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O SOPRO DA VINDA

Você transforma tudo... E o seu poder, está na distração Naquela que não pode ser consumida Nem simulada.
Amo você tanto mais  no que antes  parecia conhecer menos  E hoje, apenas sei. 
Só o saber com amor Reserva entendimento: Tudo mais são jogos de ilusão Premissas criadas em desespero Pelo que se pressente Incontrolável. 
Há um amor indizível  No desconhecido  Na coragem de simplesmente  Poder tatear teu coração com o meu E os teus silêncios com os meus sentidos. 
Amo você em nossos desacertos  Porque me provam que desafiamos  O tempo Ele a nós E nós ao infinito. 
Se permanecemos Uma década de códigos  E luzes de pisca-pisca nas savanas,  É porque somos capazes de amar Selvagens  Por entre tão áridas estações de concreto,
É porque insistimos  Em embarcar no trem, barulhento Por entre a dureza dos trilhos de ferro Para que ao toque da nossa lúdica sintonia Possamos abandonar os sapatos  E desembarcar descalços  Na alada ventura que nos espera Por entre voos de espécimes raras  Nunca dantes descobertas.
Amar não é ato que…
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TEATRO DO ABSURDO

Desculpe-me a franqueza,
Mas não,
Você não é fraco
Todos os seus movimentos são friamente
Calculados.

Na verdade você apenas não se importa
Porque alguma parte de você assimilou
Que o amor é fraqueza
E ser franco, direto
É armar a própria cilada

Você prefere repetir os mesmos caminhos
Fadados ao fracasso
Que jamais te bastam ou bastaram
Por já saber como dominá-los
E injetar a dose exata
Para trazerem à tona
Os seus demônios de estimação.

Você vive para o seu próprio descontentamento
Carregando uma cruz que só é sacra
Porque você se permite sempre
O seu próprio perdão
Inventa argumentos com a facilidade
De um vendedor de sonhos.

Você finge muito bem pra você mesmo
Que tem coragem de ser
De amar
O suficiente pra você jamais questionar o seu método abortivo

Abortivo de possibilidades
De sonhos
De realmente se auto-conhecer
Porque na verdade
Você só quer se sentir inatingível
Enquanto assiste a derrubada das defesas
Que faz de todos aqueles que te cercam
E r…

É DAS ÁRVORES QUE SE FAZ PAPEL

Há vezes
Leva anos
Até que eu decida
Abrir um caderno novo,
Adentrá-lo.

O zelo que tenho
Para trazê-lo a mim,
Deitar-me nele
- Com minhas palavras -
Torna-se ritualístico,
Uma mimese estreita
Entre diálogo e risco,
Enquanto a ênfase se esgueira
E não se cala.

Afinal,
Escolher palavras
É entregá-las ao inóspito,
- Cruas -
É expor
Sua carne vocábulo,
Mastigar a língua
Engolindo os olhos
Ainda que estejam fechados,
E a boca, muda.

Mas uma vez aberto
- o caderno –
Não há volta:
É feito o trato
E a vida ali transcorre nascente
Flui córrego
Estufa o solo,
A semente,
Ergue-se fértil
Aos pés
Do céu estático.

Tudo o que nasce ali
Então se move:
Seja medo
Maré
Montanha,
Descaso de amor que se ganha,
Ou adeus que se perde no verso.

A fé só lê de perto
Quem a acompanha,
Que não teme renascer da lama
Nem abandonar o drama
E fechar de vez o seu velho caderno.
(Ilustração de Maja Lindberg)

O AMOR PRECEDE A EXISTÊNCIA

E se eu estendesse as tuas próprias palavras
E as lavasse do ritmo
Do timbre
Dos anos
E as apresentasse pra ti?

E se eu bradasse aos quatro cantos
O mesmo silêncio que exiges
Que seja escutado
Por entre intempéries e raios
E te pedisse pra me ouvir
Claro
E em alto e bom som?

E se eu usasse todos os meus dons
Para subverter a beleza que não se vê
Com os olhos
E batesse no peito com a humildade
De um cego
Mas te ferisse com meus dragões?

E se o bem que eu te fizesse
Viesse sempre a costurar-me a boca
A cruzar meus braços,
E se minhas bênçãos debochassem
Das tuas vestes e do teu hábito
Haveria como professar a fé
Sem que te sentisses um otário?

TERRA DO SOL

Eu vi...
Teus olhos me atravessaram
Como no princípioMas não era rastro de fogo,
Foco de incêndio inflamando
O céu em fogos de artifício...Era a chama mais íntima
De um fósforo
Que estivera a espera
Pela faísca mais exata
- E precisa -
A combustão espontânea
Prestes a se alastrar dos olhos
Para o além espaço e sem medida.Eu sei...
Teus olhos sequer piscaram
Não desviaram um segundo sequer
Dos meus lábios
Foi como se me beijasse a boca
E tirasse de mim cada palavra
- inda sílaba -
Me oferecendo nos braços
O laço exato do aconchego
Que chegaria,
- apenas e a tempo -
Com a tua vinda.E sequer tive medo
Sequer raciocinei
Ou criei expectativas...Foi como se finalmente
- Das cinzas -
Todas as minhas instâncias
- Poesia e Poeta -
Estivessem renascidas.Eu vi:
O fósforo
Teus olhosA faísca.

RECEPTIVO

Você ouviu o céu
Versejando luzes
E trovões
Por tua chegada?A lua, mesmo assustada
Brilhou ainda mais alta e plena
E o poema
Me foi a única resposta possívelVocê chegou
E veio rasgando o meu nome
A minha certeza
O meu pedaço mais reviradoE nem pude sentir os teus braços
Ou fazê-los de abrigo
A certeza antes tão longínqua
- e solitária -
atravessou o tempo, o medo
- e o risco da estrada -Para ser esta linha
- de chegada -
Contigo.
(20/03/16)

POEMA DE PALETA

É tão pouco
O claro
Do que enxergo
- Imenso -
Fosse a dimensão
Mera questão de colorir
- O vento -
No inverno,
E em silêncio.Sou preta
Azul púrpura
E rosa acetinadoSou fúcsia
Cor de abóbora
E violeta...Sou laranja
Verde musgo
E também sou chumbo
Se me deseja...Mas sou cor de fundo
Se me decora
Em tua letra.
(21/03/16)