Ora mil, ora cem
- Ora sem ti -
Te sei,
- Só, rezo -
E se é hora de dormir
Embalo a alma que deixaste aqui
Entregue à calma que te sabe
                                             Eterno.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

RESSONANTE - para Luiz Parreiras

Não
Que não seja
Dor
O que pulsa
                   Minha letra
Mas não é mortificante
Ou de comprometer
Minha liberdade
Ou a dádiva
De desprometer-me
                              Da caneta.

Só sei que calhei
De devolver ao papel
Os personagens expulsos
Do seu próprio enredo...
E não é mágoa
Ou pesar
O que dá esse tom
É o revirar
De um sóbrio
Medo.

Eu sei
Que dá de machucar
O que eu escrevo
Mas a ferida
Que exponho ao luar
Muito antes já se foi pra lá
- Não mais a tenho -

Poeta quando ousa reverberar
É que a dor que fisgava está,
No só,
           Do imenso.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

VOO SOLO

Sempre
Que quero
Te dizer
Um poema
- Calo -
Aperta o sapato
E de pé descalço
- Eu salto -
                   Inteira.

NÃO DIGO

Eu te amo
                Ainda
                Sempre
- E por enquanto -
Tanto faz
Meu tempo
                 Verbal.

ENTRE "AS"

Meu destino?
Destituir-me do extremo
Causa_dor
                do puro acaso...
- O des-A-tino.

OBVIAMENTE

Eu encontrei nos teus olhos
A mesma (e viva)
Latência
Quase presumida e não extensa
Aquela mesma
Que te rende e me principia
A poesia
           Das evidências.

AUTO-INTERFERENTE

Tenho a impressão
De que o tempo
Só passa
Pra me manter
- Deveras -

Atemporal.

ARTILHARIA

Há uma singela
E extra
Curvatura
No recôncavo-gênese
- Na literatura -

Há um sentido sui generis 
Que enfim, não cabe à letra
- Nem perdura -

Pendura as chuteiras
E calça teus tênis...

Poeta bom de pênalti
Não merece 
Perder a falta 
                    De ternura. 

GERATRIZ

Eu mastigo
                Cada bendito fruto
Resumido.

Em meu útero
- Um parto abrupto -

O que não me sai à luz
                                   Re-significo.

SÃO LONGUINHO

Eu escolhi
Encolher
Pormenores...

Por maior que seja o detalhe
- Generalizo -
- E esqueço -
O objeto que me deixa, vivo

Eu perco.

SENTENÇA

Cantar a morte
Evoca
Instintos de sobrevivência.

E eu calo.

É do silêncio
Que se ergue
                    O estrago.
                                     

ESPAÇOS - A Paulo Leminski

Tá aí
Agora
Vir
- pra perto -
Vai te levar
                Mais longe.

SÓ_TÃO

Escarlate
Eu bebo
Eu vejo
- O vermelho -
Em teu sangue
                      Não há sorte...

Quisera poder reverter
Tal tua arte
Essa cisma
Contínua
De decrescer à catarse.

Bem que tento
Ser porquê
Quando o que me resta
É pedir mais uma dose
Em dócil esmero
Ou em frase...

Frágil é o recesso
Do meu eu
- Eterno -
Em diálise...
Dia-a-dia
A análise
Anáfora
Presumida
                Em overdose.

Não fossem os fósseis...
Admiro-me dos sósias
- Do espetáculo -
Espero em Espártaco
Que sem rever
Espantalhos
Minha horta norteia
Aos dons do semi-árido.

Deserto
A desertar Herodes
Heróis não sucumbem
Ao estupor dos que matam
Mas aos que em tanto
Disparam os seus cantos
Em in_pacto!

Te dou o meu sótão
Para que possas absorver
Isóbaros
Indignos de super exposição...
Te escondo, então
Se te acham
Não me roubam
- De ti -
Resta um simples
Auto-retrato
Não um léxico
Mas um leão
A devorar
               O meu porvir.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DO HIPOTÉTICO ÀS RETICÊNCIAS

Ele:
- Flamengo? Nossa... Essa sua paixão é recente...

Ela:
- Relativamente... Nada comparável àquela, sabe? Que é atemporal...

Ele:
- Paixão atemporal não é paixão....

Ela:
- Não mesmo... É aquela outra coisa, sabe? E nesse caso, onde há temporal, há chuva...

Ele:
- E quem sai na chuva...


Ele a olha nos olhos e fecham-se as cortinas.

Naquelas horas
- Adiante -
Só relâmpagos.

TEOREMA DO ABSTRATO

Te sujeito ao oculto
Mas o que cultuo no mundo
É o teu nome.

Toda e qualquer nova via
Será acesso
Aos teus mesmos caminhos
- Nossos cenários -

Odes inteiras, sonatas
- Meu presságio insone -
Não haverá nunca
Dose qualquer ou mais lúcida
Do que a convicta louca
A merecer, escrita
A tua música...

Por isso, te peço:
Vê se pulsa o objeto direto
Que embala minha rima
- Faz mais de um século -
E me escuta:

Acaso me escreva
Um jazz ou blues
Não me negue às notas
- Ainda que em forma bruta -

Tanto faz o tom de azul
Se fizer de minha
- A que for tua -

E não me fizer
                      de conta.